Entre o Véu e a Carne · Capítulo 2

Entre Véus e Teclados

A fumaça do incenso de sândalo dançava em espirais preguiçosas, traçando arabescos no ar denso da sala de sessões. Luna observava, os olhos cinzentos fixos no movimento etéreo, como se pudesse decifrar segredos nas volutas perfumadas. Seu longo cabelo preto, que parecia absorver qualquer resquício de luz ambiente, caía como uma cascata sombria sobre seus ombros, contrastando com a palidez quase translúcida de sua pele. Na clavícula, a cicatriz prateada, fina como um fio de luar, pulsava levemente, um aviso silencioso da presença que se adensava no recinto.

A voz da cliente, uma senhora de luto apertado e olhos marejados, quebrou o silêncio ritualístico. "Ele está aqui, Luna? Meu Arthur… ele está em paz?" A fragilidade na voz da mulher era palpável, e Luna sentiu o familiar aperto no peito – a dor empática que sempre a acompanhava, um fardo invisível de sua existência. Por fora, seu rosto permaneceu impassível, a máscara profissional que ela havia aperfeiçoado ao longo dos anos. "Sim, senhora. Ele está. Sinto a presença dele, serena." A mentira, tão bem ensaiada, escorregou suavemente de seus lábios, como óleo em água. Arthur, na verdade, resmungava no canto, irritado com o incenso e o choro da esposa, mais preocupado em saber onde havia deixado as chaves do carro. Mas Luna não diria isso. Seu trabalho não era transmitir a verdade nua e crua, mas oferecer o consolo que só a ilusão podia dar.

Após a sessão, com a senhora se retirando com um sorriso agridoce, Luna permitiu-se um suspiro exausto. A energia drenada de cada encontro era um tributo pago à sua sensibilidade. Ela arrastou os pés até a cozinha, o ranger do assoalho antigo ecoando no apartamento. O prédio dos anos 40 era um labirinto de corredores estreitos e murmúrios do passado, um cenário perfeito para sua vida dupla. Na cozinha, ela preparou um chá de erva-cidreira, esperando que o aroma morno acalmasse a cacofonia de vozes que, mesmo após as sessões, ainda sussurravam nos cantos de sua mente.

Enquanto a água fervia, seus olhos cinzentos se detiveram em um ponto específico da sala de estar – um borrão sutil na periferia de sua visão, uma distorção no ar que parecia vibrar. Não era a primeira vez que o via. Era como se a realidade se dobrasse naquele ponto, um defeito na matriz. Ela piscou, e o borrão se intensificou, quase ganhando uma forma fantasmagórica. Uma sensação de curiosidade, algo que ela raramente permitia a si mesma, começou a rastejar em seu peito. A cicatriz na clavícula queimou com uma intensidade que anunciava algo mais potente do que os espíritos errantes que ela encontrava diariamente.

Mais tarde, já na penumbra de seu quarto, Luna se entregou ao único refúgio que a fazia sentir-se quase normal: o mundo digital. Seus dedos voaram pelo teclado, a luz do monitor iluminando seu rosto com um brilho azulado que parecia dançar em seus olhos. No jogo, ela era Lyra, uma arqueóloga intrépida que desvendava segredos antigos em ruínas esquecidas. Ali, ela não era a médium. Não era a mulher assombrada por fantasmas e assombrada por sua própria culpa. Era apenas Lyra, uma aventureira que controlava seu próprio destino.

O som do clique do mouse e o murmúrio da trilha sonora do jogo eram um bálsamo. Por um breve momento, ela podia esquecer o peso de seu dom, a solidão que a acompanhava desde o acidente que a havia transformado. Aos 17 anos, quando quase perdeu a vida, ela ganhou algo muito pior: a visão dos mortos. E, junto com ela, uma sensibilidade à luz forte, episódios de desmaios e uma surdez parcial no ouvido esquerdo, um lembrete constante do impacto que mudou sua vida para sempre. Ela se sentia à beira do colapso, uma corda esticada entre o mundo dos vivos e o dos mortos, e o jogo era seu único fio de sanidade.

De repente, a tela piscou. Não era um bug comum do jogo, não era uma falha de renderização. Era algo mais profundo, mais… intrusivo. O borrão que ela havia visto na sala de estar agora parecia se manifestar no próprio jogo, uma falha na textura da realidade digital. Lyra, sua personagem, estava parada em frente a um antigo sarcófago, quando a imagem se distorceu. As cores vibraram, e por um instante, Luna jurou ver formas etéreas se contorcendo na tela, como se a barreira entre o jogo e seu próprio mundo estivesse se desfazendo. O ar na sala esfriou drasticamente, e as lâmpadas do teto piscaram em uníssono, como corações batendo descompassadamente. Aquilo não era um bug. Era um aviso. E, talvez, o início de algo muito mais real e perigoso do que qualquer lenda que Lyra pudesse encontrar em suas aventuras virtuais.