Entre Três Segredos · Capítulo 1

A Luz que Apagou o Silêncio

A casa de Isabela e Renato dormia em silêncio quase perfeito. A sala de linho cinza ainda guardava o cheiro do jantar preparado por ela mais cedo, um aroma de alho e tomilho que se misturava ao ar-condicionado baixo. Isabela trancou a porta da frente, verificou a luz do corredor e subiu para o mezanino sem pressa. Renato já esperava na suíte, a camisa social aberta no colarinho.

O sexo foi como sempre nos últimos meses. Movimentos conhecidos, respirações ritmadas, mas sem aquele aperto no peito que ela fingia não sentir falta. Isabela sentiu o peso dele sobre seu corpo, as mãos que sabiam exatamente onde tocar, o tecido do lençol deslizando contra sua pele. O corpo respondia por hábito, não por urgência. Ela fechou os olhos e concentrou-se na respiração ritmada do marido, no som distante do ventilador de teto que girava devagar. Quando terminou, o silêncio voltou a ocupar o quarto antes mesmo de qualquer palavra.

Renato rolou para o lado, o braço estendido sobre o travesseiro vazio entre eles. O ventilador de teto girava devagar, espalhando o cheiro de sabonete neutro que Isabela usava sempre. A luz do abajur lançava sombras suaves nas paredes brancas. Isabela sentiu o calor residual no próprio ventre, um calor que não era do desejo renovado, mas do gesto repetido tantas vezes que já perdera o nome.

— Você está cansada? — perguntou ele, a voz rouca do cansaço do dia.

Isabela sorriu. Um sorriso automático, daqueles que ela guardava para situações em que não precisava pensar. Ela ajustou o lençol sobre o peito e virou o rosto para ele, notando o modo como a luz batia no queixo dele, na pequena cicatriz que ele tinha perto da orelha desde criança.

— Só um pouco. O dia foi longo.

Ele aceitou a resposta sem insistir. Sempre aceitava. Isabela sentiu a palma da mão dele roçar de leve na sua coxa, um gesto de carinho que não evoluiu para nada mais. A luz do abajur iluminava o teto branco e as cortinas leves que balançavam com o ar da noite. Fora, o condomínio das Acácias permanecia silencioso, sem vizinhos visíveis, apenas o rangido distante de alguma porta no jardim.

O celular dela vibrou sobre a mesinha de cabeceira. O som cortou o ar como um alfinete. Isabela estendeu a mão, o dedão deslizando na tela antes de ler o nome que aparecia.

Camila Ferreira.

A mensagem era curta, direta, como sempre fora o jeito dela.

“Oi. Meus pais estão com problemas de saúde e preciso ficar uns dias na cidade. Posso dormir na sua casa? Só até resolver tudo. Não quero te dar trabalho.”

Isabela leu duas vezes. A luz do celular refletia no anel de casamento que ela ainda usava. A família de Camila sempre fora um assunto distante, algo que ela ouvira mencionar nos tempos de universidade e depois nunca mais. Agora voltava de repente, embalado em poucas palavras que não pediam explicações.

Renato já virara o corpo para o outro lado, o rosto afundado no travesseiro. A respiração dele se tornou regular em minutos. Isabela ficou olhando para a tela, o polegar pairando sobre o teclado. O quarto parecia maior de repente, as paredes brancas absorvendo cada segundo que ela demorava para decidir. Ela pensou na casa organizada, nos lençóis limpos do quarto de hóspedes, no café da manhã que precisaria preparar para três pessoas. Pensou também na última vez que vira Camila, dez anos atrás, e em como tudo mudara desde então. O dedo deslizou sem que a cabeça acompanhasse completamente.

“Pode vir. Fica o tempo que precisar.”

Enviou. O ícone de visualizado apareceu quase em seguida. Isabela sentiu o peito apertar, uma pressão leve mas constante logo abaixo do esterno. Ela apagou a tela, colocou o celular virado para baixo e deitou o rosto no travesseiro. O ventilador continuava seu giro silencioso acima da cama. Fora, o jardim escuro da casa térrea guardava a noite como quem guarda um segredo que ainda não tinha nome.