O Maquiavélico · Capítulo 2

Entre Livros e Olhos

A biblioteca da faculdade era o santuário de Helena. O cheiro de papel envelhecido e poeira guardava histórias, ideias e, acima de tudo, uma fuga do mundo real que tanto insistia em ser… real demais.

Era uma tarde típica de terça-feira, o sol coando pelas altas janelas, pintando manchas douradas sobre as estantes. Helena estava imersa em um exemplar surrado de "Orgulho e Preconceito", com os fones de ouvido bloqueando qualquer ruído externo.

Seus cabelos castanhos, geralmente soltos, estavam presos em um coque frouxo que deixava alguns fios rebeldes caírem sobre sua nuca. Vestia um cardigã em tom de creme e uma calça jeans clara, tão discreta quanto sua presença.

Ela sublinhava um trecho sobre a relutância de Elizabeth em aceitar o amor, e um sorriso melancólico pairava em seus lábios. Como era familiar aquele sentimento.

De repente, uma sombra alta e esguia cobriu sua página. Helena levantou os olhos, lentamente, tirando um dos fones. Levou um segundo para processar a silhueta, e outro para registrar a intensidade do olhar que a fitava.

Ali, parado à sua frente, estava Lorenzo. Não o havia notado chegando. Seus movimentos eram tão calculados que beiravam o silêncio.

Ele usava um blazer impecável de tom grafite sobre uma camisa preta, e o relógio prateado em seu pulso cintilava discretamente. Os olhos escuros, profundos e sem qualquer traço de hesitação, eram fixos nos dela.

Helena sentiu um leve rubor aquecer suas bochechas. Era o tipo de olhar que a fazia querer desviar, mas que ao mesmo tempo a prendia, como um inseto diante de um predador elegante.

— Com licença — a voz dele soou baixa, mas carregada de uma autoridade inegável. Não era um pedido, mas uma afirmação.

Ela balançou a cabeça, meio atordoada. — Pois não?

Lorenzo não sorriu. Seus lábios finos mal se moveram. — A senhora está com o livro que eu preciso.

Helena olhou para o livro em suas mãos, depois para ele. — "Orgulho e Preconceito"? — ela questionou, erguendo a capa para que ele visse.

— Exatamente — ele assentiu, o olhar ainda estudioso. — Jane Austen. Leitura obrigatória para a aula de Ética e Filosofia do Direito. A professora nos deu um prazo e, ao que parece, a senhora se adiantou.

Helena franziu o cenho. Ética e Filosofia do Direito? Por que um romance seria leitura obrigatória para isso?

— É… uhm… eu já ia devolver — ela mentiu, as palavras tropeçando. Na verdade, planejava mergulhar na história por mais algumas horas.

— Oh, não precisa se apressar — Lorenzo deu um passo à frente, quase invadindo sua bolha de conforto. O perfume amadeirado e sutil dele envolveu-a. — A não ser que já tenha terminado. Terminou?

Helena apertou o livro contra o peito. A proximidade era desconcertante. Ela sentia calor, não apenas nas bochechas, mas em todo o corpo. — Ainda não. Estou… no começo do conflito.

— O conflito — ele repetiu, um lampejo quase imperceptível de algo que poderia ser diversão, ou talvez interesse, cruzando seu olhar. — Diga-me, qual a sua interpretação do "orgulho" de Darcy e do "preconceito" de Elizabeth neste estágio da narrativa?

Ela piscou, pega de surpresa pela pergunta. Não esperava uma análise literária, muito menos dele. Era como se ele estivesse testando-a, medindo sua aptidão.

— Bem — começou Helena, respirando fundo, tentando organizar seus pensamentos. — O orgulho de Darcy parece uma armadura social, uma forma de manter a distância de tudo que ele considera inferior. E o preconceito de Elizabeth… é uma defesa contra esse orgulho, uma resistência àquilo que a faz sentir diminuída.

Lorenzo inclinou a cabeça ligeiramente, e Helena teve a impressão de que ele estava saboreando suas palavras, dissecando-as. — Uma armadura social, uma defesa. Interessante. Parece que a senhora enxerga os sentimentos como estratégias de guerra pessoal.

Ela corou ainda mais. — Eu… Bem, talvez. É um livro que fala muito sobre a sociedade, as aparências…

— E sobre a dificuldade de enxergar além delas, não é? — ele completou, a voz ainda mansa, mas penetrante. — Sobre como nossas próprias convicções podem nos cegar para a verdade do outro. Para o que é real.

O olhar dele se intensificou, descendo para sua boca por um instante antes de voltar aos seus olhos. Helena sentiu um arrepio. Aquele não era um debate acadêmico comum. Era algo mais.

— Mas nem todos os sentimentos são estratégias — ela retrucou, quase um sussurro, defendendo seu refúgio platônico. — Alguns são genuínos. Puro.

Lorenzo deu um passo para trás, quebrando o feitiço da proximidade, mas não o da intensidade. Seus lábios curvaram-se em um sorriso mínimo, quase imperceptível, que não atingiu seus olhos. — Claro. E o mais genuíno dos sentimentos, em sua opinião, seria…? — ele a desafiou, cruzando os braços, a postura de quem estava se divertindo com aquele embate.

Helena hesitou, procurando as palavras. — O amor. O amor puro, desinteressado.

— Ah, o amor — ele repetiu, a palavra dita com uma certa ironia sombria. — Um dos maiores motores de poder, não é mesmo? Capaz de mover reinos, de anular a lógica, de fazer pessoas… bem, fazer pessoas o que for necessário para alcançá-lo ou mantê-lo.

Ela balançou a cabeça, sentindo uma frustração crescente. Ele estava subvertendo tudo em que ela acreditava. — Não de um jeito egoísta! Eu falo do amor que nos eleva, que nos faz melhores, que…

— Que nos torna vulneráveis? — ele terminou a frase por ela, os olhos fixos nela, como se pudesse ler cada um de seus medos mais íntimos. — Que nos expõe? Que entrega o controle a outra pessoa?

O ar pareceu rarefeito. Helena sentia a garganta seca. Ele não estava simplesmente opinando; ele estava desnudando seus próprios fantasmas. Aquele homem via o mundo de uma forma que a aterrorizava e a fascinava ao mesmo tempo.

— Eu… — ela começou, mas as palavras engasgaram. Ele tinha razão, em parte. Era exatamente isso que a amedrontava no amor.

Lorenzo desencostou da estante, seu olhar intenso e desafiador. — Se terminar o livro antes do final de semana, me avise. A "análise" de suas partes mais… estratégicas… pode ser ainda mais interessante. Tenho certeza que faremos uma ótima dupla de debate.

Ele não esperou por uma resposta. Com um último olhar penetrante, ele se virou e caminhou em direção à saída da biblioteca, seus passos firmes e silenciosos, como se estivesse flutuando.

Helena ficou ali, com o livro ainda apertado contra o peito, o coração batendo descompassado. O cheiro dele permaneceu no ar, junto com a sensação inquietante de que, pela primeira vez, alguém não apenas notara sua presença, mas a tinha visto, verdadeiramente vista. E ele não parecia ter gostado do que viu. Ou talvez… sim.

A certeza em seus lábios era esmagadora: seu santuário particular acabara de ser invadido. E ela não tinha ideia se queria que ele fosse embora ou voltasse.