Prazer Proibido · Capítulo 2

O Homem por Trás da Máscara

— Ótimo, olheiras — resmungou, passando corretivo com pressa. — É exatamente isso que eu queria para conhecer o homem mais influente da capa da revista de economia.

Ela escolheu uma calça de alfaiataria preta, de cintura alta, que valorizava as curvas sem ser vulgar. Uma blusa de seda branca, de decote discreto, mas que deixava a pele dos ombros levemente à mostra. Por cima, um blazer estruturado, também preto. Nos pés, scarpins de salto médio. Profissional. Elegante. Marcante — como Rafa tinha pedido.

Prendeu os cabelos castanhos em um coque baixo, deixando alguns fios soltos ao redor do rosto. Um batom vermelho fechado deu o toque final.

Quando terminou, olhou para o próprio reflexo com uma mistura de estranheza e orgulho.

— Laura Nogueira — disse, em voz baixa. — A melhor matéria da sua carreira começa hoje. Não surta.

Pegou a bolsa, o gravador, o caderno de anotações e saiu de casa.

O prédio do Grupo Monteiro era exatamente o que Laura esperava: imponente, de vidro espelhado, com linhas modernas que pareciam cortar o céu. O hall de entrada era amplo, com um piso tão polido que refletia os passos apressados de executivos, recepcionistas simpáticas demais e seguranças discretos.

Ela se aproximou da recepção, tentando controlar o nervosismo que se escondia debaixo da postura firme.

— Bom dia — cumprimentou. — Entrevista marcada às dez com o senhor Gabriel Monteiro. Nome: Laura Nogueira, do Jornal Visão.

A recepcionista sorriu com profissionalismo treinado.

— Claro, senhorita Nogueira. — Digitou algo no sistema. — Sim, está registrada. Vou avisar à assistente dele que já chegou. Pode aguardar ali, por favor.

Laura se virou para o conjunto de poltronas de couro próximo à parede de vidro. Sentou-se, cruzou as pernas e abriu o caderno de anotações, revisando as perguntas principais que tinha preparado: trajetória, estratégias de mercado, decisões arriscadas, imagem pública, filantropia. E, é claro, as perguntas mais incômodas, anotadas apenas com palavras-chave que a fariam lembrar da verdadeira intenção.

“Escândalos abafados?”, “doações suspeitas?”, “demissões em massa”, “conselhos de administração”.

— Senhorita Nogueira?

Ela ergueu os olhos. Uma mulher alta, de terninho impecável e sorriso controlado, estava diante dela.

— Sou a Júlia, assistente do senhor Monteiro. Ele pediu que a acompanhasse até a sala dele.

Laura se levantou, guardou o caderno na bolsa e seguiu Júlia até os elevadores. O caminho até o topo parecia mais longo do que deveria. Cada andar que o número digital avançava, o coração dela acelerava junto.

Quando as portas se abriram, o cenário mudou. O último andar era mais silencioso, quase solene. Poucas salas, muitos vidros, uma vista panorâmica da cidade que tirava o fôlego.

— É ali — Júlia indicou uma porta de vidro fosco com uma placa discreta: Gabriel Monteiro — CEO. — Ele está à sua espera.

Laura engoliu em seco.

— Obrigada.

A assistente sorriu de forma neutra e se afastou. Por um momento, Laura ficou sozinha no corredor, diante da porta que, de certa forma, poderia determinar o rumo da sua carreira.

Respirou fundo. Uma, duas vezes. Bateu.

— Entre — a voz masculina soou do outro lado, grave, firme, com um timbre que fez algo dentro dela estremecer.

Ela girou a maçaneta e entrou.

A sala era ampla, com paredes de vidro que revelavam a cidade se estendendo até onde a vista alcançava. A decoração era minimalista, moderna, com poucos móveis, todos de linhas retas e tons sóbrios. Nada ali era excessivo, mas tudo gritava luxo discreto.

De costas para a porta, observando a cidade, estava ele.

Gabriel Monteiro.

O mesmo terno impecável das fotos, mas ainda mais impactante ao vivo. A postura reta, as mãos cruzadas atrás do corpo, os ombros largos sob o tecido. Quando ele se virou, o mundo de Laura pareceu se estreitar por alguns segundos.

Os olhos dele eram ainda mais intensos pessoalmente. Escuros, atentos, avaliadores. Havia algo na forma como a examinou, rapidamente, dos pés à cabeça, que fez a pele dela aquecer.

— Senhorita Nogueira — disse, aproximando-se. — Prazer em finalmente conhecê-la.

“Prazer.” A palavra ganhou um peso diferente na boca dele.

Laura estendeu a mão.

— O prazer é meu, senhor Monteiro. Obrigada por nos receber.

O aperto de mão dele foi firme, quente. O contato durou um segundo a mais do que o estritamente necessário, e ela percebeu — com irritação e algo mais — que aquele homem sabia exatamente o efeito que causava.

— Por favor, me chame de Gabriel — ele sugeriu, soltando a mão dela. — “Senhor Monteiro” me faz parecer mais velho e inacessível do que eu gostaria.

Ela sorriu de leve.

— Tudo bem, Gabriel. E pode me chamar de Laura.

Ele indicou uma poltrona próxima à mesa de centro, onde havia uma bandeja com água e café.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou.

— Só água, obrigada.

