O Quarto 214 · Capítulo 2

A Linha Imaginária

A luz artificial da recepção da residência universitária queimava em um tom pálido e cansado, refletindo o sentimento de Sophie. Já era manhã, e a esperança de uma solução milagrosa evaporava com cada minuto que passava.

— Sinto muito, senhorita Carter. Verificamos todo o sistema. Não há nenhum outro quarto disponível — a funcionária, uma senhora de óculos na ponta do nariz e voz resignada, disse pela terceira vez, sem levantar os olhos da tela do computador.

Sophie fechou os olhos, controlando o impulso de bater a mão no balcão. — Mas isso é um erro. Meu quarto foi confirmado há meses. Eu não posso… não posso dividir com alguém que eu nem conheço. E, francamente, com um homem!

— É um erro do sistema, sim, e pedimos desculpas. No entanto, estamos lotados. A única opção é o Quarto 214. Ele tem duas camas e é o único que sobrou. Ou a senhora fica, ou terá que procurar uma acomodação fora da universidade.

Um arrepio frio percorreu Sophie. Procurar acomodação agora, no meio da semana de orientação, era impossível. Seus pais esperavam que ela estivesse instalada e focada nos estudos. Falhar em algo tão básico… O que eles diriam? A ideia de decepcioná-los era um peso maior do que qualquer colega de quarto desorganizado.

Engolindo em seco, Sophie apertou a alça da mochila. Ela não tinha escolha. Não *podia* ter escolha. Era apenas um transtorno temporário, ela pensou, uma fase. Ela aguentaria.

Voltou para o Quarto 214 com a cabeça fervilhando. Abriu a porta e o ar parado a atingiu. O cheiro de roupa suja misturado com café amanhecido ainda pairava, e a bagunça parecia ter se multiplicado durante a noite. Roupas jogadas, livros abertos no chão, uma toalha úmida sobre a cadeira. Seu estômago revirou.

Ethan estava esparramado na cama ao lado, coberto por um lençol amarrotado, um fone de ouvido em um dos ouvidos, o outro pendurado. Ele roncava suavemente, alheio ao caos e à sua presença fulminante.

Sophie respirou fundo. Organizou compulsivamente a pequena pilha de papéis que trouxe da recepção, alisando-os com o polegar. Essa seria a primeira e última vez que permitia que algo tão trivial a desviasse de seus objetivos.

— Miller! — Sua voz soou mais alta e mais irritada do que ela pretendia. O corpo de Ethan deu um pulo na cama, e o fone caiu no chão com um baque surdo. Ele piscou, os olhos claros ainda embaçados de sono, fixando-se nela com uma expressão de confusão que rapidamente se transformou em irritação.

— O quê? Você não sabe bater? — Ele se sentou, o cabelo castanho escuro despenteado, o corpo espreguiçando, revelando braços fortes. O moletom amassado que vestia subiu um pouco, e Sophie desviou o olhar.

— Eu soube bater ontem, mas você estava muito ocupado dormindo no meio do dia para perceber. E eu não vou perguntar de novo: o que é *tudo* isso? — Ela gesticulou para a metade do quarto dele, que parecia ter sido atingida por um furacão de roupas e papéis.

Ethan coçou a nuca, um sorriso irônico começando a se formar. — Isso? Isso é o meu lado do quarto, Sophie. Meu espaço pessoal. Onde, a propósito, eu estava dormindo até ser acordado por um toque de clarim.

— Seu espaço pessoal não pode invadir o *meu* espaço ou o espaço *comum* do quarto. Não é assim que funciona. Não com… isto. — Ela apontou para um tênis sujo que estava perigosamente perto da linha imaginária que ela já havia traçado mentalmente no chão.

— “Isto”? Uau, palavras fortes. — Ele se levantou, caminhando até a mesa, pegando uma xícara vazia que havia um resquício de café. — Sabe, existem pessoas que *gostam* de viver. E existem pessoas que *gostam* de organizar a vida dos outros.

— Eu só gosto de organização. E você, obviamente, gosta de viver na anarquia. Mas isso não vai acontecer aqui. Não com as minhas coisas, não com o meu ambiente de estudo. Não vai. — Sophie cruzou os braços, os olhos fixos nos dele, uma determinação de aço endurecendo suas feições delicadas.

Ethan deu um gole no que restava de café, fazendo uma careta. — Olha, eu não queria uma colega de quarto e você também não, pelo visto. Então, por que não estabelecemos algumas regras? Assim, ninguém surta de vez e a gente consegue sobreviver a isso pelos próximos meses.

A proposta de regras, embora vinda dele, era a única coisa sensata que tinha saído da boca de Ethan. Sophie hesitou, mas a lógica venceu sua raiva momentânea. Ela precisava de controle. Regras eram controle.

— Regras. Certo. Quais são as suas sugestões? — ela perguntou, a voz ainda tensa, mas com um toque de curiosidade forçada.

Ele jogou a xícara na pia pequena do quarto, que parecia implorar por limpeza. — Primeiro: respeitar o espaço. Tipo, essa linha imaginária aqui. — Ele traçou com o pé uma linha desde a parede até o meio do quarto, dividindo-o quase perfeitamente. — Minha bagunça no meu lado, sua… perfeição no seu.

Sophie assentiu, um plano começando a se formar em sua mente. — E os horários. Silêncio depois das onze, por exemplo. E nada de música alta. E as visitas? Não pode ter visita o tempo todo.

— Visitas com aviso prévio. Músicas baixas… dependendo do horário. E a temperatura? Eu gosto de um pouco de ar fresco. Você parece gostar de um forno. — Ele revirou os olhos.

Eles passaram os próximos minutos listando, brigando, cedendo e anotando em um pedaço de papel amassado que Sophie recuperou da mesa dele. Horários de sono, limpeza, comidas, o uso do micro-ondas, até mesmo a preferência pelo tipo de luz. Era uma trégua tensa, um armistício frágil entre dois territórios inimigos.

Quando a lista estava finalizada, colada na parede com fita adesiva, o Quarto 214 parecia mais um campo de batalha recém-delimitado do que um dormitório. Com uma linha imaginária traçada no meio do quarto, eles se encararam como adversários prontos para a batalha.