O Maquiavélico · Capítulo 1

Entre Livros e Sombras

Helena traçava círculos imaginários na contracapa empoeirada do volume centenário, o cheiro de papel envelhecido preenchendo seus pulmões com a promessa de outras vidas. A biblioteca da universidade, com suas estantes infinitas e janelas góticas, era seu refúgio habitual.

Era naquele silêncio solene que ela se sentia verdadeiramente em casa, mais conectada aos personagens de romances épicos do que aos colegas que passavam apressados pelos corredores.

Seus cabelos castanhos, geralmente soltos e sem pretensão, caíam sobre os ombros de um cardigan bege, contrastando levemente com a palidez de sua pele. Nenhuma maquiagem pesava em seu rosto, exceto talvez um brilho quase imperceptível nos lábios, que, naquele momento, estavam discretamente mordiscados.

Um par de brincos pequenos, de pérola, o único adorno que trazia diariamente, pareciam capturar a pouca luz que ousava adentrar a penumbra do corredor de filosofia.

Ela suspirou, virando a página de "Orgulho e Preconceito" pela terceira vez naquele semestre. Não importava; cada releitura era um mergulho mais profundo na complexidade dos sentimentos, nas entrelinhas dos dilemas morais.

Para Helena, o amor era isso: uma construção delicada de palavras, um balé de intenções sutis, uma utopia alcançável apenas nas páginas de um livro.

— Ainda sonhando com o seu Mr. Darcy, Helena? — A voz divertida de Sofia a tirou de seu devaneio, fazendo-a sobressaltar.

Helena fechou o livro abruptamente, o rubor colorindo suas bochechas imediatamente. Era um de seus traços mais marcantes, a facilidade com que o constrangimento tingia sua pele clara.

— É apenas um clássico, Sofia. Nada mais — ela murmurou, desviando o olhar para a capa do livro como se ela contivesse todas as respostas.

Sofia, com seus jeans rasgados e uma camiseta de banda, jogou-se na cadeira à frente, empurrando uma pilha de compêndios de direito para o lado. — “Nada mais”? Por favor! Você está aqui há horas, e eu sei que não é para estudar Contratualismo.

— E você está aqui… para quê, Sophia? — Helena retrucou, um sorriso pequeno surgindo em seus lábios. — Para me atormentar?

— Para te salvar da vida platônica que você insiste em levar! — Sofia riu, mas havia carinho em sua voz. — Sabe, o mundo real tem emoção, tem… pessoas de verdade. Com defeitos e qualidades, que te tiram o fôlego de um jeito que a literatura jamais vai conseguir.

Helena preferiu o silêncio, apenas observando a amiga. Sofia era o seu oposto: expansiva, prática e sem filtros. Sua melhor amiga há anos, mas seus mundos eram, às vezes, tão distantes quanto de Helena e um personagem de Jane Austen.

— Vamos, o pessoal vai para o Café Literário depois. Tem uns calouros de economia bem interessantes. Quem sabe você não encontra seu príncipe por lá? — Sofia insistiu, levantando-se.

— Obrigada, Sofia. Mas prefiro a companhia dos meus — Helena gesticulou para a pilha de livros ao seu lado. — E o Café Literário geralmente está cheio demais para a minha… sensibilidade.

Sofia revirou os olhos com um falso desespero. — Como quiser. Mas saiba que sua bolha literária vai estourar um dia, e espero estar lá para te dizer “eu avisei”.

Com um aceno, Sofia partiu, deixando Helena novamente entregue ao seu silêncio, à sua bolha. Ela sorriu levemente, sem acreditar que um dia sua “bolha” seria ameaçada. Para ela, aquilo era segurança, não prisão.

Voltou a atenção para a página, sentindo-se um tanto mais leve. Mas o conforto durou pouco. Uma sombra projetou-se sobre sua mesa, mais densa que as da estante, e uma voz grave e calculada quebrou o silêncio de sua leitura.

— Desculpe interromper sua jornada pelo século XVIII, mas preciso desta seção — disse a voz. Helena levantou o olhar, seus olhos encontrando um par de olhos tão escuros quanto o café mais forte, intensos e sem um pingo de emoção visível.

Era Lorenzo. Estudante de Direito, conhecido pelo intelecto afiado e pela postura impecável. Sua reputação de estrategista e pensador frio precedia-o em qualquer corredor da universidade. Ele estava sempre impecavelmente vestido, hoje com um terno grafite cortado sob medida e um relógio discreto no pulso, cujo brilho sutil parecia contrastar com a ausência de calor em seu olhar.

Seus movimentos eram econômicos, calculados. Ele não pedia, ele afirmava. E a intensidade em seus olhos era difícil de manter, fazendo Helena desviar o olhar rapidamente, as bochechas novamente coradas.

— A… a seção sobre Maquiavel? — ela conseguiu balbuciar, percebendo que ele apontava para o livro ao lado de "Orgulho e Preconceito".

— Exato. Seu exemplar parece ser o único disponível que não foi vandalizado por anotações sem sentido. — Um leve levantar de canto de lábios de sua parte. Não um sorriso, mas algo que se assemelhava a um.

Helena pegou o livro, sentindo a capa fria em seus dedos trêmulos. Ela o entregou, e por um momento, seus dedos roçaram. Uma descarga elétrica sutil percorreu a pele dela, mas talvez fosse só sua imaginação.

Lorenzo pegou o livro, seus dedos longos e finos segurando a espessura do volume com uma elegância quase predatória. Ele a encarou novamente, e por um instante, ela sentiu-se completamente lida, transparente como vidro. Não havia gentileza nesse olhar, mas uma curiosidade quase científica.

— Lendo Maquiavel, Senhorita? Não é uma leitura comum para quem flutua entre o romantismo inglês — ele observou, suas palavras soando mais como uma declaração do que uma pergunta, seu tom baixo, mas penetrante.

— Eu… gosto de contrastes – ela conseguiu responder, apertando "Orgulho e Preconceito" contra o peito, como se o livro pudesse protegê-la.

Ele não respondeu imediatamente. Apenas a observou, um silêncio longo e estratégico que a fez se sentir ainda mais exposta. Por fim, sem dizer mais nada, ele se virou e caminhou para longe, para a seção oposta, um emaranhado de pastas e livros sobre política e direito. Seu perfume, amadeirado e marcante, mas ainda assim sutil, permaneceu no ar.

Helena suspirou aliviada, mas o alívio não apagava a sensação de que algo havia mudado. Aquele breve encontro, aquele olhar frio e inquisitivo, havia perfurado a bolha de sua quietude. Ela olhou para a capa de seu romance, agora parecendo menos real, menos seguro.

Os mundos sobre os quais ela flutuava pareciam, pela primeira vez, perigosamente próximos. E o choque era eletrizante, desconfortável e, de alguma forma inegável.

Pela primeira vez, Helena sentiu que não estava apenas lendo uma história. Ela estava prestes a entrar em uma.