Enquanto ele servia, ela observou discretamente. Os movimentos eram controlados, seguros, como se nada no mundo fosse capaz de tirá-lo do eixo. “Homem acostumado a mandar”, pensou.

Ele se sentou à frente dela, cruzando uma perna sobre a outra, o olhar preso ao rosto dela com uma atenção que beirava o desconfortável.

— Então, Laura — começou. — Me diga: o que você quer saber?

Ela quase riu.

— Essa é a pergunta que eu deveria fazer — respondeu, ligando discretamente o gravador sobre a pequena mesa. — Mas já que perguntou… quero saber quem é o homem por trás das manchetes.

Os cantos dos lábios dele se ergueram, num sorriso breve.

— Uma pergunta ambiciosa.

— Uma resposta sincera seria um bom começo — retrucou.

Ele inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando não apenas a pergunta, mas a mulher à sua frente.

— Muito bem. Vamos começar pelo básico, então.

O início da conversa seguiu dentro do esperado. Ele falou da infância em bairro simples, da mãe que trabalhava demais, do pai ausente. Da primeira empresa aos vinte e poucos anos, do fracasso, do recomeço, do primeiro investimento grande. Laura fazia perguntas precisas, anotava detalhes, observava pausas. Às vezes, ele desviava de uma questão mais delicada com uma resposta elegante, mas vazia.

Com o tempo, ela começou a notar os pequenos sinais: o jeito como ele apertava um pouco mais forte a caneta ao falar de concorrência, a rigidez na mandíbula ao mencionar “críticas infundadas”, o brilho frio nos olhos ao falar de quem tentou derrubá-lo e não conseguiu.

— Você se acha um homem perigoso, Gabriel? — perguntou, de repente.

A pergunta pairou no ar, inesperada. Ele a encarou em silêncio por alguns segundos, antes de sorrir devagar.

— Depende para quem.

— Para quem, por exemplo? — insistiu.

— Para quem me subestima — respondeu, sem hesitar. — Ou para quem tenta me controlar.

Os olhos dele pararam, fixos nos dela, com intenção clara. Laura manteve o olhar, recusando-se a abaixar a cabeça.

— E você? — ele devolveu, causando um pequeno desvio no roteiro que ela tinha planejado. — Você se acha perigosa, Laura?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu faço perguntas que muita gente preferiria evitar — respondeu. — Alguns diriam que isso é um tipo de perigo.

— Concordo. — Gabriel recostou-se na poltrona. — Gosto de gente perigosa.

O comentário, dito com naturalidade, carregava uma camada extra que ela decidiu ignorar. Por enquanto.

Seguiu com perguntas sobre demandas trabalhistas, sobre boatos de ambientes excessivamente competitivos, sobre acusações, ainda que tímidas, de assédio moral. Em todas elas, ele se saía bem. Bem demais.

— Você parece ter resposta pronta para tudo — comentou, em determinado momento.

— Anos lidando com a imprensa — respondeu, sem negar. — Aprendi que quem controla a narrativa controla o estrago.

— E quem tenta mudar a narrativa? — provocou.

Ele sorriu de novo. Mas havia algo diferente naquele sorriso: uma pontada de desafio.

— Vai tentar mudar a minha, Laura?

Ela segurou o olhar dele.

— Vou tentar mostrar quem você é de verdade.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi… pesado. Carregado de uma tensão que não tinha mais nada a ver com jornalismo.

Até que ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os antebraços nas pernas.

— E se eu dissesse que quem você viu hoje é quem eu sou de verdade? — perguntou, em tom mais baixo. — Um homem que sabe o que quer. E que não tem vergonha de ir atrás disso.

— Eu diria que você está acostumado a escolher o que mostra — retrucou. — E eu estou aqui justamente para ver o que fica escondido.

Os olhos dele brilharam, aprovando.

— Gosto do jeito como você pensa.

O gravador continuava ligado, mas a sensação era de que alguma coisa, entre eles, já tinha ultrapassado a linha do profissional.

Laura respirou fundo e consultou rapidamente as anotações. Ainda tinha algumas perguntas. Contudo, uma voz interior insistia: observe além das palavras.

— Por que você escolheu o nosso jornal? — perguntou, anotando mentalmente os gestos dele. — Poderia ter convidado qualquer grande revista, um canal de TV, alguém mais… confortável.

Gabriel não respondeu de imediato. Em vez disso, levantou-se e caminhou até a janela, as mãos novamente nos bolsos. Parecia pensar.

— Porque o seu jornal ainda é respeitado por perguntar o que não deve — disse, enfim, sem se virar. — E porque eu gosto de testar limites.

— De quem? — ela insistiu.

Ele se virou devagar, os olhos presos nos dela.

— Dos outros. E os meus.

O coração de Laura deu uma batida estranha.

Ele voltou a se aproximar. Desta vez, sentou-se mais perto, no sofá ao lado, diminuindo a distância entre os dois.

— Posso ser sincero com você, Laura? — perguntou.

Ela engoliu em seco, mas manteve a postura.

— É a ideia.

— Quando pedi essa entrevista, não era apenas pela imagem pública. — Ele falava devagar, cada palavra pesada. — Há coisas que não se resolvem com comunicados oficiais. Há problemas que exigem… acordos diferentes.

Um arrepio subiu pela nuca dela.