O Jogo dos Dois · Capítulo 1

Capítulo 1 — Infiltração

O crachá dizia *Laura Santos*.

Sofia olhou para ele uma última vez no espelho do banheiro do décimo segundo andar, no prédio onde a Veras Holding ocupava os últimos quatro andares e onde ela havia conseguido o cargo de assistente executiva depois de oito meses de preparação, três identidades descartadas e um favor que havia custado mais do que queria admitir.

Laura Santos. Vinte e seis anos. Natural de Curitiba. Formada em Administração pela PUC-PR. Referências verificáveis, histórico limpo, LinkedIn com dois anos de atividade que ela havia construído manualmente, post por post, para parecer real.

Era real o suficiente.

Guardou o crachá na bolsa, respirou fundo — quatro dentro, oito fora, o ritmo que havia aprendido num curso de controle de estresse que havia feito especificamente para isso — e saiu do banheiro.

A recepção do décimo segundo andar era o tipo de espaço que dizia *poder* antes de qualquer palavra ser dita: mármore escuro, iluminação que era cara de um jeito que você sentia sem conseguir descrever, silêncio que parecia mantido por esforço. Dois seguranças na entrada do corredor que levava aos escritórios internos. Câmeras em cada ângulo.

Ela havia estudado a planta do andar por três semanas. Sabia onde estavam as câmeras com pontos cegos, sabia os horários de troca dos seguranças, sabia que o servidor de dados ficava no andar de cima atrás de uma biometria que levaria tempo para contornar mas que tinha uma vulnerabilidade no sistema de backup que ela havia identificado a partir de uma brecha num paper de segurança de 2023.

Sabia também onde ficava o escritório de Nicolau Veras.

Não ia lá hoje. Hoje era o primeiro dia — apresentações, orientações, o mapeamento humano que era mais importante que qualquer planta física. Quem confiava em quem. Quem tinha acesso a quê. Quem olhava para o chão quando o nome de Nicolau era mencionado versus quem erguia os olhos.

Foi recebida por Carla, a chefe de RH, que tinha o tom de quem repetia o mesmo briefing havia anos e havia desistido de variar.

— Você vai trabalhar diretamente com o Dr. Fonseca, diretor executivo. O Dr. Veras tem agenda própria que você não vai gerenciar. — Uma pausa que era quase aviso. — Quando o Dr. Veras precisar de algo, ele pede diretamente. Responda rápido e sem perguntas desnecessárias.

— Entendido.

— Almoço é no décimo primeiro, não sobe comida para os andares executivos. Celular no silencioso dentro do corredor interno. Qualquer documento marcado com faixa vermelha vai direto para mim, não para o arquivo geral.

Documentos com faixa vermelha. Sofia arquivou.

A mesa dela ficava na antessala do escritório de Fonseca — ângulo perfeito para o corredor que levava ao escritório de Nicolau no fim do andar. Ela havia pedido aquela mesa especificamente, numa manobra que havia levado três semanas para executar através de uma ex-funcionária que conhecia a ex-assistente de Fonseca que havia saído no mês anterior.

Estava se instalando quando ouviu o elevador.

Não havia nada diferente no som — era o mesmo elevador que havia usado para subir. Mas havia algo no silêncio que se instalou no andar inteiro quando as portas abriram que era diferente, o tipo de silêncio que acontece quando uma presença específica entra num ambiente.

Ergueu os olhos.

Nicolau Veras tinha trinta e quatro anos nas fotos que ela havia estudado. Em pessoa era diferente — não mais velho, mas mais real, mais sólido, com aquela qualidade de presença que fotografias não capturavam. Terno escuro, sem gravata, o cabelo preto ligeiramente longo para o ambiente corporativo que mantinha ao redor como escudo. Caminhava com aquela contenção específica de homens que poderiam ocupar mais espaço e escolhiam não ocupar porque sabiam que não precisavam.

Dois assessores atrás. Dante Veras — o primo, ela reconheceu da pesquisa — ao lado, falando baixo.

Nicolau ouvia sem olhar para Dante.

Olhava para frente.

E por exatamente dois segundos, quando passou pelo corredor que cruzava com a visão da antessala, os olhos dele pararam em Sofia.

Não foi o olhar de avaliação de executivo verificando funcionária nova. Foi mais específico que isso — mais fundo, o tipo que não catalogava mas lia.

Ela sustentou. Não desviou — desviar seria erro, seria mostrar que havia algo para esconder.

Ele continuou andando.

Sofia voltou para a tela do computador.

O coração estava em ritmo normal. Ela havia treinado para isso.

Mas havia algo no olhar dele — dois segundos, não mais — que a fez revisar mentalmente cada detalhe da identidade de Laura Santos pela primeira vez desde que havia chegado.

Não por medo.

Por instinto. E instinto, ela havia aprendido com o irmão que não estava mais aqui para ensiná-la nada, raramente estava errado.