Meu Erro Favorito · Capítulo 2
Regras Não Escritas
Havia uma regra não escrita na Monteiro Tech: ninguém entrava na sala de Rafael sem ser chamado.
Sofia descobriu isso da forma mais direta possível — na manhã da segunda semana, quando bateu na porta entreaberta porque ele não estava respondendo ao ramal e ela precisava de uma assinatura para o contrato com a gráfica. A porta se abriu. Ele estava ao telefone, de costas, a voz baixa e tensa falando algo que ela não conseguiu entender. Ele se virou. Os olhos foram direto para ela.
Ela levantou o documento com uma mão e apontou para a linha da assinatura com a outra.
Ele continuou ao telefone, pegou a caneta sobre a mesa, assinou sem nem olhar para o papel e voltou a atenção para a ligação.
Sofia saiu sem dizer nada.
No corredor, percebeu que estava sorrindo.
---
— Você é corajosa — disse Tomás, do departamento financeiro, quando ela contou na hora do almoço.
— Ou imprudente.
— Na Monteiro Tech são a mesma coisa. — Ele riu. — A última assistente durou três semanas. A anterior, dois meses. Você está indo bem.
Sofia olhou para ele. — Quantas assistentes ele já teve?
Tomás fez uma conta rápida com os dedos. — No último ano? Quatro. Não que ele seja grosseiro, entende. Ele só é... muito.
— Muito o quê?
— Muito tudo. Muito exigente, muito focado, muito presente quando quer alguma coisa e completamente ausente quando não quer. Tem gente que não aguenta.
Sofia bebeu um gole do café. — Eu aguento.
Tomás a olhou com aquele sorriso meio cético, meio divertido. — É o que elas dizem no começo.
---
Na tarde daquele mesmo dia, Rafael parou ao lado da mesa de Sofia sem aviso.
Ela estava digitando uma ata de reunião e só percebeu a presença dele porque o perfume chegou antes — madeira, algo seco e discreto, impossível de ignorar de perto. Ela terminou a frase que estava digitando antes de olhar para cima.
Ele segurava dois documentos.
— Esses dois fornecedores têm proposta parecida — disse ele, colocando os papéis sobre a mesa. — Preciso de uma análise comparativa até amanhã de manhã. Preço, prazo, histórico de entrega, qualquer reclamação registrada nos últimos dois anos.
— Tudo bem.
— Não é simples. Vai exigir contato direto com os dois fornecedores para obter o histórico completo.
— Eu ligo hoje à tarde.
Ele ficou parado por um segundo. Como se estivesse esperando que ela pedisse mais prazo, ou fizesse alguma pergunta sobre como fazer. Quando nenhuma das duas coisas aconteceu, ele assentiu brevemente.
— Bom.
Ia dar meia volta quando Sofia falou.
— Uma coisa — disse ela.
Ele parou. Se virou.
— A gráfica confirmou a entrega para sexta. O contrato que o senhor assinou ontem — eles precisam do documento de volta por e-mail com cópia digital. Já enviei, mas queria confirmar que o senhor está ciente.
Pausa curta. — Poderia simplesmente ter mandado um e-mail me informando.
— Poderia. Mas o senhor não lê e-mails internos antes das onze.
Silêncio.
Sofia esperou, completamente imóvel, mantendo o contato visual.
— Você pesquisou minha rotina — disse ele.
— Faz parte do trabalho saber como o meu chefe funciona.
Algo passou pelos olhos dele — rápido demais para ela identificar. Não era irritação. Não era exatamente aprovação. Era mais parecido com reconhecimento, o tipo que aparece quando alguém encontra o que não estava esperando.
— Está bem — disse ele.
E foi embora.
---
Sofia voltou para a ata, mas os dedos ficaram parados sobre o teclado por um momento.
Havia algo perturbador em trabalhar para alguém que usava tão poucas palavras. Na maioria das interações, você conseguia ler uma pessoa pelo que ela dizia em excesso — pelas justificativas, pelos elogios calculados, pelas perguntas que eram na verdade afirmações disfarçadas. Rafael não dava nada disso. Era como tentar ler um livro que só tinha o essencial, sem uma palavra a mais do que o necessário.
E ainda assim, naquele segundo antes de ele ir embora, ela tinha visto alguma coisa.
Ela não sabia o que era.
Mas sabia, com a clareza inconveniente de quem se conhece bem, que ia querer descobrir.
Esse era o problema com Sofia Reis: ela sempre queria entender as coisas até o fim. E algumas coisas — algumas pessoas — não eram feitas para ser entendidas com segurança.