Prazer Proibido · Capítulo 1
O homem da capa
O som insistente da chuva contra o vidro era o único ruído constante na redação. O resto era caos. Telefones tocando, gente falando alto, notificações apitando em celulares, impressoras engolindo papel. E, no meio de tudo isso, Laura Nogueira se perguntava em que momento da vida tinha achado uma boa ideia ser jornalista.
— Laura! — a voz do editor-chefe, Rafa, cortou o ar como um trovão impaciente. — Na minha sala. Agora.
Ela respirou fundo, salvou a matéria sem graça sobre tendências de decoração minimalista e se levantou. Enquanto caminhava pelo corredor estreito, o cheiro de café forte e papel molhado a envolveu, lembrando-a de quantas madrugadas havia passado ali, escrevendo textos que ninguém lembraria no dia seguinte.
Ela queria mais. Precisava de mais.
Bateu duas vezes na porta entreaberta.
— Posso?
Rafa não respondeu de imediato. Estava com o olhar grudado na tela do notebook, os cabelos desgrenhados, a camisa social amassada e a gravata afrouxada. A expressão tensa denunciava que algo grande tinha caído no colo do jornal.
— Entra logo, Laura — murmurou, sem erguer os olhos. — Fecha a porta.
Ela obedeceu, sentando-se na cadeira à frente da mesa. O coração acelerou num ritmo desconfortável. Rafa só usava aquele tom quando vinha bomba.
— Aconteceu alguma coisa? — arriscou.
Ele enfim olhou para ela, os olhos escuros cintilando de ansiedade e cansaço.
— Aconteceu sim. E, pela primeira vez em muito tempo, é coisa boa.
Laura arqueou uma sobrancelha.
— De preferência, coisa boa que pague as contas, né?
Rafa ignorou o comentário sarcástico e virou o monitor levemente na direção dela. Na tela, uma foto em alta resolução ocupava quase todo o espaço. Um homem de terno impecável, postura dominante, expressão séria. Cabelos escuros, barba aparada, olhos intensos que pareciam encarar diretamente a câmera — e, de algum modo, ela.
O estômago de Laura deu um pequeno salto.
— Esse é… — Ela quase não acreditava. — Gabriel Monteiro?
— Em carne, osso e bilhões de reais — Rafa confirmou, apoiando os cotovelos na mesa. — O homem por trás do Grupo Monteiro, o queridinho dos investidores, o fantasma dos concorrentes. E, até agora, praticamente um mito para a imprensa.
Ela se aproximou mais, observando cada detalhe da foto. O terno azul-marinho parecia feito sob medida, marcando os ombros largos e a cintura bem definida. A gravata escura, o relógio de luxo no pulso, a mão enfiada no bolso como se o mundo inteiro estivesse sob controle. E talvez estivesse.
— Ele quase nunca dá entrevistas — murmurou Laura, mais para si mesma. Lembrava das inúmeras vezes em que tentara emplacar pautas mais profundas, investigativas, e tinha batido na barreira do “acesso negado”. — O que mudou?
Rafa sorriu de canto.
— Foi ele quem nos procurou.
Aquilo soou tão absurdo que ela precisou de alguns segundos para processar.
— Desculpa… o quê?
— Recebemos um e-mail da assessoria dele hoje de manhã — explicou. — Exclusivo. Um pedido de entrevista longa, exclusiva, para um perfil completo. Ele quer mostrar um lado mais “humano”, “próximo”, “real”. Palavras da equipe de comunicação, não minhas.
Laura franziu o cenho. Empresários daquele nível não faziam nada por acaso. Se Gabriel Monteiro queria uma matéria, havia um motivo. E, quando gente poderosa queria parecer “humana”, era porque alguma coisa precisava ser apagada, maquiada ou redirecionada.
— E você quer que eu faça a entrevista — concluiu, a voz saindo um pouco mais baixa do que pretendia.
Rafa inclinou o corpo para frente.
— Não. Eu quero que você destrua essa entrevista. No bom sentido. Que faça a melhor matéria da sua carreira. Que arranque dele tudo o que ninguém conseguiu.
Um arrepio percorreu a espinha de Laura. Era a chance que ela esperava. O tipo de texto que poderia tirar seu nome da zona cinzenta e colocá-lo de vez em destaque.
— Por que eu? — perguntou, ainda assim. — Você sabe que tem gente mais antiga, mais…
— Mais acomodada — interrompeu Rafa, seco. — Você é a única aqui que ainda parece ter fome. E eu preciso de alguém faminto para lidar com um homem que está acostumado a devorar o mundo.
