Jogando com o Coração · Capítulo 1
Gelo, Notas e Desencantos
O ar cortante da arena de hóquei era uma segunda pele para Logan Bennett. O cheiro de gelo, suor e metal era seu perfume. Cada vez que seus patins sulcavam a superfície, um rugido percorria a espinha dos torcedores. Ele era o centro das atenções, o coração pulsante do North Valley University Wildlings. O disco voava. Seu stick, uma extensão do braço, interceptava o passe. Um drible rápido, a multidão explodia. Logan sabia exatamente o que fazer. Era sua natureza. Marcar. Vencer. Ser o melhor.
Essa era a vida que ele conhecia. A vida que amava. E a única que o fazia sentir-se realmente vivo. Fora do gelo, o burburinho era constante. Selfies, autógrafos, garotas com olhares famintos. Logan navegava por tudo aquilo com a facilidade de quem nasceu para os holofotes. Um sorriso galante, uma piada bem colocada. Ele dominava o papel. Mas, ultimamente, o brilho estava um pouco opaco.
— Logan! Você ouviu o que eu disse?
A voz grave do Treinador Miller quebrou o transe de suas vitórias mentais. Logan piscou, voltando ao vestiário suarento e barulhento. Cameron, seu melhor amigo e companheiro de linha, lançou-lhe um olhar de repreensão.
— Desculpe, Treinador. Estava pensando no próximo jogo.
Miller bufou, um gesto que Logan conhecia bem. Uma mistura de frustração e afeição relutante. Ele sabia que o treinador o adorava, o via como o futuro do time. Mas também sabia o quanto o irritava.
— O próximo jogo é no gelo, Logan. Não na sala de aula. Suas notas são um desastre. Se você não melhorar em Cálculo e Filosofia, não tem jogo. Entendeu?
O ar pareceu rarefeito. Cálculo e Filosofia. As duas disciplinas que ele teimosamente ignorava. Ele era bom com números que envolviam estatísticas de jogo, não integrais. Filosofia? Ele só precisava pensar em como vencer.
— Entendi, Treinador.
— Não “entendeu, Treinador”. Entendeu como “vou resolver essa porcaria antes que eu te chute para fora da arena”? Preciso de você em campo, Logan. Mas preciso de você elegível.
Logan acenou, o sorriso diminuindo. A ameaça era real. A universidade era rigorosa. Seu pai, que esperava sua ascensão à liga profissional com a mesma intensidade de um devoto, faria um discurso de três dias sobre responsabilidade. O hóquei era seu tudo. Perder a elegibilidade seria perder uma parte de si.
Enquanto isso, a alguns quarteirões dali, a biblioteca da North Valley era um refúgio. Charlotte Hayes não se importava com hóquei, nem com jogos, nem com a popularidade que Logan Bennett exalava. Ela se importava com o silêncio, com o cheiro inebriante de livros antigos e com a promessa de conhecimento que cada página oferecia.
Seus cabelos castanho-escuros estavam presos em um coque frouxo, alguns fios teimosos escapando ao redor do rosto. Os óculos de armação fina repousavam na ponta do nariz enquanto ela rabiscava fórmulas de Cálculo em um caderno. Ao lado, um volume de Kant repousava, com dezenas de marcações em neon.
Ela gostava de ordem, de previsibilidade. O mundo das equações e da lógica era um universo bem-vindo. Fora dali, era um caos. Festas, burburinho, olhares. Tudo o que ela preferia evitar. Não que ela fosse invisível por natureza. Seus olhos, de um castanho claro intenso, eram expressivos, e havia uma elegância discreta em seus movimentos. Mas Charlotte não buscava atenção. Na verdade, ela a repelia.
— Charlotte! Achei você!
A voz estridente de Maya, sua melhor amiga, reverberou entre as estantes, fazendo Charlotte se encolher ligeiramente. Maya era o oposto. Extrovertida, colorida, um furacão de energia. Ela se sentou ruidosamente na cadeira à frente, empurrando um monte de livros.
— Você não vai acreditar no que aconteceu! Elliot me disse que o Logan Bennett, o jogador de hóquei, está reprovando em Cálculo! E em Filosofia!
Charlotte levantou uma sobrancelha, sem desviar o olhar do caderno. O nome Logan Bennett significava absolutamente nada para ela, além de ser o motivo pelo qual a cafeteria ficava lotada às vezes.
— Isso é uma surpresa? Pessoas famosas também não estudam, Maya?
Maya revirou os olhos.
— Não é a surpresa. É que o treinador dele está procurando alguém para dar aulas particulares. Alguém realmente bom, tipo um gênio. E adivinha? Elliot sugeriu você!
Charlotte parou de escrever. A caneta pairava sobre o papel. Ela piscou, absorvendo a informação. Ajudar um jogador de hóquei? Popular? Previsivelmente arrogante? Tudo o que ela evitava.
— Não. Nem pensar.
— Charlotte, pensa bem! O treinador é generoso. Dinheiro extra! E você sabe que sua mãe precisa de uma mão, agora com os tratamentos dela.
A menção à mãe atingiu um nervo. O dinheiro era uma preocupação constante. Era o motivo pelo qual Charlotte passava horas na biblioteca, buscando bolsas e se dedicando aos estudos com uma intensidade quase brutal. Ela podia se permitir abrir mão de festas, mas não podia se permitir negligenciar suas responsabilidades.
— E a melhor parte? Ele é lindo! Todas as garotas babam por ele!
Charlotte soltou um suspiro irritado. Beleza não era um fator. Na verdade, era um complicador. Pessoas bonitas esperavam tratamento diferenciado, indulgência. E ela não oferecia isso a ninguém.
— Não me importo se ele é o rei da beleza. Não vou virar babá de um jogador mimado que não se importa com os estudos.
Maya abriu a boca para protestar, mas Charlotte já tinha voltado para suas fórmulas. O assunto estava encerrado.
Ou era o que ela pensava. Porque, no dia seguinte, enquanto cruzava o campus a caminho de sua aula matinal, uma figura imponente bloqueou seu caminho. Alto, ombros largos sob uma jaqueta de time, um sorriso fácil que faria a maioria das garotas tropeçar nos próprios pés.
Logan Bennett.
Ele estava ali, parado, exalando aquela aura de popularidade que Charlotte detestava. Seus olhos azuis, intensos e cheios de uma confiança quase arrogante, a fixaram.
— Charlotte Hayes, certo? Meu nome é Logan. E, aparentemente, minha vida está nas suas mãos.