O Quarto 214 · Capítulo 3
Música Na Madrugada
A linha imaginária que dividia o Quarto 214 não existia fisicamente, mas sua presença era palpável. Sophie respirou fundo, ajeitando a mochila no ombro, antes de sair para o primeiro dia de aulas. O olhar de Ethan a acompanhou até a porta, um silêncio carregado pairando no ar. A semana que se seguiu foi uma dança estranha de corpos se esquivando, vozes baixas e a constante sensação de estar invadindo o espaço alheio.
Sophie mergulhou nos estudos com a ferocidade de sempre. Passava horas na biblioteca, voltando ao quarto apenas para dormir, comer ou trocar de roupa. Seu lado do dormitório era um santuário de ordem, pilhas de livros alinhadas, anotações meticulosamente organizadas e o calendário da universidade pendurado sobre a escrivaninha. Ela mal percebia que, inconscientemente, a cada pequeno estresse, suas mãos buscam algo para alinhar, uma caneta torta, um livro fora do lugar.
Ethan, por outro lado, parecia viver em um fuso horário diferente. Ele raramente estava no quarto durante o dia. Quando estava, era para uma refeição rápida ou para se jogar na cama, fones de ouvido presos à cabeça, ignorando o mundo. A bagunça em seu lado do quarto persistia, um lembrete constante para Sophie da sua incapacidade de controlar tudo. Roupas jogadas sobre a cadeira, livros abertos aleatoriamente e carregadores de celular enrolados emaranhadamente.
Noites adentro, a presença de Ethan se tornava mais evidente. Sophie estava imersa em um livro de cálculo, a testa franzida em concentração, quando a porta rangeu suavemente. Ethan entrou, o corpo curvado, exalando um cansaço que ela sentiu do outro lado do quarto. O relógio digital na escrivaninha dela marcava 2h17 da madrugada.
Ele jogou a mochila no chão, um ruído surdo que fez Sophie saltar levemente. Então, antes que ela pudesse sequer pensar em reclamar do barulho, ele se sentou na beirada da própria cama e, com um suspiro pesado, pegou os fones de ouvido. Não para usar, mas para conectar um pequeno alto-falante. Uma melodia suave e melancólica de jazz preencheu o silêncio, baixa, mas presente.
Sophie fechou o livro com um estalo e se virou para ele, os olhos semicerrados.
— Você não pode fazer isso. É uma das regras.
Ethan virou a cabeça lentamente, os olhos semicerrados, como se estivesse com dor de cabeça. Seus cabelos escuros estavam um pouco bagunçados e ele parecia ter passado por um dia exaustivo.
— Isso é música ambiente, Sophie. Está baixa. Eu mal consigo ouvir.
— Mas *eu* consigo. E a regra é: sem música depois das onze da noite, a menos que seja com fones. Eu preciso de silêncio absoluto para estudar. E dormir. Principalmente dormir, quando é tão tarde.
Ele suspirou, o som arrastado e derrotado. Ele não estava brigando, e isso era mais desarmante do que qualquer sarcasmo. Desligou a música, o quarto caindo em um silêncio denso e pesado, quase mais alto que a canção.
— Satisfeita? — perguntou, a voz rouca. Ele nem esperou por uma resposta, deitando-se de costas na cama, os olhos fixos no teto. Sua mochila, que ele havia jogado no chão, continuava no mesmo lugar, aberta, como se o conteúdo estivesse prestes a explodir.
Sophie sentiu um leve pontada de culpa, mas a afastou. Regras eram regras. Eram necessárias para a ordem. Sem ordem, haveria caos. E ela não podia permitir o caos, não ali, não em seu santuário cuidadosamente construído.
Na manhã seguinte, no entanto, algo chamou sua atenção. Ethan havia saído antes que ela acordasse, mas a mochila que ele jogara no chão na noite anterior continuava lá, agora acompanhada por um par de tênis empoeirados e uma jaqueta escura. Eles pareciam sujos, como se ele tivesse estado em algum lugar com muita poeira ou lama.
Naquela noite, a mesma cena se repetiu. Ela ouviu a porta ranger por volta das duas da manhã. A música suave tocou por um instante, antes de ser bruscamente desligada. Ethan se movimentou de forma letárgica, e ela percebeu que ele demorava mais para se mover do que o normal. Ele parecia ter menos energia a cada dia.
Isso aconteceu de novo. E de novo. Três noites. Quatro. Cinco. Sempre a mesma sequência: ele saía antes do sol nascer, voltava na madrugada, e a cada vez parecia mais exausto. Seu lado do quarto se tornava ainda mais uma coleção de objetos aleatórios, esquecidos e sem vida. As roupas que antes estavam jogadas na cadeira, agora pareciam ainda mais amassadas, com um cheiro estranho, uma mistura de suor e algo que ela não conseguia identificar. Era diferente do cheiro de “jogado” que ela já esperava.
Sophie, apesar de seu foco quase obsessivo nos estudos, começou a prestar atenção. Ethan não estava simplesmente saindo para festas ou jogando videogame até tarde. Havia um padrão ali, algo mais profundo. O cansaço em seus ombros não era o de um estudante preguiçoso. Era o cansaço de alguém que estava se esforçando demais, fisicamente. As olheiras fundas, os olhos injetados. Ele estava dormindo cada vez menos, comendo de forma irregular, e ela o via cochilar nas aulas, quando conseguia comparecer.
Uma tarde, quando ele saiu, ela ouviu o barulho de moedas tilintando em seu bolso. Ele as contou e guardou apressadamente. O som a fez pensar. Aonde ele iria com tão pouco dinheiro, saindo tão tarde? O que ele fazia lá fora, no meio da madrugada, para voltar tão esgotado e com as roupas sujas?
Deitada em sua cama, ela se pegava questionando para onde ele ia todas as noites.