Sangue e Destino · Capítulo 2

A Ordem

Eu devia ter a entregado.

Era simples. Era o trabalho. Havia uma ordem assinada com o selo do Rei, guardada no bolso interno da minha jaqueta, e Lyra estava a menos de um metro — exausta, sem arma, encostada numa parede de madeira podre. A janela de oportunidade era perfeita.

Fiquei parado.

O símbolo no meu pulso pulsava na frequência do coração dela. Eu tinha aprendido isso nas últimas semanas — que conseguia distinguir o ritmo, que sabia quando ela estava correndo versus quando estava com medo versus quando estava com raiva. Agora os dois batimentos estavam acelerados e fora de sincronia, lutando um contra o outro como dois animais no mesmo espaço pequeno.

— Seus homens — disse ela, sem me olhar. — Quanto tempo até que percebam que você não saiu?

— Tempo suficiente.

Ela riu. O som foi curto e sem humor. — Para o quê, exatamente?

Boa pergunta.

Três anos. Eu a tinha rastreado por três anos, por dezoito reinos, através de invernos que mataram homens mais preparados que ela. Tinha chegado perto o suficiente para tocar o ombro dela em Valdris, tinha prendido o pulso dela por exatamente quatro segundos em Ceth antes que ela me acertasse com luz pura no rosto. Tinha tido chances.

Nunca tinha fechado a mão.

Eu sabia o que o Rei queria com ela. Sabia o que acontecia com Tecelãs capturadas — o processo de extração do poder que deixava o corpo intacto e a pessoa dentro vazia, funcional mas ausente, como uma casa com as janelas apagadas. Havia vinte e três Tecelãs no arquivo do Rei. Todas catalogadas. Nenhuma conseguia mais falar seu próprio nome.

Isso não era motivo para hesitar. Eu executava ordens piores.

O símbolo aqueceu.

Lyra tinha olhado para baixo — ela estava fitando o pulso com uma expressão que eu reconhecia porque era a mesma que eu tinha tido vinte minutos atrás, atrás do celeiro, quando o símbolo tinha aparecido e eu tinha ficado parado na chuva por três minutos tentando processar o que a magia antiga estava me dizendo.

Fated mates.

Eu não acreditava em destino. Passara a vida inteira construindo a convicção de que as coisas eram escolhas, eram força, eram quem segurava a faca com mais firmeza. Destino era para pessoas que precisavam de desculpa para as coisas que faziam.

Mas a magia antiga não consultava convicções pessoais.

— Você vai me entregar — disse ela. Não era pergunta. — É o que sempre faz.

— É o que sempre faço — concordei.

Ela ergueu os olhos para mim. Os olhos de Lyra eram âmbar — cor de mel antigo, cor de coisa que queima devagar — e havia neles algo que eu aprendi a não olhar por tempo demais porque criava problemas de concentração. Raiva eu conseguia lidar. O cansaço dela era mais difícil.

— Então para quê isso? — A voz dela estava controlada, mas eu sentia o pulso dela na minha pele. — Para quê me mostrar a marca se vai me entregar do mesmo jeito?

Fiz a pergunta para mim mesmo antes de responder.

— Porque você precisava saber — disse eu.

— *Por quê?*

Não respondi. Não tinha resposta que fosse honesta e também fosse inteligente.

A verdade era que em algum momento nos últimos três anos — eu não saberia dizer quando exatamente, se foi em Valdris ou em Ceth ou naquela noite em Mira quando ela tinha se virado para me enfrentar na chuva com um fio de luz nos dedos e absolutamente nenhum medo no rosto — algo tinha mudado de posição dentro de mim. Não o suficiente para importar. Não o suficiente para mudar nada.

Ou assim eu tinha pensado.

— Kael. — Ela falou meu nome de um jeito que fez o símbolo pulsar forte. — Se você vai me capturar, faça logo. Não me deixa aqui esperando.

Me aproximei. Ela não recuou — nunca recuava, essa era uma das coisas sobre Lyra que eram problema e que eu tinha aprendido a calcular como variável. Parei com a mão alcançando o pulso dela, dedos fechando devagar sobre a marca.

O calor foi imediato. Fundo. O tipo de calor que não é temperatura — é reconhecimento.

Ela prendeu a respiração.

Eu soltei o pulso dela e dei um passo para trás.

— Esta noite você não vai a lugar nenhum — disse eu. — Meus homens estão no perímetro. Se você sair, eles te capturam e eu não controlo o que acontece depois.

Ela me olhou com aquele olhar de quem está calculando se estou mentindo.

— Então o quê? — disse ela. — Você me guarda?

— Por esta noite. — Virei para a porta. — Amanhã a gente decide.

— *A gente* — ela repetiu, a voz carregada de veneno. — Que novidade.

Não respondi. Saí pelo celeiro e fui verificar o perímetro como se minha mão não ainda estivesse quente onde tinha tocado o pulso dela.