Jogando com o Coração · Capítulo 2
A Garota Improvável
A fumaça do gelo se dissipava, o eco dos patins arranhando a superfície ainda vibrando em seus ouvidos. Logan Bennett, número 9, havia marcado o gol da vitória em uma jogada espetacular que, como de costume, fez a arena explodir. A adrenalina pulsava em suas veias, o suor escorrendo pela testa enquanto ele recebia os tapinhas nas costas dos companheiros de time.
Era a sensação que ele amava, a aprovação incondicional, os holofotes. No vestiário barulhento, a euforia era contagiante. Era ali que ele pertencia, onde cada fibra de seu ser fazia sentido.
— Essa é a sua última chance, Bennett. — A voz do treinador Miller cortou a celebração, pesada e inconfundível. — Mais um deslize e você está fora. Nem o hóquei te salva do departamento de registros acadêmicos.
O sorriso de Logan vacilou. A frase era um balde de água fria, a velha mancha em seu currículo impecável. Ele assentiu, sentindo o peso da expectativa, a imagem do pai, um fantasma silencioso em sua mente.
— Eu já separei um nome para você. — Miller continuou, sem suavizar o tom. — É uma das melhores alunas da universidade, e você não tem o luxo de ser seletivo. Vá amanhã na biblioteca, depois do seu treino matinal. Ela vai estar te esperando.
Logan franziu o cenho. Um nome? Uma aluna? Ele esperava um professor particular, alguém experiente, não… isso. O treinador entregou um post-it com uma letra miúda e cursiva: *Charlotte Hayes. Sala 204. Das 10h às 12h.*
Charlotte Hayes. O nome não lhe dizia nada. Provavelmente, uma daquelas garotas que passavam a vida entre livros, invisível nas festas e nos corredores. Seria fácil, ele pensou. Charme padrão Bennett, talvez uma piscadela, e ela faria o trabalho dele. Elas sempre faziam.
Na manhã seguinte, o ar gelado cortava a pele enquanto Logan caminhava para a biblioteca, os patins ainda no porta-malas de seu carro esportivo. O cheiro de café e livros antigos o envolveu assim que ele empurrou as portas maciças. Ele não era um frequentador assíduo. A biblioteca era um território desconhecido.
Ele encontrou a sala 204. A porta estava entreaberta. Uma garota estava sentada à mesa, de costas para ele, os cabelos castanhos escuros presos em um coque frouxo, alguns fios teimosos escapando ao redor do pescoço. Ela usava um suéter cinza folgado e jeans, os óculos equilibrados na ponta do nariz enquanto lia um livro grosso. A cena era tão pacífica que quase o fez hesitar.
— Charlotte Hayes? — ele perguntou, entrando na sala. A voz, mais alta do que o esperado no silêncio, fez a garota pular levemente, os ombros tensos.
Ela se virou. Seus olhos, de um tom verde profundo, o fitaram por cima dos óculos. Não havia surpresa ou admiração, apenas uma leve irritação. Era uma expressão que ele raramente via quando se apresentava.
— Logan Bennett. Você está atrasado. — A voz dela era calma, mas a observação era um soco. Sem rodeios, sem sorrisos forçados, apenas a constatação de um fato. Ele notou que ela não era “secretamente linda”. Ela era abertamente, de uma forma discreta e sem esforço, deslumbrante. E ele não gostou da indiferença.
— O treino demorou mais do que o esperado. — Ele tentou justificar, deslizando a mochila para o chão e puxando uma cadeira à frente dela, sentando-se com a naturalidade de quem esperava ser servido.
Charlotte levantou uma sobrancelha, os olhos verdes o analisando sem piscar. Ela inclinou a cabeça ligeiramente, e Logan teve a estranha sensação de estar sendo avaliado como um espécime curioso, não como o astro do hóquei.
— Atrasos não serão tolerados, Logan. Meu tempo é tão valioso quanto o seu. — Ela fechou o livro com um clique seco, pousando-o na mesa. O gesto parecia um ponto final em uma conversa que mal havia começado. — E, para ser clara, eu não faço o seu trabalho. Eu te ajudo a fazê-lo. Se você não estiver disposto a se dedicar, não perca o meu tempo.
Ele piscou. Nenhuma garota jamais havia falado com ele daquele jeito, sem um pingo de bajulação ou hesitação. Era como se sua reputação, seu status, seu rosto — que, para a maioria, era um passaporte para qualquer lugar — não significassem absolutamente nada para ela.
Uma irritação aguda começou a borbulhar em seu peito. Quem ela pensava que era? Ele abriu a boca para retrucar, mas ela o interrompeu, seus olhos ainda fixos nos dele, uma faísca de desafio neles.
— Ouvi dizer que você precisa de um milagre em Cálculo, História e Literatura. Qual deles vamos tentar salvar primeiro, Senhor Bennett?
Logan a encarou, pego de surpresa pela franqueza. Ela não estava nem um pouco impressionada. E, de alguma forma, isso era mais perturbador do que qualquer outro desafio que ele já havia enfrentado no gelo.
Talvez, pela primeira vez, ele tivesse encontrado alguém que não jogava pelas suas regras. E a ideia, estranhamente, o deixava tanto irritado quanto… intrigado.