As palavras bateram fundo. Ela fechou os dedos em punho sobre o colo, sentindo a familiar mistura de medo e excitação.
— Quando?
— Amanhã — ele respondeu, sem rodeios. — O encontro é no escritório principal dele, às dez da manhã. Vão te mandar os detalhes por e-mail. Veste algo… — ele a encarou de cima a baixo, não com lascívia, mas com o olhar prático de quem pensava em imagem — profissional, mas marcante. Não estamos indo entrevistar um vereador de bairro. Esse cara respira poder.
Laura revirou os olhos.
— Ah, ótimo. Além de jornalista, agora sou vitrine de revista.
— Bem-vinda ao jornalismo real, Laura. — Rafa deu de ombros. — Aqui, informação é tudo. Mas a embalagem ajuda a convencer quem tem ego maior que a própria fortuna.
Ela respirou fundo.
— Você acha que tem algo por trás disso? — perguntou, mais séria. — Algum escândalo chegando, alguma investigação, alguma coisa que ele queira limpar?
Rafa a olhou com atenção, e foi ali que Laura viu o motivo de ele ainda insistir nela em meio a tantos nomes experientes.
— Eu acho que onde há muito controle, há sempre algo a esconder — disse, devagar. — Só não esquece de uma coisa: ele é perigoso. Não só no sentido financeiro. Esse tipo de homem está acostumado a conseguir tudo o que quer. Inclusive pessoas.
Laura forçou um sorriso.
— Eu não sou “tudo o que ele quer”, Rafa.
— Não subestime o próprio valor — ele rebateu, com uma sinceridade inesperada. — E não se subestime diante dele. É só uma entrevista, certo?
Ela assentiu, mas por dentro sabia que não era “só” nada.
Era um divisor de águas.
Naquela noite, em casa, Laura abriu o notebook e digitou “Gabriel Monteiro escândalo” na barra de pesquisa. Centenas de resultados surgiram, mas quase todos falavam das mesmas coisas: crescimento meteórico da empresa, investimentos ousados, aquisições internacionais. As notícias negativas eram superficiais, resolvidas com notas oficiais e advogados afiados.
— Limpo demais — murmurou, bebendo um gole de vinho barato. — Ninguém sobe assim sem pisar em ninguém.
Quanto mais clicava, mais sentia que havia algo faltando. Uma lacuna, um buraco nas informações. Como se alguém tivesse passado um pano nas manchas, sem se dar ao trabalho de realmente limpar.
Depois de uma hora de pesquisa, ela encostou na cadeira e esfregou os olhos. No canto da tela, uma foto de Gabriel em um evento de gala chamou sua atenção. Ele posava ao lado de políticos, artistas, gente famosa. O sorriso discreto, mas seguro. O olhar que parecia sempre saber mais do que deixava transparecer.
Laura deu zoom na imagem e se pegou estudando o rosto dele com mais atenção do que o necessário. Havia algo ali. Uma sombra. Um peso que não combinava com o brilho em volta.
— E você, Gabriel Monteiro… — sussurrou. — O que está escondendo?
O celular vibrou ao lado do teclado. Uma mensagem de Marina, sua melhor amiga na redação.
Marina: Rafa me contou da entrevista!!! 😱 Marina: Se ele for tão gostoso pessoalmente quanto nas fotos, lembra que vc é profissional, viu? 😂
Laura soltou uma risada curta.
Laura: Relaxa. Eu vou estar ocupada demais tentando não ser engolida pelo ego dele.
Marina: Ego, conta bancária, ombros largos… detalhe 🤭 Marina: Sério, Lau. Toma cuidado. Esse tipo de cara é sedução ambulante. E tu anda carente, hein?
Ela respirou fundo antes de responder.
Laura: Eu sei me cuidar. Laura: E é só trabalho.
As palavras ficaram flutuando na tela. Só trabalho. Repetiu mentalmente, tentando acreditar.
Fechou o notebook, terminou o vinho e foi para o quarto. Deitou-se na cama, encarando o teto por longos minutos. Mas, sempre que fechava os olhos, a imagem de Gabriel reaparecia. Não a foto em si, mas uma versão criada pela imaginação dela: o terno perfeitamente ajustado, as mãos firmes, o olhar avaliador.
Ela virou para o lado, irritada consigo mesma.
Era só um entrevistado. Um homem rico, poderoso e acostumado a controlar tudo. Nada que ela já não tivesse visto em menor escala em outros cargos altos. Nada que ela não pudesse enfrentar com preparo, distância emocional e um gravador ligado.
Ainda assim, demorou mais do que o normal para pegar no sono.
Na manhã seguinte, o espelho não foi gentil.