Meu Erro Favorito · Capítulo 1
O Homem que Não Sorri
Ele não era o tipo de homem que sorria.
Isso foi a primeira coisa que Sofia notou quando as portas do elevador se abriram no vigésimo terceiro andar da Monteiro Tech. Não era o tamanho do escritório, que ocupava o andar inteiro e tinha paredes de vidro que davam para a cidade lá embaixo. Não era o silêncio quase cirúrgico do lugar, onde até as teclas dos teclados pareciam ter medo de fazer barulho. Era ele — Rafael Monteiro — parado no centro da sala de reunião com uma prancheta na mão e a expressão de quem já tinha decidido que o dia estava perdido antes de começar.
Sofia segurou a alça da bolsa e entrou.
— Você deve ser a nova assistente — disse ele, sem olhar para ela.
— Sofia Reis. — Ela estendeu a mão. — Prazer.
Ele olhou para a mão. Depois para ela. Apertou brevemente, sem calor.
— Pontualidade é o mínimo aqui, não um diferencial. Você tem três minutos de atraso.
— O metrô — começou ela.
— Não me interessa. — Ele já tinha voltado a atenção para a prancheta. — Vera vai mostrar sua mesa. Reunião às dez. Preciso dos relatórios do terceiro trimestre organizados por segmento antes disso.
Sofia ficou parada por um segundo. Era o tipo de pausa que a maioria das pessoas usaria para se desculpar, para encolher um pouco, para ajustar as expectativas. Ela usou para respirar fundo e colocar o sorriso de volta no lugar.
— Entendido — disse ela.
Ele não respondeu.
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Vera, a recepcionista que tinha os olhos cansados de quem trabalhou muitos anos para um chefe difícil, mostrou a mesa de Sofia perto da janela do corredor — próxima o suficiente da sala de Rafael para ela ouvir quando ele precisasse de algo, longe o suficiente para ter a ilusão de privacidade.
— Ele não é fácil — disse Vera, em voz baixa, enquanto ligava o computador. — Mas é justo. Se você fizer bem o seu trabalho, ele deixa você em paz.
— E se eu não fizer?
Vera deu um sorriso cansado. — Você vai saber.
Sofia arrumou o caderno, a caneta, o crachá que ainda cheirava a plástico novo. Vinte e dois anos, diploma de administração com a melhor média da turma, três estágios antes deste e a sensação de que finalmente estava no lugar certo. A Monteiro Tech era a startup de tecnologia que mais crescia no Brasil — Rafael Monteiro tinha fundado a empresa com vinte e oito anos, com investimento próprio e zero sócios, e construído um império em menos de uma década.
Trabalhar para ele era o tipo de coisa que se colocava no currículo e abria portas para o resto da vida.
Ela só precisava sobreviver ao processo.
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Às dez em ponto, Sofia entrou na sala de reunião com os relatórios organizados em três pastas, separados por segmento, com marcadores coloridos nas páginas principais. Ela tinha feito em quarenta e três minutos o que provavelmente levava duas horas para alguém menos organizado.
Rafael estava de costas para a porta, olhando pela janela para a cidade lá embaixo. Quando ela colocou as pastas sobre a mesa, ele se virou.
Ele era mais alto do que parecia à distância. Ou talvez fosse o jeito que ele ficava em pé — completamente quieto, como se o espaço em volta dele existisse por permissão.
— Terceiro trimestre — disse ela. — Separei por segmento conforme solicitado. Adicionei marcadores nas métricas principais de cada seção para facilitar a leitura durante a reunião.
Ele pegou a primeira pasta sem dizer nada. Folheou devagar, parando em algumas páginas. Sofia ficou de pé do outro lado da mesa, esperando.
— Você adicionou uma análise comparativa — disse ele, sem olhar para cima.
— Pareceu útil. Os números do segundo trimestre estavam na pasta original que a Vera me passou, então aproveitei para incluir.
Silêncio. Ele continuou folheando.
Sofia resistiu à vontade de preencher o silêncio com alguma coisa. Era o seu maior defeito — o impulso de falar quando o ar ficava pesado. Desta vez, ela ficou quieta.
— Bom — disse ele, finalmente.
Era uma palavra. Só uma. Mas ela veio de alguém que claramente a usava com parcimônia.
Sofia não sorriu. Mas sentiu alguma coisa se acomodar no peito — não satisfação exatamente, mais parecido com a certeza de que estava no lugar certo.
— Pode sair — disse ele.
Ela saiu.
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Na hora do almoço, sentada no refeitório com um sanduíche e o caderno aberto, Sofia olhou para o vigésimo terceiro andar lá de cima — as paredes de vidro que deixavam a luz entrar mas não deixavam ver muito do lado de dentro. Em algum lugar ali, Rafael Monteiro estava trabalhando. Provavelmente sem parar para almoçar. Provavelmente sem nem saber que o resto do mundo tinha uma hora de intervalo.
Ela mordeu o sanduíche e pensou no jeito que ele tinha dito bom — seco, direto, sem intenção nenhuma de agradar.
Ia ser difícil trabalhar para ele.
Ela já sabia isso.
O que ela não sabia ainda era que difícil e impossível são coisas muito diferentes — e que, às vezes, é o difícil que fica.