O Jogo dos Dois · Capítulo 3

Capítulo 3 — Três Semanas

Três semanas dentro e ela ainda não tinha nada.

Não era falta de esforço — havia mapeado os fluxos de documentos do andar, havia identificado os arquivos com faixa vermelha e os padrões de quando eram gerados, havia cultivado uma relação funcional com Carla do RH que estava começando a render informação sobre a estrutura interna que não aparecia em nenhum organograma público.

O problema era Nicolau Veras.

O problema era que Nicolau Veras não era o que ela havia esperado.

Ela havia construído uma imagem ao longo de dois anos de investigação — chefe de máfia, herdeiro violento, homem que mandava matar sem piscar. Havia provas o suficiente para isso: registros de execuções atribuídas à organização, nomes de pessoas que haviam cruzado a Veras e não existiam mais, a foto de Lucas no IML que ela havia guardado no celular e olhava quando precisava lembrar por que estava ali.

Mas Nicolau em pessoa era diferente do Nicolau das provas.

Havia três episódios nas últimas três semanas que ela não conseguia encaixar na narrativa.

O primeiro: uma reunião onde um fornecedor havia chegado com números inflados, esperando que ninguém percebesse. Nicolau havia percebido, havia exposto com precisão cirúrgica, e havia dado ao fornecedor a opção de renegociar ou encerrar o contrato — sem ameaça, sem pressão além da verdade nua. O fornecedor havia renegociado. Nicolau havia sido completamente justo nos novos termos.

Isso não era como chefes de máfia operavam.

O segundo: ela havia presenciado, por acidente, uma conversa no corredor entre Nicolau e um funcionário mais velho que havia cometido erro grave num relatório financeiro. O protocolo esperado era substituição imediata. Nicolau havia dado prazo para correção e oferecido apoio técnico. Havia perguntado se havia algo interferindo no trabalho do homem.

O terceiro, e o mais difícil de ignorar: na sexta da segunda semana, quando ela havia ficado até tarde copiando arquivos que não devia, havia ouvido Nicolau no telefone através da porta entreaberta do escritório. A voz estava diferente — não o tom executivo, mas mais funda, mais particular. Ele estava falando com alguém sobre dívidas que havia herdado junto com a organização. *Não escolhi isso*, havia dito, com uma clareza que não era para audiência, era para si mesmo. *Mas vou desfazer o que puder antes de sair*.

*Antes de sair.*

Sofia havia ficado parada no corredor por um tempo que não deveria ter ficado.

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Hoje havia uma reunião de conselho no décimo quinto andar. Fonseca havia pedido que ela subisse com uma pasta de documentos às quatorze horas.

Ela tinha câmera no crachá — minúscula, invisível, com três horas de bateria. Havia planejado isso para exatamente esse tipo de oportunidade: acesso temporário a andar restrito, documentos em mesa, possibilidade de capturar algo útil.

Entrou no elevador com a pasta.

Nicolau estava lá.

Sozinho — o que era incomum, ele quase sempre tinha assessores em movimento. A porta fechou antes que ela pudesse decidir se esperava o próximo.

O silêncio do elevador durou três andares.

— Você trabalha até tarde — disse ele, sem olhar para ela.

— O Dr. Fonseca tem projetos com prazo curto.

— Sei. — Uma pausa. — Você é de Curitiba?

A pergunta era casual. Era o tipo de pergunta que qualquer executivo fazia para funcionário novo — small talk de corredor, sem peso.

Mas havia algo no tom que não era small talk.

— Sim — disse ela, com a voz de Laura Santos, segura e pronta.

— Qual bairro?

— Batel.

— Estudou na PUC?

— Sim.

— Em que ano formou?

— 2021.

Os olhos dele se viraram para ela — rápido, direto — e havia neles aquela leitura que ela havia sentido no primeiro dia e que continuava não conseguindo catalogar completamente.

— Bom — disse ele.

As portas abriram no décimo quinto. Ele saiu primeiro. Ela foi atrás.

No corredor, antes de virar para a sala de reuniões, ele parou sem se virar.

— Laura.

— Sim?

— As câmeras do décimo quinto têm resolução melhor que as dos outros andares. — Pausa de um segundo, precisa. — Só para saber.

E entrou na sala de reuniões.

Sofia ficou parada no corredor com a pasta na mão e o coração batendo num ritmo que dois anos de preparação não haviam treinado para isso.

Ele sabia.

Não sabia o quê exatamente — ou sabia tudo? — mas havia acabado de avisá-la sobre as câmeras em vez de acionar segurança.

Por quê?

Ela foi entregar a pasta para Fonseca com o rosto completamente neutro e a mente trabalhando em velocidade máxima, desmontando cada premissa que havia construído nos últimos dois anos e tentando entender em que tipo de jogo havia entrado sem perceber.