Entre o Véu e a Carne · Capítulo 3

Entre a Tela e o Abismo

A luz branca, ofuscante e invasora, rasgou a escuridão dos olhos de Valentina. Não era a luz fria do monitor que ela esperava, nem o cinza pálido do amanhecer espreitando pelas frestas da cortina. Era uma luz que pulsava, quase viva, e que parecia vibrar dentro de seus próprios ossos. Um ruído agudo e estridente perfurou seus ouvidos, como mil agulhas finas de metal raspando em uma lousa, fazendo-a gemer e levar as mãos à cabeça.

Quando os sons e as cores começaram a se acalmar, desorganizados e embaçados a princípio, Valentina piscou, tentando clarear a visão. Não estava em seu quarto. As paredes brancas e o cheiro familiar de lavanda e livros empoeirados haviam desaparecido. Em seu lugar, havia uma paisagem que parecia ter sido arrancada diretamente de uma pintura renascentista, mas com um toque de irrealidade que a fez questionar se ainda estava sonhando.

O ar era pesado, carregado com o aroma adocicado e denso de flores desconhecidas, misturado com um cheiro metálico e úmido, como chuva em terra recém-revolvida. Acima dela, o céu não era azul, mas um tom de violeta profundo que se fundia com um crepúsculo eterno, pontilhado por estrelas que brilhavam com uma intensidade que ela jamais vira. O chão sob seus pés era macio, uma grama alta e escura que se movia suavemente com uma brisa fantasmagórica, sussurrando segredos em uma língua que ela não compreendia.

Um arrepio percorreu sua espinha. Ela tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas, como gelatina. Caiu de joelhos novamente, sentindo a umidade da terra encharcando as calças do seu pijama. Pijama. A palavra soou estranha em sua mente. Ela ainda estava de pijama. Um pijama de flanela xadrez, que parecia totalmente deslocado naquela paisagem etérea.

“Onde… onde eu estou?”, sua voz saiu rouca, quase um sussurro. Tentou gritar, mas o som se perdeu no ambiente, absorvido pelo silêncio profundo que se seguiu ao ruído inicial. Um silêncio que pesava, que parecia ter presenciado eras e guardado segredos inomináveis.

Seus olhos, acostumados à penumbra, começaram a discernir formas na distância. Árvores colossais, retorcidas e escuras, com galhos que se estendiam como braços esqueléticos em direção ao céu violeta. E, ao longe, uma estrutura. Uma torre alta e esguia, que parecia esculpida em obsidiana polida, perfurando as nuvens baixas. Ela conhecia aquela torre. A Torre Negra de Kaelen. O ponto de partida de *Eldoria: O Legado dos Antigos*.

Um pânico gélido a atingiu. Não podia ser. Não era possível. Ela apertou as pálpebras com força, tentando dissipar a imagem, mas quando as abriu novamente, a torre ainda estava lá, imponente e ameaçadora. A sensação de irrealidade era sufocante. Seus batimentos cardíacos aceleraram, tamborilando em seus ouvidos como um rufar de tambores de guerra. Podia sentir o cheiro das flores, a umidade da grama. A dor no seu joelho esquerdo, onde havia caído, era real. Tudo era real.

“Isso é… um sonho?”, ela murmurou, mais para si mesma do que para o vazio. Mas o sonho não explicava a sensação vívida, o terror frio que a percorria. Lembrou-se do momento antes, da tela travada em *Eldoria*, da frustração, da torrente de luz branca. Tinha sido sugada. De alguma forma, de um jeito impossível e insano, ela havia sido transportada para dentro do jogo.

Sua mente, treinada em lógica e padrões de programação, tentava processar o absurdo. Era um bug? Um hack? Uma alucinação elaborada? Nenhuma das opções fazia sentido ou trazia qualquer consolo. Seus olhos vasculharam o ambiente, buscando qualquer sinal de familiaridade, de algo que a ancorasse à sua antiga realidade. Não havia nada, apenas a vastidão alienígena daquele mundo virtual, agora estranhamente tangível.

Um farfalhar na grama alta à sua direita a fez pular, seu coração dando um salto triplo no peito. Ela girou, os olhos arregalados, procurando a origem do som. Não havia nada. Apenas o vento, talvez. Ou algo mais. O medo começou a se transformar em uma adrenalina gelada. Ela precisava sair dali. Precisava entender. Precisava encontrar um caminho de volta. Mas como?

Ela se forçou a ficar de pé, as pernas bambas, os músculos protestando. A cada passo, a grama roçava em suas pernas, uma sensação estranha e viva. Olhou para as próprias mãos, que tremiam. Não eram as mãos de avatar que ela controlava na tela, mas suas próprias mãos, com as unhas curtas e a pequena cicatriz no dedo indicador que ela havia adquirido ao cortar legumes no dia anterior. Era ela. Completamente ela, em um lugar que não deveria existir.

Um frio ainda mais intenso a atingiu, não do ambiente, mas de dentro. Uma premonição sombria. Ela não estava apenas em *Eldoria*. Ela estava *presa* em *Eldoria*. E se ela não conseguisse sair, o que aconteceria? Seus olhos cinzentos, geralmente tão cheios de uma inquietude contida, agora brilhavam com um terror cru e incontrolável. Ela era uma programadora, uma criadora de mundos virtuais, não uma heroína de fantasia. E o mundo ao seu redor, ela sabia, era perigoso. Muito perigoso.