O Jogo dos Dois · Capítulo 2
Capítulo 2 — O Tabuleiro
Eu soube quem ela era antes do fim do primeiro dia.
Não foi difícil. Minha equipe de segurança verifica todos os novos funcionários além do processo de RH — triagem própria, mais funda, que raramente encontrava algo porque raramente alguém tentava se infiltrar com preparação suficiente para passar na primeira camada.
Laura Santos havia passado na primeira camada. Não passou na segunda.
Sofia Ramos. Vinte e seis anos. Irmã de Lucas Ramos, morto há dois anos numa execução que a polícia arquivou e que eu sabia, porque sabia de quase tudo que acontecia no meu território, que havia sido encomendada de dentro da minha própria organização.
O que eu não sabia era por quem.
Fiquei com o dossiê na mão por um tempo enquanto Marcos, chefe de segurança, esperava a instrução.
— O que quer que eu faça? — disse ele.
Olhei para a foto de Sofia. Era de dois anos atrás — o cabelo era diferente agora, mais escuro, e havia alguma coisa nos olhos que não existia na foto, o tipo de coisa que aparece quando alguém passa por perda e decide transformar a dor em projeto.
Eu conhecia esse olhar. Havia aprendido ele no espelho depois que meu pai morreu e eu entendi o que havia herdado.
— Nada — disse eu.
Marcos piscou. — Nada?
— Deixa ela trabalhar. — Fechei o dossiê. — Monitora, mas não interfere. Não é tocada por ninguém.
— Nicolau, ela está aqui para—
— Eu sei por que ela está aqui. — A voz saiu com a precisão que eu usava quando o assunto estava encerrado. — Alguém a colocou aqui. Alguém que sabia sobre o irmão dela e usou isso. Quero saber quem.
Marcos entendeu. Saiu.
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Sofia Ramos havia sido direcionada para mim.
Essa era a conclusão que importava. A dor dela era real, a motivação era real, mas alguém havia apontado essa dor na minha direção com cuidado suficiente para que ela acreditasse que era conclusão própria. Isso tinha assinatura — havia um ângulo específico no tipo de manipulação que plantava prova suficiente para convencer alguém que queria ser convencido.
Eu havia visto essa assinatura antes.
Havia suspeita de traição interna há seis meses. Nada concreto — movimentações pequenas, decisões que vazavam antes de eu tomá-las, duas operações que haviam encontrado problemas que só faziam sentido se alguém de dentro soubesse dos planos. Havia começado a mapear, havia estreitado o círculo, havia chegado a uma lista de quatro pessoas com acesso suficiente.
Sofia era uma peça no jogo de alguém. E esse alguém estava perto o suficiente para saber sobre Lucas Ramos, para ter acesso às provas falsas que a haviam convencido, para calculado que ela chegaria até mim.
Isso eliminava dois dos quatro da lista.
Deixava Dante.
Não era certeza. Dante era primo, era de confiança antiga — ou havia sido, antes de eu começar a questionar o que *confiança antiga* significava quando o que estava em jogo era controle de uma organização que valia o que a minha valia. Precisava de prova, não de suspeita.
Sofia, sem saber, estava me ajudando a encontrá-la.
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Na tarde do segundo dia, passei pela antessala de Fonseca com propósito calculado.
Ela estava ao telefone — voz profissional, tom neutro, os olhos nos documentos à frente. Quando me viu no corredor, havia na postura uma micro-tensão que desaparecia em menos de um segundo. Treinada. Bem treinada.
Parei.
— Laura. — Era a primeira vez que eu usava o nome. Vi o efeito mínimo — a pausa de meio segundo antes de ela ergueu os olhos, o tempo de quem está respondendo a um nome que não é seu mas aprendeu a reagir. — Fonseca pediu o relatório do terceiro trimestre para amanhã?
— Sim, Dr. Veras. Já está sendo finalizado.
— Manda uma cópia para mim também.
— Claro.
Continuei andando.
Havia duas razões para aquela interação. A primeira era prática — o relatório me interessava de verdade, havia números ali que eu precisava ver antes que Fonseca os apresentasse para o conselho.
A segunda era observação.
Sofia Ramos havia passado dois anos preparando um plano de vingança contra mim. Havia construído uma identidade falsa, havia se infiltrado na minha organização, estava sentada a trinta metros do meu escritório todos os dias com alguma intenção que eu ainda precisava entender completamente.
E havia, nos olhos dela quando ergueu o rosto, algo além do plano — algo que ela provavelmente não sabia que mostrava.
Não era o ódio que eu havia esperado.
Era curiosidade.
A mesma curiosidade que eu sentia, olhando para ela.
Isso era complicação desnecessária. Eu sabia disso.
Mas havia uma coisa que vinte anos operando no limite entre o legal e o que não era haviam me ensinado: complicações desnecessárias eram frequentemente onde a verdade ficava escondida.
E eu precisava da verdade mais do que precisava de simplicidade.