Sangue e Destino · Capítulo 3

A Noite

Ele voltou uma hora depois com comida e uma manta que cheirava a fumaça.

Não disse nada. Colocou as coisas no chão ao lado de mim e foi sentar na parede oposta, os braços cruzados, os olhos fechados — ou quase fechados. Aprendi cedo que Kael nunca dormia de verdade na presença de outra pessoa.

Eu estava com fome o suficiente para comer sem fazer perguntas sobre de onde veio a comida. Pão duro, queijo, algo que provavelmente tinha sido carne num passado recente. Comi tudo.

Ele não comeu.

— Seus homens sabem que você está aqui? — perguntei, quando terminei.

— Sabem que estou dentro. Não sabem o que aconteceu.

— Você vai ter que explicar eventualmente.

— Eventualmente. — Uma pausa. — Durma.

— Não vou dormir na sua presença.

Os olhos dele abriram. Aquele cinza escuro que no celeiro parecia quase preto. — Você disse que ficou três dias acordada.

— Na sua presença — repeti.

Ele ficou me olhando por um momento. Depois fechou os olhos de novo. — Como quiser.

Fiquei acordada por mais uma hora, com a manta nos ombros e o símbolo no pulso pulsando em ritmo lento — o ritmo dele, percebi. Quando ele estava em repouso, a marca ficava mais quieta. Quente, sempre quente, mas quieta.

Isso era informação perigosa.

Saber o ritmo cardíaco de alguém é intimidade. É o tipo de coisa que não se desaprende. E eu não podia me dar ao luxo de ser íntima de Kael — de ninguém, mas especialmente dele, especialmente agora que a magia antiga tinha decidido me pregar essa peça específica.

Observei ele enquanto ele ficava quieto.

Kael com os olhos fechados parecia diferente. Não mais gentil — ele nunca era gentil — mas menos afiado. Menos like uma faca e mais como a faca na bainha. O mesmo objeto, mas contido. A linha da mandíbula, o pescoço, os ombros que ocupavam o espaço com aquela solidez que me irritava porque me fazia sentir o peso específico deles sem querer.

Três anos. Eu o tinha estudado tanto quanto ele me estudava — porque sobreviver ao seu caçador exige conhecê-lo, exige saber como ele pensa, o que prioriza, onde está o limite entre ordem e instinto. Sabia que ele era canhoto. Sabia que preferia sombra a ataque direto. Sabia que havia três vezes em que ele podia ter me prendido e não tinha.

Nunca soube por quê. Tinha teorias. Nenhuma que eu quisesse examinar.

A marca aqueceu de repente — forte, como se tivesse sido pressionada.

Kael abriu os olhos imediatamente.

— Sonho — disse eu, antes que ele perguntasse. — Acontece quando fico muito tempo acordada.

Ele me olhou. — Você não estava dormindo.

— Memória, então.

Ficou quieto. Depois: — De quê?

Não era o tipo de pergunta que Kael fazia. Era o tipo de pergunta que pessoas faziam quando queriam saber algo de verdade — não para usar contra você, só para saber.

Fiz a coisa mais idiota possível: respondi.

— Minha irmã — disse eu. — Ela era Tecelã também. Mais nova que eu. O Rei a capturou quando eu tinha dezenove anos.

Kael não disse nada.

— Eu vi ela depois. — Minha voz ficou plana porque havia aprendido que plana era mais fácil. — O que ele deixa atrás. — Uma pausa. — É por isso que não me entrego.

— Eu sei — disse ele, baixo.

— Você sabe e me caça do mesmo jeito.

— Sim.

A honestidade era desconcertante. Preferia quando ele era frio — o frio eu sabia processar. Essa versão dele, quieta e direta no escuro, era mais difícil de colocar onde ela precisava ficar.

— Por que você não me entregou hoje? — perguntei.

Ele levou um tempo para responder. — Ainda estou decidindo.

— Isso é uma resposta terrível.

— É a honesta.

Me envolvi mais na manta e olhei para o telhado do celeiro, para as frestas por onde entrava o azul frio da madrugada. O símbolo estava quieto de novo — o ritmo dele de volta ao repouso, como se a conversa tivesse o acalmado.

Isso também era informação perigosa.

— Kael.

— Hmm.

— Se você me entregar — disse eu, com cuidado — a marca vai doer. Para os dois. Isso é como funciona.

Um silêncio longo.

— Eu sei — disse ele, finalmente.

Não disse mais nada. Eu também não.

Mas quando fechei os olhos pela primeira vez em três dias, o calor no pulso não era desconforto.

Era, por alguma razão que eu me recusava a nomear, a coisa mais parecida com segurança que eu havia sentido em muito tempo.