Entre Três Segredos · Capítulo 2

A Pele que o Tempo Não Apagou

Isabela permaneceu deitada, o celular ainda quente na palma da mão. A mensagem enviada para Camila parecia simples, quase casual. Por dentro, no entanto, algo se moveu. O ventilador girava acima da cama, espalhando o ar morno do quarto. Renato já dormia ao lado, o corpo virado para a parede, respiração baixa e regular.

Ela fechou os olhos e o presente se dissolveu. De volta à Universidade de Santa Irene, o apartamento pequeno cheirava a café frio e a lençóis lavados com sabão barato. Camila estava deitada ao lado, pele morena-clara brilhando sob a luz baixa do abajur. Os dois corpos nus se tocavam sem pressa, coxas entrelaçadas, mãos que exploravam curvas conhecidas. Isabela lembrava o peso do cabelo ondulado de Camila sobre seu ombro, o modo como os dedos dela traçavam linhas lentas na barriga. Não era só desejo. Era algo que apertava o peito, algo que fazia o mundo lá fora desaparecer por horas.

Depois veio o corte. Isabela sentou na beira da cama, vestindo a camisa com pressa, a voz saindo mais seca do que pretendia. Disse que aquilo precisava acabar. Disse que eram coisas de faculdade, que a vida real exigia escolhas. Camila ficou em silêncio, os olhos verdes fixos no teto. Isabela se levantou, pegou a bolsa e saiu sem olhar para trás. Dez anos se passaram sem uma única ligação.

No presente, o celular vibrou de novo. Isabela abriu os olhos. A tela mostrava a resposta curta de Camila: “Obrigada. Chego amanhã”. Isabela apagou a conversa inteira. Não queria rastros. O coração batia mais forte, mas ela respirou fundo e decidiu que o passado ficaria exatamente onde estava: enterrado sob camadas de rotina, casamento e silêncios escolhidos.

Pela manhã, a cozinha cheirava a café fresco. Renato sentou à mesa, jornal aberto ao lado do prato. Isabela serviu duas xícaras, o anel de casamento refletindo a luz que entrava pela janela grande da sala.

— Camila vai ficar alguns dias — disse ela, voz neutra. — Problemas de saúde nos pais. Eu respondi que sim.

Renato ergueu o olhar, calmo. Não perguntou quem era Camila, nem por que a amiga de tanto tempo reaparecia agora. Apenas fechou o jornal com cuidado.

— Claro. A casa é grande. Se precisar de ajuda com alguma coisa, me avise.

Ele sorriu de leve, aquele sorriso cavalheiro que Isabela conhecia bem. Levantou-se, beijou a testa dela e foi buscar a maleta para o trabalho. A porta da frente se fechou com um clique suave. Isabela ficou sozinha na cozinha, o aroma do café pairando no ar. Pensou na família de Camila, nos pais que precisavam de atenção, e sentiu uma pontada pequena de culpa por ter aceitado sem hesitar. Ao mesmo tempo, uma inquietação leve se instalou no peito — a mesma pressão que sentira ao enviar a mensagem.

Ela caminhou até a sala, arrumou as almofadas do sofá de linho cinza. Cada gesto era automático, mas a mente voltava àquela cama antiga. Os lençóis, o calor da pele, o corte que ela mesma dera. Agora a mesma mulher voltava sob o pretexto de família. Isabela balançou a cabeça, como se pudesse afastar o pensamento com um movimento físico.

No resto do dia, a rotina a protegeu. Comprou pão fresco, trocou as toalhas do banheiro de hóspedes, verificou se o quarto estava arrumado. Cada tarefa pequena ocupava as mãos e impedia que a memória ganhasse força. Ainda assim, quando o sol começou a baixar e as janelas da casa térrea refletiam o céu alaranjado do Residencial das Acácias, o celular voltou à sua mente. Isabela pegou o aparelho na bancada da cozinha. A tela mostrava apenas a hora. Ela o guardou no bolso da calça, respirou fundo e repetiu para si mesma que nada do antigo seria dito. Nem para Camila, nem para Renato, nem para ela própria. A decisão soou firme dentro da cabeça, mas o corpo reagiu com uma leve tensão nos ombros, como se algo já tivesse começado a se mexer sob a superfície da casa tranquila.

Renato voltou mais cedo que o normal. Trouxe flores brancas, um detalhe pequeno que ele às vezes fazia quando a rotina parecia pesada demais. Isabela colocou as flores em um vaso, sorriu e agradeceu. Durante o jantar, conversaram sobre o trabalho dele, sobre a reforma do jardim, sobre nada que importasse de verdade. Em nenhum momento o nome de Camila voltou à conversa. Isabela notou como Renato aceitava a presença da hóspede sem perguntas, sem curiosidade excessiva. Era o jeito dele: gentil, discreto, confiando que ela controlava os próprios assuntos.

Quando a noite caiu de vez, Isabela subiu para o quarto antes dele. Sentou na beira da cama, o celular na mão. A tela estava apagada. Ela o guardou na gaveta da mesinha de cabeceira, empurrou a gaveta até o fim e ficou olhando para as próprias mãos por alguns segundos. O ventilador começou a girar de novo. Lá fora, o jardim escuro guardava o mesmo silêncio de sempre. Isabela deitou-se, puxou o lençol até o queixo e repetiu a decisão uma última vez: nada do antigo seria dito. O peito ainda apertava, mas ela fechou os olhos e esperou o sono chegar. A casa permaneceu quieta, como se nada tivesse mudado. Por dentro, porém, algo leve e incômodo já se movia, prestes a ocupar espaço que antes parecia seguro.