Entre o Véu e a Carne · Capítulo 1

Entre Véus e Pixels

O apartamento de Luna era um santuário de contrastes, um reflexo bizarro da mulher que o habitava. Na sala de estar, a luz fria e impessoal da tela do computador iluminava seu rosto, enquanto os longos cabelos pretos, que absorviam a luz como um buraco negro, caíam sobre os ombros. Seus olhos cinzentos, sempre com aquele brilho inquieto, fixavam-se em uma sucessão frenética de pixels, onde monstros virtuais se desintegravam sob o comando ágil de seus dedos.

Era meia-noite em ponto e a cidade lá fora zumbia com a vida que Luna tão habilmente evitava. O prédio, um colosso dos anos 40, gemia e rangia sob o peso de décadas, seus corredores estreitos ecoando histórias que só ela parecia ouvir. Mas ali, na frente do monitor, Luna era apenas uma gamer. Uma avatar de armadura reluzente, espadas afiadas e magias explosivas, movendo-se com uma destreza que poucos poderiam igualar. O som dos cliques do mouse e das teclas preenchia o vazio, abafando o sussurro constante que acompanhava sua vida desde os dezessete anos.

“Mais um nível”, murmurou Luna para si mesma, um sorriso tênue, quase imperceptível, curvando seus lábios. Era um sorriso que ela usava como escudo, uma arma contra o mundo e contra a solidão que a consumia. A cicatriz fina e prateada em sua clavícula, um lembrete do acidente que a trouxe para este mundo de véus e sussurros, queimou levemente. Um calafrio percorreu sua espinha. Não era o frio da madrugada, mas o arrepio familiar que anunciava a proximidade de algo… ou alguém.

Ela ignorou. Em sua tela, o último chefão explodia em uma nuvem de fumaça e itens virtuais. A sensação de vitória era um bálsamo, um momento de normalidade que ela agarrava com unhas e dentes. A adrenalina pulsava, e por um instante, ela quase esqueceu o peso do mundo invisível que a cercava. Quase.

起身, Luna esticou os braços, sentindo os músculos protestarem. A sala de estar, com sua decoração minimalista e moderna, era o palco onde ela fingia ser uma “pessoa normal”. Sem incensos, sem velas, sem os símbolos de proteção que cobriam as paredes da sala de sessões. Apenas um sofá cinza, uma estante de livros cuidadosamente organizados e uma mesa de centro de vidro. Era seu refúgio da realidade, e ao mesmo tempo, uma armadilha. A dualidade a definia, a estilhaçava. Por fora, profissional e controlada. Por dentro, um caos de humor ácido, culpa e uma solidão abissal.

Ela caminhou até a janela, espiando a cidade adormecida. As luzes distantes piscavam como estrelas caídas. O zumbido constante do tráfego parecia um canto fúnebre. Seus ouvidos, especialmente o esquerdo, que tinha uma leve perda auditiva desde o acidente, captavam sons que ninguém mais ouvia. Sussurros fantasmagóricos, lamentos distantes, o farfalhar de vestes invisíveis. Ela os filtrava, os ignorava, uma habilidade desenvolvida com anos de prática. Era a única forma de manter a sanidade.

Um estalo seco a fez sobressaltar. Pelo canto do olho, Luna viu uma distorção. Um borrão escuro, quase imperceptível, no canto mais escuro de sua sala. Ela congelou, o corpo tenso, os olhos cinzentos agora fixos no ponto. Não era a primeira vez que via algo assim. Pequenas anomalias, flutuações na luz, sombras que se alongavam demais. Mas isso era diferente. Parecia… denso. Como uma mancha de tinta na tela de sua visão.

Seus lábios se apertaram. Não. Ela não daria poder a isso. Não importava o que fosse. Ela havia aprendido a estabelecer limites, a erguer barreiras. A vida de médium era um equilíbrio precário, e qualquer deslize poderia ser fatal. Respirando fundo, Luna se obrigou a desviar o olhar. A visão se desfez, ou talvez ela apenas a tivesse forçado a desaparecer. A mente era uma ferramenta poderosa, e ela a usava para se proteger.

Com um gemido cansado, ela se dirigiu à cozinha para buscar um copo d'água. Enquanto a torneira jorrava, o reflexo dela no granito polido da bancada chamou sua atenção. Seus olhos pareciam mais claros que o normal, quase translúcidos. Um arrepio mais profundo a atingiu. Era um sinal. Um aviso. A fronteira entre os vivos e os mortos estava se tornando mais tênue. E, de repente, o zumbido familiar do computador da sala de estar se transformou em um ruído estridente e intermitente. As luzes do apartamento piscaram, e o copo de vidro escorregou de suas mãos, quebrando-se em mil pedaços no chão. Luna não se importou com o caco. Seu olhar estava fixo no lugar onde o borrão havia aparecido. Agora, ele era mais distinto. Uma forma. Alta. E um par de olhos intensos, quase elétricos, pareciam observá-la do meio das sombras.

O que antes era uma distorção, agora era uma presença. E Luna sabia, com uma certeza fria que a gelou até os ossos, que sua vida estava prestes a mudar de uma forma que nem mesmo seus olhos cinzentos poderiam ter previsto.