Entre Três Segredos · Capítulo 3

Caminho Já Conhecido

A manhã chegou com o barulho baixo do liquidificador na cozinha. Isabela mexeu a colher no café, ajustando o açúcar por hábito. O celular permanecia guardado na gaveta, como se pudesse apagar o que já fora decidido.

A luz do sol entrava pelas janelas grandes da sala, refletindo no piso de madeira clara. Ela ouvia o som distante do ventilador no mezanino e o tilintar fraco de algo no quintal. O cheiro do café fresco misturava-se ao perfume residual do jantar da noite anterior. Nada parecia diferente, mas Isabela sentiu o próprio corpo mais alerta, como se esperasse algo que não conseguia nomear.

A campainha tocou uma vez. Isabela secou as mãos no pano de prato e caminhou até a porta da frente. Ao abrir, viu Camila parada no degrau, mala pequena na mão direita, o cabelo castanho ondulado preso de qualquer jeito. A pele morena-clara brilhava levemente sob o sol da manhã. Os olhos verdes dela encontraram os de Isabela por um segundo a mais do que o costumeiro entre amigas.

— Os pais tiveram alta ontem — disse Camila. — Preciso só de uns dias para resolver os papéis do hospital. Se for incômodo, eu arrumo hotel.

Isabela sentiu o peito apertar de leve, mas sorriu. O encontro de volta, depois de tanto tempo, trazia uma sensação estranha de familiaridade que ela não queria nomear. O corpo de Camila parecia ocupar o degrau de um jeito natural, como se a casa já a reconhecesse. O vento leve moveu uma mecha de cabelo castanho no pescoço dela.

— Entra. O quarto está pronto.

Camila entrou sem esperar convite maior. A mala fazia pouco barulho no piso de madeira. Isabela fechou a porta e seguiu à frente, guiando pelo corredor até o quarto de hóspedes. Abriu a porta e indicou a cama arrumada com lençóis brancos. O quarto cheirava a tecido limpo e ao sabonete que ela havia colocado no banheiro mais cedo.

— Toalhas novas no armário. Banheiro é o segundo à esquerda.

Camila assentiu e entrou. Deixou a mala ao lado da cama e, sem hesitar, caminhou direto até o banheiro. Pendurou a toalha no gancho de trás da porta como se já soubesse exatamente onde ficava. Isabela observou da entrada do quarto, sentindo um leve incômodo subir pela nuca. O gesto parecia simples, mas carregava uma intimidade que ela não esperava ver tão rápido.

— Renato vai chegar mais cedo hoje — disse Isabela, só para preencher o silêncio. — Vamos jantar cedo.

— Perfeito — respondeu Camila, voltando para o quarto. — Não quero atrapalhar.

Durante o dia, a casa seguiu sua rotina. Isabela trabalhou no escritório, ouvindo passos leves pelo corredor. O cheiro de shampoo alheio já misturava com o perfume habitual da casa. Ela não comentou nada com Renato quando ele chegou. O teclado sob seus dedos soava mais alto do que o normal, e ela precisava reler os mesmos parágrafos duas vezes.

No jantar, os três sentaram à mesa da sala de jantar. Renato serviu o arroz, Isabela passou o prato do frango. Camila, sem pedir, levantou-se e abriu a geladeira. Tirou uma jarra de suco, serviu-se e voltou à mesa como se fizesse aquilo todos os dias. O som da porta da geladeira abrindo ecoou na sala. A luz interna iluminou brevemente o rosto de Camila.

Renato ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Isabela cortou o próprio pedaço de frango com mais atenção que o normal. O som dos talheres contra o prato parecia mais alto que o usual. Ninguém mencionou os pais de Camila além do que já fora dito na porta. O suco corria devagar no copo de Camila quando ela o girava entre os dedos.

Depois do jantar, Renato foi ao escritório responder e-mails. Isabela ficou na cozinha lavando as últimas xícaras. Camila secou os pratos sem que pedissem. Os dedos dela roçaram os de Isabela ao entregar uma taça. O contato durou um segundo a mais que o necessário. A água quente escorria pelas mãos de Isabela, misturando-se ao calor da pele de Camila.

— Obrigada por me receber — disse Camila, voz baixa. — Realmente é só por causa dos pais.

Isabela assentiu. O encontro parecia simples, quase normal, mas algo no jeito de Camila ocupar o espaço deixava o ar mais denso. O silêncio entre elas não era vazio; era preenchido pelo som distante da televisão que Renato deixara ligada no escritório.

Mais tarde, no corredor que levava à suíte, Isabela percebeu o cheiro de Camila no ar — um traço leve de loção e shampoo que não era o seu. Parou por um instante, respirou fundo e fechou a porta do quarto do casal mais rápido que o normal. O clique da fechadura soou mais alto no silêncio da casa. A luz do corredor projetava sombras longas na parede.

Renato já estava deitado, de costas. Isabela deitou-se devagar, puxando o lençol até o peito. O cheiro ainda pairava na memória. Ela fechou os olhos, repetindo para si mesma que eram apenas alguns dias. A casa, porém, já parecia um pouco menor, como se o espaço que antes pertencia só a dois agora tivesse um peso extra que ninguém nomeava. O lençol roçava sua pele de um jeito que ela nunca havia notado antes.

Do outro lado da parede, o quarto de hóspedes permanecia quieto. Isabela ouviu o ventilador ligar. Pela primeira vez, sentiu que o silêncio não era mais apenas deles. O som do motor baixo atravessava a parede fina, misturando-se ao próprio batimento cardíaco que ela tentava acalmar.