O Quarto 214 · Capítulo 1

O Plano Perfeito Desmorona

O corredor da residência universitária cheirava a tinta fresca e expectativas. Sophie Carter arrastava sua mala de rodinhas, o som rítmico das rodinhas no linóleo ecoando a batida ansiosa de seu coração. Ela tinha tudo planejado, cada detalhe meticulosamente organizado para o início de sua nova vida.

Na mão, um papel amassado, mas com a caligrafia impecável de sua própria letra, detalhava os próximos passos: desempacotar, organizar o material por matéria, montar o cronograma de estudos e, talvez, se houvesse tempo, dar uma olhada no campus.

Parou em frente à porta com o número 212. Sua chave deslizou na fechadura com um clique satisfatório. Abriu a porta, pronta para encontrar o quarto que havia escolhido online: uma janela ampla, espaço suficiente para sua escrivaninha e um armário decente.

Mas o que encontrou foi uma cama vazia, um armário semiaberto e uma escrivaninha já ocupada por livros e um laptop que não eram dela. A confusão a atingiu como um pequeno choque elétrico. Não, não podia ser.

Virou-se e viu uma garota, de cabelos rosados e fones de ouvido, mexendo em uma caixa no canto. "Com licença? Este é o quarto 212?", perguntou Sophie, a voz mais firme do que se sentia.

A garota tirou um dos fones. "Sim. Você é a Sophie? Ah, a administração trocou os quartos. Você ficou com o 214. Parece que houve um problema de última hora com a hidráulica do seu. Sinto muito."

O plano perfeito de Sophie rachou bem ali, no meio do corredor. Troca de quarto? De última hora? Ela odiava imprevistos. Precisava de controle, de previsibilidade. Respirou fundo, tentando reorganizar seus pensamentos. O 214. Lembrava-se de ter visto aquele número no mapa da residência.

Era um quarto... diferente. Mais para o final do corredor, com uma vista para os fundos, não para o gramado principal que ela tanto queria.

Com um suspiro resignado, arrastou-se até a porta cinzenta com o número 214. A nova chave parecia mais pesada em sua mão. Não havia como as coisas já estarem fora do lugar. Ela mal havia chegado à universidade, e o primeiro obstáculo já se apresentava.

Inseriu a chave e girou. A porta abriu com um guincho, revelando um cenário que fez seus olhos se arregalarem. Não havia tinta fresca aqui, apenas um cheiro estranho de pizza requentada e algo que parecia ser meias sujas.

O quarto era um caos. Roupas jogadas sobre uma cadeira, um tênis solitário perto da cômoda, livros empilhados de forma precária em uma das mesas. O lado esquerdo parecia ter sido atingido por um furacão de objetos aleatórios: embalagens vazias, um copo com restos de café, fones de ouvido enrolados em um emaranhado.

E, na cama à direita, havia uma pessoa. Deitada de bruços, coberta apenas por um lençol embolado, cabelos escuros despenteados e uma pilha de travesseiros amassados ao redor da cabeça. Um braço estava pendurado para fora da cama, com um relógio de pulso que parecia caro demais para aquele ambiente.

Sophie piscou, achando que estava em um pesadelo. "Com licença?", chamou, a voz um pouco mais alta do que pretendia, o som reverberando no pequeno espaço.

Nenhuma resposta. A figura na cama nem se mexeu.

Ela largou a mala no chão com um baque surdo, o ruído parecendo uma explosão no silêncio do quarto. O som, contudo, não parecia incomodar o ocupante da cama.

Sophie olhou para o lado organizado da cama, o que ela esperava que fosse seu. Estava vazio, mas a proximidade com o caos do outro lado já a fazia sentir coceira. Aquela bagunça parecia contagiosa. E o cheiro... Definitivamente meias sujas, com um toque de alguma coisa mofada.

"Olá?", tentou novamente, um pouco mais alto. Sentiu a irritação começar a borbulhar. Seu primeiro dia. Seu primeiro quarto. E ela já estava dividindo espaço com alguém que parecia ter esquecido que morava ali.

Nada. O sujeito apenas ressonava suavemente.

Frustrada, Sophie andou até a janela. Puxou a cortina pesada que bloqueava a luz da tarde. A luz invadiu o quarto, revelando ainda mais a sujeira: uma mancha estranha no carpete, poeira nos cantos e uma pilha de papéis amassados perto da lixeira transbordando.

Com a luminosidade repentina, a figura na cama finalmente se mexeu. Um grunhido baixo, uma mão que tateou o ar como se tentasse espantar a luz. Depois, os olhos se abriram. Eram claros, quase azuis, e pareciam confusos, semicerrados contra a claridade.

O garoto se apoiou no cotovelo, seu cabelo escuro caindo sobre a testa. Olhou para Sophie, depois para a janela, e de volta para ela, como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça que não fazia sentido.

"Que inferno...?", ele murmurou, a voz rouca de sono.

Sophie cruzou os braços, a raiva fervendo sob sua pele. Aquele era Ethan Miller, ela presumiu. "Você pode me explicar o que é toda essa bagunça? E por que você está dormindo no meio da tarde, quando eu deveria estar me mudando para o meu quarto?", disparou, sem se conter.

Ethan piscou algumas vezes, o cérebro ainda claramente fora de sincronia. Ele se sentou na cama, o lençol escorregando um pouco para revelar um ombro. "Olha, eu não sei quem você é, mas não me lembro de ter encomendado uma bronca matinal. E pra sua informação, já passa das quatro da tarde."

"Eu sou Sophie Carter. E este é o meu quarto. Ou, pelo menos, deveria ser o meu quarto", ela corrigiu, gesticulando para a metade desorganizada do ambiente. "E por que está tão escuro aqui?" Sua voz era uma mistura de incredulidade e fúria contida.

Ele deu de ombros, o movimento lento e preguiçoso. "Eu prefiro escuro. Ajuda a dormir."

Sophie fechou os olhos por um segundo, tentando se acalmar. Ele era tudo o que ela não suportava: desorganizado, irônico, e completamente alheio ao caos que o cercava. Aquele plano de vida perfeito parecia cada vez mais distante. Não havia como aquilo funcionar.

Olhou para o lado da cama de Ethan, para a pilha de livros, roupas e lixo. Aqueles seriam os piores meses de sua vida. Uma certeza absoluta se instalou em seu peito. Na manhã seguinte, ela exigiria uma troca de quarto. Não havia outra opção.