Jogando com o Coração · Capítulo 3

Gelo, Fagulhas e Estudo

A biblioteca da North Valley era um templo de silêncio, abençoado por estantes imponentes e sussurros abafados. Para Charlotte, era seu santuário particular. Para Logan, o mais recente campo de batalha, e ele parecia determinado a perdê-la.

— Então, a Segunda Guerra Mundial foi em 1945?

Charlotte suspirou, o som quase inaudível, mas para Logan, que estava sentado a um metro de distância e conseguia sentir o cheiro suave de baunilha e livros velhos vindo dela, pareceu um trovão. Ele a observou apertar os lábios, um gesto que ele já tinha aprendido a identificar como sinal de irritação crescente.

— Não, Bennett. 1945 foi quando ela *terminou*. Ela *começou* em 1939.

Ele rabiscou a anotação, fingindo concentração. A verdade era que estava mais focado no jeito como a luz da janela destacava os fios soltos do cabelo castanho dela, ou como a ponta da caneta batucava ritmicamente na folha.

— Certo, certo. Detalhes.

— Detalhes que fazem a diferença entre um D e um B, Logan. Ou nesse caso, entre passar ou reprovar.

A voz dela era monótona, desprovida de qualquer emoção que pudesse ser interpretada como provocação. E era isso que o irritava. Com outras garotas, ele podia flertar para sair de uma situação. Com Charlotte, flertar era como recitar poesia para uma parede.

Ele se inclinou, jogando um pouco do charme que, fora dali, era infalível.

— Você não poderia… ser um pouco mais flexível? Sabe, para o astro do hóquei aqui. Pressão, treinos, essas coisas.

Charlotte levantou os olhos, finalmente o encarando. Os olhos, de um verde profundo que ele só tinha notado tão de perto, pareciam perfurá-lo.

— A pressão não é desculpa para não se dedicar, Logan. E se você acha que eu sou flexível, então não me conhece bem. Minha flexibilidade se estende a aceitar suas perguntas estúpidas até a terceira vez. Na quarta, eu começo a cobrar.

Ele abriu a boca para responder, mas ela já tinha voltado aos livros. Ele estava em choque. Ninguém falava com ele daquele jeito. Ninguém. Era quase… revigorante. E frustrante ao mesmo tempo.

Os dias se transformaram em semanas, e as sessões de estudo na biblioteca se tornaram uma rotina peculiar. Logan melhorava, a passos de formiga, mas melhorava. E Charlotte, bem, ela continuava Charlotte.

Uma tarde, ele chegou para o estudo com a mão enfaixada. Tinha levado uma pancada boba durante o treino. Nada grave, mas a dor latejava e escrever era um suplício.

Charlotte o observou com a usual falta de emoção.

— O que aconteceu?

— Um deslize no gelo. Coisa de jogador. Você não entenderia.

Ela apenas arqueou uma sobrancelha, um sinal de que ele estava a testando. Logan não resistiu a provocação.

— Você nunca deve ter chegado perto de um ringue de hóquei, não é? Não me parece o seu tipo de programa.

Ela fechou o livro e se levantou, caminhando até ele. O movimento foi tão inesperado que Logan se encolheu levemente. Ela parou ao lado dele, pegou sua mão enfaixada com uma delicadeza que o surpreendeu.

— Deixe-me ver.

Os dedos dela eram frios, mas a sensação de sua pele tocando a dele o fez prender a respiração. Era um toque puramente prático, mas para Logan, acostumado a toques carregados de intenção, a inocência daquilo era quase mais íntima.

— Está doendo muito?

Ele balançou a cabeça, meio surdo para a própria resposta. Estava focado na sensação dos dedos dela, no olhar concentrado enquanto analisava a atadura. Seus rostos estavam a centímetros de distância. Ele podia ver as pintinhas quase invisíveis no nariz dela, o leve rubor nas bochechas.

Um arrepio percorreu seu braço. Não de dor, mas de uma eletricidade diferente, algo que não tinha nada a ver com adrenalina de jogo.

Charlotte se afastou, soltando a mão dele com a mesma praticidade com que a pegou.

— Você não vai conseguir escrever assim. Eu leio e você tenta reter. Mas não se acostume. Não sou sua secretária pessoal.

Logan piscou, voltando à realidade. O calor que se espalhara por sua pele diminuiu. Por um breve momento, a barreira entre eles parecia ter diminuído. Mas Charlotte já estava sentada novamente, a caneta na mão, pronta para a próxima página.

— Capítulo três, se vira. Vou ditar os principais eventos.

Ele a observou, ainda com a sensação fantasma dos dedos dela em sua pele. Não era raiva, nem frustração. Era algo novo. Uma curiosidade que ele não esperava. Ele notou, pela primeira vez, que ela tinha uma pinta pequena, quase escondida, logo acima do lábio superior.

Charlotte o encarou, a sobrancelha erguida novamente.

— Você vai ficar me olhando ou vamos estudar, Logan?

Ele balançou a cabeça, um sorriso lento, quase imperceptível, se formando em seus lábios. Aquele era o tipo de jogo que ele nunca tinha jogado antes. E ele estava estranhamente ansioso para descobrir as regras.

— Estudar. Mas me diga, Charlotte, você é sempre assim? Ou guarda o melhor de si para as pessoas que conhece de verdade?

Ela não respondeu imediatamente. Apenas o olhou, um vislumbre de algo indecifrável em seus olhos verdes, antes de voltar à leitura. Logan sentiu que tinha tocado em algo importante. E isso, de alguma forma, o deixou ainda mais interessado em mergulhar no mundo dela, não importa quão complicado ou silencioso ele fosse.