Prazer Proibido · Capítulo 3
A Proposta que Não Deveria Existir
— Que tipo de problema? — questionou, sentindo o instinto jornalístico vibrar.
— Vamos dizer que há pessoas muito interessadas em criar histórias sobre mim — ele respondeu, sem entrar em detalhes. — E eu prefiro que a versão que circule por aí seja contada por alguém que, apesar de tudo, ainda parece ter princípios. Você.
Ela não esperava por aquilo.
— Você não me conhece — rebateu, baixando o olhar rapidamente para o caderno. — Não sabe se eu tenho princípios.
— Sei o suficiente — retrucou. — Li tudo o que você escreveu nos últimos anos.
O choque a fez erguer a cabeça.
— Você… leu minhas matérias?
— Gosto de saber com quem estou lidando — respondeu, com naturalidade. — E, até agora, gostei do que vi.
Havia elogio ali, mas também uma confissão de controle que a incomodou.
— Isso soa um pouco… invasivo — comentou.
— O mundo dos negócios é invasivo — ele rebateu. — Mas não foi apenas isso.
Ele inclinou-se ligeiramente na direção dela, diminuindo ainda mais a distância. Laura sentiu o perfume sofisticado, amadeirado, discreto, mas marcante. O tipo de cheiro que grudava na memória.
— Quando vi sua foto no site do jornal, eu soube — continuou, a voz mais baixa. — Você seria interessante de conhecer.
O coração dela disparou, e Laura lutou para manter o rosto neutro.
— Interessante profissionalmente, eu espero — tentou.
— Isso depende de você — ele devolveu, com um meio sorriso.
Ela respirou fundo, tentando retomar o controle.
— Gabriel, se isso for algum tipo de jogo para deixar a entrevista mais… dramática, não vai funcionar — disse, firme. — Estou aqui para trabalhar.
Ele a encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo até onde iria.
— E se eu dissesse que quero propor algo que vai muito além de uma entrevista? — perguntou, enfim.
A pergunta caiu entre eles como uma faísca em pólvora seca.
Laura arqueou as sobrancelhas, surpresa genuína.
— Não sei se entendi.
Ele se recostou no sofá, mas manteve o olhar preso ao dela.
— Você é inteligente demais para não entender, Laura.
Ela pressentiu que estava prestes a cruzar uma linha da qual não haveria volta.
— Explique — pediu, a voz mais baixa do que pretendia.
Gabriel fez uma breve pausa, avaliando-a.
— Eu preciso de alguém em quem possa confiar dentro da imprensa — começou. — Alguém que esteja perto o suficiente para ver o que realmente acontece. E, ao mesmo tempo, alguém que possa contar a versão certa da história, quando for necessário.
— Você quer… uma espécie de consultora de imagem? — ela tentou simplificar, mesmo sabendo que não era só isso.
— Não — ele negou, sem rodeios. — Quero algo mais exclusivo.
O olhar dele desceu brevemente para a boca dela antes de subir de novo para os olhos, e o ar pareceu ficar mais pesado.
— Quero que você entre no meu mundo, Laura — disse, cada palavra lenta. — Profissionalmente… e fora disso.
O coração dela tropeçou dentro do peito.
— Está me convidando para um conflito de interesses gigantesco — rebateu, tentando se agarrar à racionalidade. — Para misturar ética profissional com… com…
— Desejo — ele completou, sem piedade. — A palavra que você está procurando é essa.
Ela sentiu o rosto esquentar, mas não desviou.
— Você nem me conhece.
O sorriso dele foi quase imperceptível.
— Conheço o suficiente para saber que você está curiosa. Sobre mim. Sobre esse mundo. Sobre o que acontece por trás das portas fechadas.
Ela abriu a boca para negar, mas a verdade a golpeou por dentro. Havia, sim, curiosidade. Sobre ele, sobre o poder que carregava, sobre o que significaria se envolver em algo tão perigoso.
— O que exatamente você está propondo? — perguntou, enfim.
Gabriel se inclinou para frente, tão perto que ela poderia contar os fios da barba bem aparada.
— Estou propondo um acordo — disse. — Você continua sendo jornalista. Escreve o que vê. Com honestidade. Mas também se torna… minha.
A palavra ficou suspensa no ar, pesada, proibida.
— Sua… como? — ela sussurrou, a garganta seca.
Ele não a tocou. Não precisou. A forma como a olhava já era um toque.
— Minha companhia em alguns eventos — explicou, a voz baixa e firme. — Minha confidente em algumas noites. Minha parceira em certas… experiências.
