Sob a Proteção do Inimigo · Capítulo 3
Regras de Convivência
No terceiro dia, eu estabeleci regras.
Escrevi em uma folha de papel, dobrei ao meio e deixei sobre a bancada da cozinha às seis e meia da manhã, antes que qualquer outra pessoa na casa estivesse acordada. Ou pelo menos antes que eu soubesse que qualquer pessoa estava acordada — aprendi rapidamente que Rafael Vidal se movia pela própria casa com um silêncio que não combinava com o tamanho dele.
As regras eram simples: sem conversas desnecessárias, sem perguntas sobre o meu trabalho, refeições em horários distintos para evitar contato, qualquer informação de segurança comunicada por escrito ou através do segurança de plantão.
Quando desci para o café da manhã às oito, a folha havia sido movida. Estava no mesmo lugar, mas havia algo escrito no verso com letra regular, nem grande nem pequena, a caneta de tinta preta que ficava ao lado do bloco de recados na bancada.
Li. Uma adição: o café da manhã é às sete e meia. Se você descer depois, o café já foi feito há tempo demais e fica ruim. — R.V.
Olhei para o bilhete por tempo suficiente para perceber que estava olhando para o bilhete por tempo demais.
Virei a folha, servi o café que estava, de fato, passado demais, e subi de volta para o quarto.
No quarto dia, desci às sete e vinte e oito.
Ele estava na cozinha. De costas, mexendo em algo no fogão com a concentração silenciosa de alguém que não faz aquilo para impressionar ninguém. Uma frigideira, ovos, torradas já prontas sobre o balcão. Ele estava de calça escura e uma camiseta simples, sem o peso formal da primeira noite, e havia algo nessa versão dele — mais cotidiana, menos construída — que era mais difícil de encaixar na imagem que eu havia passado três anos montando.
Não disse nada. Peguei uma xícara, servi o café, sentei no banco mais distante do balcão.
Ele colocou um prato na minha frente sem olhar para mim.
— Eu não pedi — disse eu.
— Eu sei. — Ele sentou do outro lado do balcão com o próprio prato. — Mas você não comeu nada ontem à tarde e trabalhou até meia-noite. — Uma pausa. — Os ovos não têm veneno. Caso esteja se perguntando.
— Não estava me perguntando sobre o veneno.
— Sobre o quê então?
Eu o olhei.
— Por que você sabe que eu trabalhei até meia-noite?
Ele encontrou o meu olhar com aquela calma maldita que eu estava começando a achar genuinamente irritante.
— Porque a luz do seu quarto ficou acesa. — Ele voltou para os ovos. — Posso ver daqui de baixo.
Era uma resposta simples. Provavelmente verdadeira. E ainda assim havia algo nela que eu não conseguia soltar — a informação de que ele havia olhado para a janela do meu quarto às doze da noite.
Comi os ovos. Estavam bons, o que foi a parte mais inconveniente de toda a situação.
— Você cozinha — disse eu, por fim. Não consegui evitar.
— Às vezes.
— Não combina com o perfil.
— Qual perfil?
— O seu. — Larguei o garfo. — Líder de organização criminosa, quarenta e um anos, patrimônio não declarado estimado em oitocentos milhões, nunca foi indiciado. O perfil não inclui ovos mexidos às sete e meia.
Rafael Vidal me olhou com aquela expressão de antecipação.
— E o que inclui?
— Capangas que fazem as coisas por você. Distância. Controle por delegação.
— Às vezes — disse ele — a coisa mais eficiente é fazer você mesmo.
Havia duas formas de ouvir aquela frase. Eu escolhi a mais segura.
— Vou precisar de acesso ao arquivo de segurança do perímetro norte da propriedade — disse eu, mudando de assunto com a brutalidade cirúrgica que eu havia aprendido nos tribunais. — Para entender os pontos cegos.
— Por quê?
— Porque se alguém souber que estou aqui e decidir agir, eu quero saber de onde o ataque vai vir antes que chegue até mim.
Ele me estudou por um momento.
— Você não vai apenas esperar que a minha segurança cuide disso.
— Não.
— Por quê?
Eu o encarei diretamente.
— Porque eu não confio na sua segurança mais do que confio em você. E eu não confio em você absolutamente nada.
O silêncio que se instalou não era hostil. Era, perturbadoramente, quase respeitoso.
— O arquivo estará no seu notebook até o meio-dia — disse ele. Levantou, levou os pratos para a pia, lavou-os com a mesma eficiência silenciosa com que havia cozinhado. — Mais alguma coisa?
Eu havia me preparado para resistência. Para negociação. Para o jogo de poder que eu esperava que ele jogasse.
Não havia me preparado para cooperação.
— Por enquanto não — disse eu.
Ele assentiu. Saiu da cozinha.
E eu fiquei sentada com a xícara de café na mão, olhando para o lugar onde ele havia estado, tentando entender por que a versão mais perigosa de Rafael Vidal não era a que aparecia nas fotos de vigilância.
Era essa. A de todos os dias. A que fazia ovos e cumpria pedidos e me olhava como se eu fosse um problema que ele estava com pressa de resolver — mas não da forma que eu deveria temer.