Sangue e Destino · Capítulo 1
A Marca
Eu sabia que era ele antes de ouvir o som.
Não era o barulho dos passos — Kael não fazia barulho. Era o silêncio. O tipo específico de silêncio que ele carregava consigo, como se o ar soubesse recuar quando ele entrava num cômodo.
Prendi a respiração e não me movi. O celeiro estava escuro, fedendo a palha úmida e cavalo, e eu estava encostada na parede dos fundos com a faca no punho e o coração batendo em lugares que coração não devia bater. Havia três saídas. Eu já tinha calculado.
A porta da frente abriu devagar.
— Lyra. — A voz dele não era alta. Nunca era. — Acabou.
Eu corri para a saída lateral.
Ele estava lá.
Não entendi como — tinha vinte metros de distância entre as duas portas, e eu tinha olhado, tinha certeza que estava vazia — mas estava lá, bloqueando a passagem com aquela postura de quem tem todo o tempo do mundo. Camisa escura, capuz abaixado, os olhos cinza-escuro encontrando os meus na penumbra sem nenhuma dificuldade.
— A saída dos fundos também está coberta — disse ele. — Dois dos meus homens.
— Os seus homens são lentos — disse eu.
— Você está exausta. — Não era insulto. Era análise. — Três dias sem dormir, se eu tiver contado certo. Você vai cometer um erro nos próximos dois minutos.
Odeio quando ele está certo.
Fiz o cálculo rápido. Faca contra um Caçador de sombras num espaço fechado — probabilidade de sobrevivência: ridícula. Poder de Tecelã num celeiro cheio de material inflamável — possível, mas eu provavelmente ardia junto. Blefe.
— O Rei quer que eu chegue intacta — disse eu. — Você não pode me machucar.
Algo passou pelo rosto dele. Rápido demais para nomear.
— Não preciso te machucar. — Ele deu um passo. — Só preciso te segurar.
Joguei a faca.
Ele desviou sem sequer recuar — o movimento foi quase entediante, o tipo de esquiva de alguém que já viu o gesto mil vezes. A faca bateu na madeira atrás dele e ficou vibrando. Ele continuou andando.
Recuei até a parede.
Kael parou a menos de um metro. Perto demais. O calor que irradiava dele não fazia sentido para um homem de sombras — sempre pensei que deveria ser frio, que deveria cheirar a metal e sangue. Cheirava a madeira queimada e algo mais fundo que eu me recusava a identificar.
— Estenda o pulso — disse ele.
— Que se dane.
— Lyra. — Ele falou meu nome de um jeito que era quase cansaço. — Estenda o pulso.
— Por quê? — Minha voz saiu menor do que eu queria.
Ele não respondeu. Estendeu o próprio pulso esquerdo.
No escuro, eu não devia conseguir ver. Mas havia uma luz fraca vindo da própria pele dele — um símbolo que eu não reconhecia, linhas entrelaçadas pulsando como brasa.
O meu pulso começou a arder.
Olhei para baixo sem querer. O mesmo símbolo. Exatamente o mesmo, na mesma posição, queimando com aquela luz que não era luz de verdade — era mais quente que isso, mais funda, o tipo de calor que vem de dentro do osso.
— Não. — A palavra saiu automática. — Não, não, isso não—
— Aconteceu há vinte minutos. — A voz dele estava estranha. Baixa demais. — Quando você entrou no perímetro da cidade.
Fated mates.
A magia mais antiga do mundo, a que nenhum rei conseguia controlar e nenhum Caçador conseguia rastrear. A maldição que os livros chamavam de bênção — dois fragmentos de alma fundidos por algo que existia antes dos reinos, antes dos poderes, antes de qualquer escolha que qualquer pessoa tivesse feito.
Olhei para ele.
Ele estava me olhando com uma expressão que eu nunca tinha visto no rosto de Kael — e eu tinha visto muita coisa naquele rosto ao longo de três anos de fuga. Raiva, frieza, concentração, aquele sorriso sem humor que ele usava quando achava que eu tinha feito algo idiota.
Nunca tinha visto aquilo.
Não era horror. Era pior: era reconhecimento.
— Você sabia — disse eu.
— Suspeitava. — Uma pausa. — Há algum tempo.
O pulso ardia. Ele estava perto demais e o símbolo pulsava mais rápido quanto mais perto ele ficava e eu queria gritar porque isso não podia estar acontecendo, não com ele, não com o homem que passara três anos tentando me entregar ao Rei que queria me dissecar viva.
— Então me capture — disse eu, a voz saindo cortante. — É o que você veio fazer.
Kael ficou quieto por um segundo longo demais.
— Sim — disse ele, finalmente.
Mas não se moveu.