O corpo inteiro de Laura reagiu de maneiras contraditórias. A parte racional gritava sobre ética, carreira, perigo. Outra parte — mais silenciosa, mais reprimida — queimava com a ideia de se jogar em algo que poderia virar sua vida do avesso.
— Isso é completamente inadequado — murmurou, mais para si mesma.
— É por isso que é tão tentador — ele retrucou.
Ela fechou os olhos por um segundo, tentando organizar os pensamentos. Quando os abriu, encontrou o olhar dele ainda ali, fixo, confiante.
— E o que eu ganho com isso, além de problemas? — perguntou, num último esforço de se manter longe.
O sorriso que ele deu foi lento, perigoso.
— Muito mais do que problemas — respondeu. — Você ganha acesso. Ganhará histórias que nenhum outro jornalista terá. Vai ver o que ninguém vê. E, fora disso… vai descobrir um tipo de prazer que não encontra em livros nem em entrevistas.
Laura sentiu o coração bater tão forte que quase doeu.
Prazer proibido.
As palavras da sinopse da própria vida que ela jamais teria imaginado.
— Pense bem, Laura — ele concluiu, recostando-se novamente, como se o assunto estivesse lançado e a bola agora estivesse com ela. — Eu não costumo repetir propostas. Nem gosto de perder tempo com quem tem medo de se arriscar.
Ela respirou fundo, encarando-o.
Sabia, com clareza cortante, que qualquer resposta ali mudaria tudo.
Sim, e ela se jogaria em um universo de poder, desejo e perigo que não sabia se conseguiria controlar.
Não, e provavelmente nunca mais teria uma oportunidade tão grande — nem profissional, nem… pessoal.
Um silêncio denso se instalou na sala. O gravador, esquecido sobre a mesa, continuava ligado, registrando cada segundo daquele momento.
Laura umedeceu os lábios, o coração em guerra com a mente.
— Eu…
As palavras morreram na garganta quando o celular dele vibrou sobre a mesa lateral. Gabriel desviou o olhar por um instante, pegando o aparelho. A expressão dele mudou por um segundo — mínima fissura em sua máscara de controle.
— Preciso atender — disse, levantando-se. — É importante.
Ele caminhou até a janela, levando o celular ao ouvido, e começou a falar em voz baixa, em um tom duro que foge ao que usara com ela. Laura aproveitou o momento para respirar, tentar se recompor, mas a mente rodava em círculos.
A proposta ainda ecoava dentro dela.
“Minha confidente em algumas noites.” “Minha parceira em certas… experiências.” “Prazer que você não encontra em livros.”
Ela fechou o gravador com um clique trêmulo, como se o ato físico pudesse interromper o furacão que se formava.
Poucos minutos depois, ele retornou.
— Peço desculpas — disse, voltando ao lugar. — Mas preciso encerrar por hoje. Questões de negócios.
Ela assentiu, tentando parecer mais estável do que se sentia.
— Tudo bem. Já tenho material suficiente para começar a trabalhar.
Gabriel a observou com atenção.
— Não esqueça do que eu disse — relembrou, sem rodeios. — Minha proposta continua de pé. Por enquanto.
Ela se levantou, ajeitou o blazer e guardou o caderno e o gravador na bolsa.
— Eu… preciso pensar.
— É exatamente o que quero que faça. — Ele deu um passo em direção a ela, diminuindo novamente a distância. — Mas, quando pensar… me ligue.
Tirou do bolso um cartão simples, apenas com o nome, um número de telefone direto e um e-mail que claramente não era genérico.
— Esse é meu contato pessoal. — A forma como ele destacou a palavra “pessoal” fez um novo arrepio percorrer a pele dela. — Não entrego isso a qualquer um.
Laura pegou o cartão, sentindo o peso simbólico daquele gesto.
— Obrigada.
Ele inclinou a cabeça, num gesto que, em outra pessoa, poderia parecer um simples cumprimento. Nele, tinha algo quase… possessivo.
— Foi um prazer conhecê-la, Laura.
Ela respirou fundo, virou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, no entanto, não resistiu a um último olhar por sobre o ombro.
Gabriel Monteiro continuava ali, a observá-la. Como se já soubesse que, gostando ou não, a vida dela acabara de entrar em órbita em torno dele.
Laura saiu da sala com o coração disparado, o cartão queimando na mão.
Enquanto o elevador a levava de volta para o térreo, uma única pergunta ressoava dentro dela, mais alta do que qualquer argumento racional:
Até onde ela estava disposta a ir por uma boa história… e por um prazer que jamais deveria desejar?