Sob a Proteção do Inimigo · Capítulo 2
A Mansão do Inimigo
A mansão ficava nos Jardins. Claro que ficava.
O carro parou diante de um portão de ferro que se abriu sem que ninguém do lado de fora tocasse em nada, e eu entendi imediatamente que havia câmeras que eu não conseguia ver e pessoas que eu não conseguia contar. O tipo de segurança que não precisa se mostrar para ser sentida.
Eram quase duas da manhã. Eu havia pegado uma mochila, dois processos em pen drive, meu notebook e a arma que eu carregava há quatro anos sem jamais ter precisado usar. Havia deixado para trás o apartamento de três cômodos que eu alugava no Paraíso, a planta que estava morrendo na janela da cozinha e a sensação de que minha vida ainda tinha algum grau de controle.
O motorista — um homem de poucas palavras e ombros largos que claramente não era da polícia — parou na entrada principal e abriu minha porta sem dizer nada.
Eu subi os degraus de mármore com a mochila no ombro e a expressão que eu usava nos tribunais: neutra, fechada, absolutamente não-impressionada.
Ele estava esperando na porta.
Não havia ninguém ao redor. Apenas Rafael Vidal, de pé no hall de entrada, com as mãos nos bolsos de uma calça escura e uma camisa branca de botões com as mangas dobradas até o cotovelo. Como se tivesse acabado de encerrar um dia de trabalho — fosse lá o que trabalho significava para ele.
Era maior do que eu esperava. As fotos de vigilância não transmitiam isso. Tinha pelo menos quinze centímetros a mais do que eu, ombros que preenchiam completamente o vão da porta e uma presença que eu só conseguia descrever como gravitacional — o tipo que reorganiza o espaço ao redor.
Os olhos eram escuros. E estavam diretamente nos meus.
— Dra. Rocha — disse ele. A voz era baixa, uniforme, sem entonação que eu conseguisse classificar como hostilidade ou boas-vindas. — Bem-vinda.
— Vidal. — Entrei sem esperar ser convidada. — Vamos deixar uma coisa clara desde o início.
— Por favor. — Ele se afastou para me dar passagem com um gesto que era educado demais para ser genuíno.
— Eu estou aqui porque não tive escolha. Não porque confio em você, não porque acredito que suas intenções são boas e não porque estou disposta a fingir que somos aliados. Eu vou usar este espaço, vou continuar o meu trabalho e vou sair daqui assim que a ameaça for neutralizada. Sem dívidas, sem favores, sem conversas que não sejam estritamente necessárias.
O silêncio que se seguiu durou exatamente três segundos.
Rafael Vidal me olhou com aquela expressão que eu havia estudado na foto — a antecipação tranquila de alguém que não está sendo surpreendido por nada — e então fez algo que eu absolutamente não esperava.
Sorriu.
Não era um sorriso largo. Era apenas o canto da boca, brevíssimo, quase imperceptível. Mas estava lá.
— Seu quarto é o terceiro à esquerda no segundo andar — disse ele. — Tem uma mesa de trabalho, impressora e conexão privada que não passa pelo sistema da casa. — Uma pausa. — Achei que você preferiria assim.
Eu o encarei.
— Você preparou um quarto com impressora e rede separada.
— Sim.
— Antes de eu concordar em vir.
— Sim.
A informação assentou sobre mim com aquele peso específico de algo que muda o que você acredita saber sobre uma situação.
— Há quanto tempo você sabia que eu viria? — perguntei.
Ele inclinou a cabeça levemente — o mesmo gesto da foto, percebi agora. Como se estivesse avaliando o quanto me dizer.
— Boa noite, Dra. Rocha — disse ele, por fim. E se virou, caminhando em direção ao que eu presumia ser o interior da casa, com a calma absoluta de alguém que acabou de ganhar a primeira rodada de um jogo que o outro jogador ainda não sabe que está jogando.
Fiquei parada no hall por um momento.
A mansão era silenciosa ao redor de mim — mármore frio, luz baixa, o cheiro discreto de algo que eu não conseguia identificar, madeira ou couro talvez. Nada que gritasse dinheiro sujo. Nada que parecesse uma armadilha.
Isso, percebi, era o mais perturbador de tudo.
Subi as escadas com a mochila no ombro e encontrei o quarto exatamente onde ele disse. A mesa era grande, a cadeira era boa, a impressora era o modelo que eu usava no escritório.
Em cima da mesa, havia uma xícara de café.
Ainda quente.
Sentei na cadeira, abri o notebook e não permiti que minha mente ficasse mais de dois segundos na imagem de Rafael Vidal sorrindo no hall de entrada. Tinha trabalho a fazer. Tinha um caso a construir.
O fato de que eu estava construindo esse caso dentro da casa do réu era apenas mais um detalhe.
Foi o que eu disse para mim mesma enquanto tomava o café que ele havia deixado — e que estava, irritantemente, no ponto exato que eu gostava.