Entre Beijos e Segredos · Capítulo 2

Um café com o homem dos mistérios

O aroma de café moído pela manhã era o despertador oficial de Miguel. Não que ele precisasse. Seu relógio biológico, calibrado para a primeira fornada de pães de queijo e os primeiros raios de sol na Chá & Alma, já o acordava antes mesmo do galo cantar. Às 6h30, ele já estava a postos, com o avental preto impecável e as mãos ágeis preparando as primeiras bebidas do dia.

Naquele dia, porém, havia uma expectativa diferente, um leve tremor nas pontas dos dedos que nada tinha a ver com a cafeína. Murilo não aparecia havia alguns dias, e Miguel se pegava imaginando se o homem de sorriso perigoso e olhos enigmáticos voltaria. Ele não sabia o nome completo de Murilo, nem o que ele fazia da vida, mas já sonhava com o seu cheiro amadeirado, que sempre parecia preencher o ambiente quando ele estava por perto.

Às 8h15, como se seus pensamentos tivessem o invocado, a porta da cafeteria se abriu e Murilo emergiu da névoa da manhã. Miguel sentiu um calor subir pelo pescoço. Murilo estava impecável, como sempre, com uma camisa social de linho azul-claro que realçava seus ombros largos e braços definidos. O cabelo preto, com aquelas mechas sutis que pareciam brilhar sob a iluminação quente da Chá & Alma, estava um pouco despenteado, como se ele tivesse acabado de sair da cama – uma imagem que fez Miguel engolir em seco. Em seu pulso, um relógio discreto, mas caro, capturava a luz.

“Bom dia, Miguel”, Murilo disse, com aquela voz grave que era puro veludo. Não era uma pergunta, era uma afirmação, um reconhecimento da presença de Miguel, e o barista sentiu um sorriso involuntário brotar em seus lábios. "O de sempre, por favor."

“Claro, Murilo”, Miguel respondeu, sentindo as mãos formigarem enquanto preparava o café. Era um simples *espresso macchiato*, mas para Murilo, Miguel colocava um cuidado extra, um desenho de coração perfeito na espuma, um toque de canela que só ele adicionava. Ele observou Murilo sentar-se na poltrona de canto, ao lado da janela, abrindo um livro de capa escura e folheando-o rapidamente. Ele não parecia um leitor assíduo, e Miguel se perguntou o que aquele livro escondia.

Enquanto servia o café, Miguel notou o cheiro amadeirado de Murilo novamente, mais forte desta vez. Era uma mistura de sândalo e algo mais terroso, quase selvagem. “Três dias sem aparecer. Fiquei preocupado que tivesse trocado a gente por outra cafeteria”, Miguel brincou, com um tom de voz que esperava ser despreocupado, mas que traía um interesse genuíno.

Murilo ergueu os olhos do livro, um sorriso lento e encantador surgindo em seus lábios, o mesmo sorriso que parecia perigoso e convidativo ao mesmo tempo. “Negócios. Mas nunca trocaria o seu café, Miguel. É o melhor da cidade.” Seus olhos, de um tom profundo e indecifrável, fitaram os de Miguel por um momento que pareceu eterno, e o barista sentiu-se completamente exposto.

“Fico feliz em ouvir isso”, Miguel murmurou, virando-se para atender outro cliente, o coração batendo um pouco mais rápido. Ele não conseguia entender por que Murilo o afetava tanto. Ele tinha 27 anos, era dedicado, reservado, mas nunca havia sentido essa intensidade, essa curiosidade quase dolorosa por alguém.

Durante a manhã, Miguel lançava olhares discretos para Murilo. Notou que ele não lia o livro por muito tempo. Em vez disso, estava sempre conferindo o celular, digitando mensagens rápidas com uma expressão séria, quase tensa. Em um momento, o telefone tocou, e Murilo se levantou abruptamente, saindo da cafeteria para atender. Ele falou em voz baixa, a voz tensa, e Miguel só conseguiu captar fragmentos de palavras como “prazo” e “consequências”. Quando Murilo voltou, seus olhos estavam um pouco mais distantes, um sombrio que Miguel não havia notado antes.

“Tudo bem?”, Miguel perguntou, aproveitando um momento de calmaria para se aproximar da mesa de Murilo, fingindo limpar a superfície adjacente. Ele não dava esse tipo de atenção a nenhum outro cliente.

Murilo suspirou, fechando o livro. “Sim. Só… coisas do trabalho. É complicado.” Ele evitou o olhar de Miguel por um instante, e o barista percebeu o leve enrijecimento em seus ombros. A gentileza de Murilo era inegável, mas a armadura que ele usava era quase palpável.

“Entendo”, Miguel respondeu, não entendendo nada. Ele queria perguntar mais, queria desvendar o mistério por trás daquele homem, mas o receio de ultrapassar os limites o impedia. Ele já se sentia um pouco ousado por sequer ter perguntado.

Mais tarde, quando Murilo se preparava para ir embora, ele parou no balcão. “Miguel, o que você faz depois da Chá & Alma?” A pergunta pegou Miguel de surpresa. Seus olhos mel azulado se arregalaram levemente por trás dos óculos de armação fina.

“Depois? Geralmente, vou para casa, leio um pouco… Por quê?”

Murilo sorriu, daquele jeito que desarmava Miguel completamente. “Gostaria de te convidar para jantar. Há um restaurante novo que abriu no centro. Você viria?”

O coração de Miguel deu um salto. Jantar. Com Murilo. A timidez natural o dominou, mas a curiosidade e a atração eram mais fortes. “Eu… eu adoraria”, ele respondeu, sentindo as bochechas esquentarem. “Que horas?”

“Às oito. Te pego aqui, se estiver tudo bem”, Murilo disse, e antes que Miguel pudesse responder, ele acrescentou, quase em um sussurro, mas com a voz carregada de uma intensidade que fez Miguel sentir um arrepio. “Não se atrase, Miguel. Tenho a sensação de que essa noite será… interessante.” Ele se virou, deixando Miguel sozinho com a pulsação acelerada e uma mistura de excitação e apreensão. O que Murilo queria dizer com “interessante”? E o que o homem dos mistérios escondia por trás daquele sorriso sedutor, mas enigmático?