O Maquiavélico · Capítulo 3
A Proximidade Inevitável
O campus zumbia com a agitação da tarde, mas para Helena, o mundo se resumia ao seu exemplar surrado de "Orgulho e Preconceito" e à melodia suave que fluía de seus fones de ouvido. Sentada sob a sombra generosa de um carvalho antigo, ela deixava as palavras de Jane Austen embalarem sua alma. A brisa brincava com seus cabelos castanhos, geralmente soltos, e a calmaria parecia eterna, intocável.
Até que uma sombra esguia e imponente cobriu a página. Helena ergueu os olhos, piscando, como se despertasse de um sonho. Lorenzo estava ali, os braços cruzados sobre o peito, a postura impecável e o olhar... o olhar que parecia decifrá-la sem esforço.
Helena sentiu o rubor aquecer suas bochechas. Era sempre assim com ele. Uma simples presença bastava para desestabilizar seu controle cuidadosamente construído. Ela tirou os fones, o coração acelerado.
— Interrompendo seus devaneios, senhorita Helena? — A voz de Lorenzo era grave, controlada, mas havia uma nota de diversão, ou talvez de desafio, que ela não conseguia decifrar.
— Apenas… lendo — As palavras saíram mais baixas do que ela pretendia. Ela apertou o livro contra o peito, como um escudo.
Ele não respondeu de imediato. Seus olhos vasculharam o título em suas mãos antes de se fixarem novamente nela. Helena evitou o contato visual, concentrando-se em um ponto imaginário logo acima do ombro dele. Era uma tática antiga, uma forma de se proteger da intensidade que Lorenzo exalava.
— "Orgulho e Preconceito". Uma escolha clássica — ele disse, e desta vez o tom era de observação, não de pergunta. — Você se identifica com a Lizzie?
Helena hesitou. Seus amigos sempre a provocavam, dizendo que ela vivia em um mundo à parte, um universo de romances e finais felizes. A pergunta de Lorenzo ia além da superficialidade, tocava algo mais profundo.
— Talvez com o anseio por um amor que transcenda as aparências — ela admitiu, as palavras fluindo antes que pudesse impedi-las. Ela se arrependeu no mesmo instante. Ele não era o tipo que entenderia. Era o tipo que usaria.
Um sorriso mínimo, quase imperceptível, curvou os lábios de Lorenzo. Não era um sorriso de alegria, mas de quem havia confirmado uma hipótese. Ele deu um passo à frente, e Helena sentiu o cheiro marcante de seu perfume, sutil, mas inconfundível. Era amadeirado, com um toque cítrico, e envolvia-a como uma teia invisível.
Ele se inclinou ligeiramente, sem quebrar o contato visual, e Helena engoliu em seco. A proximidade era demais. Seus olhos, geralmente tão focados em evitar o olhar dele, agora estavam presos, observando a linha perfeita de seu maxilar, o pomo de adão movendo-se levemente quando ele respirou.
— E a realidade, Helena? Ela se alinha com seus anseios? — A pergunta era um sussurro, e de repente o som do campus parecia distante, abafado. Era como se estivessem em uma bolha, no centro de sua própria dramaturgia.
Helena sentiu um tremor percorrer seu corpo. Era uma mistura de medo e... algo mais. Uma curiosidade perigosa. Ele estava invadindo suas defesas, e ela sentia que estava prestes a ceder. Acostumada a amar apenas de longe, ela sabia que aquele tipo de intensidade era um caminho sem volta.
— A realidade é… complexa — ela murmurou, desviando o olhar para o livro novamente. A capa parecia um porto seguro.
Lorenzo retraiu-se um pouco, mas ainda estava perto o suficiente para que ela sentisse o calor irradiando dele. Ele colocou a mão sobre o tronco do carvalho, bem ao lado da cabeça dela, prendendo-a ali. Não de forma agressiva, mas com uma quietude calculada que era ainda mais amedrontadora. Seu pulso palpitava na têmpora de Helena.
— Complexa, sim. E muitas vezes desapontadora para aqueles que preferem viver em seus próprios jardins idealizados — ele ironizou, a voz agora um pouco mais firme. — Não acha que a verdadeira coragem está em confrontar o que é real, Helena?
Ela mordeu o lábio inferior. Ele estava certo. Parte dela sabia disso, mas o medo era um véu espesso que a impedia de ver com clareza. O confronto trazia vulnerabilidade, e a vulnerabilidade era um abismo que ela se recusava a transpor.
— E qual é a sua realidade, Lorenzo? — O desafio escapou de seus lábios antes que pudesse retirá-lo. Os olhos dele brilharam com um contentamento sombrio. Ela havia caído na armadilha
Ele soltou uma risada baixa, quase um rosnado, que reverberou no peito de Helena. Foi a primeira vez que ela o ouviu rir de verdade, e a surpresa a atingiu como um choque.
— Minha realidade? Ah, Helena. Minha realidade é construída. Cada passo, cada palavra, cada olhar. Nada é deixado ao acaso. Você deveria experimentar, às vezes. É muito mais interessante do que se esconder entre páginas e melodias.
Seu olhar mergulhou nos dela, e por um instante, a barreira entre eles desmoronou. Helena sentiu o impulso, a eletricidade, a ânsia de encostar, de entender, de desafiar. Era uma força poderosa e perigosa.
Um grupo de colegas passou por perto, rindo alto, e o feitiço se quebrou. Lorenzo afastou-se, o semblante retomando sua usual neutralidade. Mas a energia entre eles não se dissipou.
— Pense nisso, Helena — ele disse, com uma suavidade inesperada, enquanto se afastava. — Um dia, talvez, você canse da ficção. E então… a realidade estará esperando.
Ele se foi, deixando Helena sozinha sob o carvalho, o coração em descompasso, o livro de "Orgulho e Preconceito" esquecido em seu colo. A melodia dos fones de ouvido havia silenciado, substituída pelo eco das palavras de Lorenzo. O jogo deles havia começado, e ela sentia que, pela primeira vez, não tinha certeza de qual papel deveria desempenhar.