Sob a Proteção do Inimigo · Capítulo 1

O Acordo Impossível

Eles me disseram que ele me manteria segura. Não me avisaram que o perigo maior era o jeito como ele me olhava.

Eram onze da noite quando o delegado Moreira entrou na minha sala com aquela expressão — a que eu aprendi a reconhecer ao longo de seis anos de promotoria. A expressão de quem vai dizer algo que sabe que eu não quero ouvir.

— Sua identidade foi comprometida, Isabela.

Eu não levantei os olhos do processo. Tinha aprendido, também, que fingir que não ouvi comprava alguns segundos a mais antes que a realidade me alcançasse.

— Isabela.

— Eu ouvi.

— Então largue esse papel e me olhe.

Larguei o papel. Olhei para ele. E soube, pela profundidade das olheiras que ele carregava naquela noite, que era pior do que eu havia imaginado.

— Quanto tempo eu tenho? — perguntei.

— Talvez nenhum. — Ele fechou a porta atrás de si e puxou a cadeira do outro lado da minha mesa. — Encontramos um informante morto no Itaim às oito da noite. Ele era o único que sabia do seu trabalho no caso Vidal além de mim e do promotor-chefe.

O caso Vidal. Três anos da minha vida comprimidos em dois arquivos criptografados e uma certeza crescente de que Rafael Vidal era a pessoa mais perigosa que o sistema judiciário brasileiro já havia tentado tocar — e que ninguém havia chegado perto o suficiente para queimá-lo.

Até mim.

— Eles sabem o que eu tenho? — perguntei, mantendo a voz no mesmo tom com que discutiria a previsão do tempo.

— Não sabemos o que eles sabem. E esse é o problema.

— Então me coloquem em uma casa segura. Protocolo padrão.

Moreira passou a mão no rosto. Esse gesto específico — palma aberta, movimento lento, olhos fechados por dois segundos — eu havia aprendido que significava: o que estou prestes a dizer vai te fazer querer me matar.

— O protocolo padrão foi comprometido há três semanas — disse ele. — Tivemos uma infiltração no departamento. Ainda estamos mapeando a extensão do estrago.

O silêncio que se instalou entre nós tinha peso físico.

— Então o que você está propondo? — perguntei, e já havia algo na minha voz que soava diferente. Mais baixo. Mais controlado. O tipo de controle que vem não da calma, mas do esforço ativo de não perder a calma.

Moreira abriu a pasta que havia trazido. Colocou uma foto na minha frente.

Eu já havia visto aquele rosto centenas de vezes. Em fotos de vigilância granuladas, em registros de câmeras de segurança, em um único vídeo de três minutos que a equipe havia levado quatro meses para autenticar. Mas nunca nítido assim. Nunca olhando diretamente para a câmera como se soubesse exatamente que aquela foto existia e simplesmente não se importasse.

Rafael Vidal tinha quarenta e um anos nas fichas do departamento. Na foto, parecia mais velho na expressão e mais jovem no físico — uma contradição que, de alguma forma, tornava o rosto dele mais difícil de ignorar do que deveria ser.

— Não — disse eu, antes que Moreira abrisse a boca.

— Isabela...

— Não. — Empurrei a foto de volta. — Eu não vou entrar na casa desse homem. Eu passei três anos construindo o caso para destruí-lo. Você está me pedindo para dormir sob o teto dele?

— Estou pedindo para você ficar viva.

— Existem outras opções.

— Não que funcionem. — Moreira se inclinou para a frente. — Rafael Vidal tem o sistema de segurança privado mais eficiente do país. Nenhum dos nossos alvos que tentou atingi-lo chegou perto. E ele... ofereceu.

Aquilo me parou.

— O quê?

— Ele sabe que sua identidade foi comprometida. Não sabemos como. E ele fez contato através de um intermediário oferecendo proteção. — Moreira pausou. — Com uma condição.

— Qual condição?

— Que seja você. Pessoalmente.

O silêncio voltou, mas dessa vez com uma qualidade diferente. Mais fria.

Olhei para a foto de novo. Rafael Vidal olhava para mim da superfície brilhante do papel fotográfico com aquela expressão que eu não conseguia nomear — não era arrogância exatamente, não era ameaça. Era algo que se parecia perturbadoramente com antecipação.

— Ele sabe quem eu sou — disse eu. Não foi uma pergunta.

— Aparentemente, sim.

— Há quanto tempo?

Moreira não respondeu imediatamente. E esse silêncio específico me disse tudo que eu precisava saber.

Levantei da cadeira. Fui até a janela. São Paulo lá embaixo pulsava em laranja e branco, completamente alheia ao fato de que minha vida havia acabado de ser reorganizada sem o meu consentimento.

— Se eu entrar naquela casa — disse eu, sem me virar —, o caso continua.

— Isabela...

— Essa é a minha condição. O caso continua. Eu não paro de trabalhar só porque estou sendo babada pelo homem que eu pretendo processar.

Ouvi Moreira se levantar. Ouvi os passos dele se aproximarem.

— Você tem duas horas para pegar o que precisa — disse ele, baixinho. — O carro passa às uma da manhã.

Não respondi. Continuei olhando para a cidade.

Atrás de mim, a porta se fechou com um clique suave.

E eu fiquei sozinha com a foto de Rafael Vidal virada para cima na minha mesa, olhando para o teto, com aquela expressão que eu finalmente consegui nomear.

Era a expressão de alguém que já sabia como o jogo terminava.

O problema era que eu ainda não sabia qual era o jogo.