Meu Erro Favorito · Capítulo 3
Quinze Anos
A análise comparativa ficou pronta às onze da noite.
Sofia estava sozinha no andar — bem, quase sozinha. A luz da sala de Rafael ainda estava acesa quando ela chegou às oito da manhã e continuava acesa quando, depois de seis ligações, três planilhas e uma crise com um fornecedor que não queria abrir o histórico de reclamações, ela finalmente salvou o documento e fechou o computador.
Ela estava colocando o casaco quando ele abriu a porta da sala.
Ele parou. Como se não esperasse encontrar ninguém ali.
— Ainda aqui — disse ele. Não era uma pergunta.
— A análise ficou pronta. Enviei por e-mail, mas deixei uma cópia impressa na sua mesa também, caso prefira revisar no papel.
Ele olhou para ela com aquela atenção que ela ainda não tinha aprendido a nomear — concentrada, sem pressa, como se estivesse processando algo além das palavras.
— Você não precisava ficar até agora.
— Eu sei. — Sofia colocou a alça da bolsa no ombro. — Mas eu disse que entregava amanhã de manhã e preferi garantir enquanto os dados estavam frescos na cabeça.
Silêncio.
— Quinze anos — disse ele, de repente.
Ela piscou. — O quê?
— A diferença entre a data de fundação dos dois fornecedores. Você deve ter notado na análise — o mais antigo tem quinze anos de mercado a mais.
— Ah. — Ela relaxou os ombros que tinham tensionado sem aviso. — Sim. E o histórico de entrega reflete isso. Menos variação, mais consistência. O mais novo compensa com preço, mas os dois atrasos no último ano são um risco que precisaria ser considerado.
— Qual você escolheria?
Ela não esperava a pergunta. Mas respondeu sem hesitar.
— O mais antigo. Quinze anos de mercado são quinze anos de problema resolvido. Você paga mais agora, mas dorme melhor.
Rafael ficou olhando para ela por um segundo.
— Boa noite — disse ele, finalmente. E entrou de volta na sala.
Sofia ficou parada por um momento, a mão no botão do elevador, com a sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado nos últimos dois minutos — sutilmente, quase imperceptivelmente, mas mudado.
Ela não conseguia dizer o quê.
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Na semana seguinte, ele escolheu o fornecedor mais antigo.
Vera contou para ela na hora do café, com um sorriso que dizia mais do que as palavras.
— Ele não costuma pedir opinião — disse Vera.
— Ele não pediu. Perguntou qual eu escolheria.
— Para ele, é a mesma coisa.
Sofia não respondeu. Mas guardou aquilo em algum lugar da cabeça, naquele arquivo mental onde ela colocava as coisas que ainda não sabia o que fazer.
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O problema com Rafael Monteiro não era que ele era difícil.
O problema era que, quanto mais ela aprendia a lê-lo, mais queria continuar lendo.
Ela sabia como ele preferia os relatórios — sem formatação excessiva, dados primeiro, análise depois. Sabia que ele não bebia café depois das quatro da tarde. Sabia que quando ele ficava de pé diante da janela por mais de três minutos seguidos, alguma coisa no projeto estava errada e ele estava reformulando a abordagem na cabeça. Sabia que ele respondia e-mails externos em bloco, duas vezes por dia, e que ligações inesperadas o irritavam o suficiente para ele deixar claro na expressão, mesmo que a voz ficasse igualmente controlada.
Ela sabia essas coisas porque era o trabalho dela sabê-las.
O problema era o que vinha junto com esse conhecimento — a familiaridade involuntária, o jeito que você começa a antecipar uma pessoa quando passa horas por dia na órbita dela. Sofia reconhecia os sinais com a fluência de quem aprendeu um idioma novo, e havia algo perturbadoramente íntimo nisso para uma relação que era, acima de tudo, profissional.
Certa tarde, ela levou café para a reunião sem que ele pedisse, porque sabia que ele ia precisar — eram três horas, a reunião ia durar pelo menos duas, e ela tinha visto a expressão com que ele saiu do almoço. Ele pegou a xícara sem olhar para ela. Mas quando a reunião acabou e ela foi recolher os materiais, a xícara estava vazia.
Era uma coisa pequena.
Não devia significar nada.
Mas Sofia ficou um tempo a mais do necessário arrumando as pastas sobre a mesa, tentando convencer a si mesma de que sabia muito bem o que significava e o que não significava.
Quinze anos. Era quanto tempo Rafael tinha de mercado a mais do que ela. Era a diferença entre onde ela estava e onde ele estava. Era, segundo ela mesma, o motivo pelo qual você escolhe estabilidade sobre risco.
Ela só estava com dificuldade de se lembrar disso quando ele estava na mesma sala.