Entre Beijos e Segredos · Capítulo 3

Entre o Aroma e a Incerteza

O tilintar suave do sino acima da porta da Chá & Alma anunciou a chegada de Murilo. Miguel, que estava polindo a máquina de espresso com um esmero quase ritualístico, sentiu um arrepio percorrer sua espinha, misturando-se ao calor familiar do vapor. Era um arrepio diferente dos que sentia em noites frias de inverno; este era morno, quase elétrico.

Murilo entrou com sua elegância habitual, o casaco de couro escuro jogado sobre um braço, revelando uma camisa social azul marinho que acentuava o tom de sua pele. Seus cabelos pretos, com aquelas discretas mechas que só apareciam quando a luz os beijava, estavam um pouco despenteados – um detalhe que Miguel notou com uma estranha precisão. O cheiro amadeirado, que agora Miguel reconhecia perfeitamente, o preencheu, fazendo o aroma de café e bolo de canela parecerem ainda mais intensos.

“Bom dia, Miguel”, Murilo disse, seu sorriso perigoso e encantador desarmando a rigidez que Miguel nem sabia que havia adotado. Seus olhos vasculharam o ambiente, parando por um instante nas cadeiras vazias perto da janela, antes de se fixarem em Miguel. “O de sempre?”

Miguel assentiu, esquecendo-se por um momento de que deveria responder verbalmente. “Claro, Murilo. Cappuccino grande, extra shot.” Ele se virou para a máquina, suas mãos ágeis e acostumadas ao movimento, mas sentindo-as um pouco mais desajeitadas sob o olhar de Murilo. Era um olhar que parecia enxergar através dos seus óculos de armação fina, direto para o nervosismo que ele tentava esconder.

Enquanto preparava a bebida, Miguel se permitiu um rápido relance. Murilo estava sentado em uma das poltronas confortáveis, os longos dedos tamborilando levemente na mesa de madeira. Havia uma tensão sutil em seus ombros largos, uma inquietação que Miguel não conseguia decifrar. Ele parecia um homem que estava esperando por algo, ou talvez, fugindo de algo.

“Aconteceu algo, Murilo?”, Miguel perguntou, sua voz mais baixa do que o habitual enquanto colocava o cappuccino na mesa à frente dele. O coração de Miguel deu um salto quando Murilo levantou os olhos, um lampejo de surpresa neles antes que fossem substituídos pela máscara de controle que ele usava tão bem.

“Por que a pergunta, Miguel?” A voz de Murilo era suave, mas com um tom que não admitia evasivas. Ele pegou a xícara, o vapor dançando em seu rosto, e Miguel percebeu que as pequenas rugas de preocupação ao redor dos olhos de Murilo eram mais evidentes hoje.

“Você parece… pensativo”, Miguel respondeu, recuando um passo, arrependido de sua ousadia. Ele não deveria ter perguntado. Murilo era um cliente, nada mais. Mas algo na forma como Murilo o olhava, na forma como se sentia atraído por aquele mistério, o impelia a ir além dos limites impostos pela rotina.

Murilo deu um gole no café, e um suspiro quase imperceptível escapou de seus lábios. “É só o trabalho. Coisas de gente grande, sabe?” Ele sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. “E você, Miguel? Alguma novidade na Chá & Alma? O bolo de canela está cheirando excepcionalmente bem hoje.”

Miguel sentiu um calor no peito. Murilo sempre notava os pequenos detalhes, e isso o fazia sentir-se visto, especial. “É a receita nova. Cliente fiel que nos deu. Achou que combinaria com o nosso café.” Ele apontou para o balcão. “Quer um pedaço?”

“Adoraria”, Murilo disse, seu olhar brilhando com algo que parecia genuíno pela primeira vez naquele dia. Enquanto Miguel cortava um pedaço do bolo, ele ouviu o telefone de Murilo vibrar. O som era discreto, mas Murilo o pegou com uma rapidez que beirava a urgência. Seus olhos escuros se fixaram na tela, e Miguel viu a expressão de Murilo mudar. Uma sombra, quase um desespero, passou por seu rosto.

“Preciso atender isso”, Murilo disse, levantando-se abruptamente. Ele se afastou da mesa, indo para um canto mais isolado da cafeteria, perto das plantas exuberantes que decoravam o local. Miguel o observou, o bolo de canela intocado no prato. Murilo falava em voz baixa, quase um sussurro, e a cada palavra, seu corpo parecia encolher, a confiança que ele exalava normalmente se desfazendo.

Miguel não conseguiu evitar ouvir algumas palavras fragmentadas: “...problema... não agora... preciso de tempo...” e, depois de uma pausa tensa, “...ela não pode saber.”

Um arrepio de dúvida percorreu Miguel. Ela? Quem era "ela"? A conversa de Murilo era carregada de uma tensão que o deixava inquieto. Ele parecia estar em perigo, ou talvez, ser o perigo. Miguel se perguntou se o mistério que o atraía tanto em Murilo não era, na verdade, um aviso. Ele sentiu o medo se misturando à atração, um coquetel agridoce que o deixava com o coração acelerado e a mente em turbilhão.

Murilo desligou a ligação, o rosto pálido e os ombros tensos. Ele se virou, e seus olhos encontraram os de Miguel. Por um instante, houve uma fragilidade tão crua no olhar de Murilo que Miguel sentiu um desejo avassalador de protegê-lo, de perguntar o que estava acontecendo. Mas Murilo rapidamente recompôs sua expressão, e o muro de mistério se ergueu novamente.

Murilo voltou para a mesa, pegou o casaco e a mochila, e deixou algumas notas na mesa, mais do que o suficiente para o café e o bolo que ele nem havia tocado.

“Preciso ir”, Murilo disse, sua voz um pouco rouca. “Obrigado, Miguel. O café estava ótimo.” Ele não pegou o bolo. Ele não pegou nem mesmo a xícara que estava cheia. Ele apenas saiu, deixando para trás um rastro de seu perfume amadeirado e uma densa nuvem de perguntas que pairavam no ar da Chá & Alma.

Miguel ficou ali, olhando para a porta por onde Murilo havia partido, o prato de bolo de canela intocado. A fragilidade que vira nos olhos de Murilo o assombrava. Quem era “ela”? Que segredos ele escondia? E, mais importante, ele deveria se aproximar ou, pela primeira vez, dar ouvidos à voz em sua cabeça que gritava para ele fugir?