Entre Beijos e Segredos · Capítulo 1
Entre o cheiro de café e um olhar mel azulado
O aroma de café moído na hora era o tapete vermelho que anunciava a chegada de Miguel à cafeteria Chá & Alma todos os dias, antes mesmo de o sol tingir de dourado as paredes de tijolinhos. Às seis e quinze da manhã, o lugar ainda dormia em penumbra, mas para Miguel, era o seu palco. Ligava as máquinas com a precisão de um cirurgião, o silvo do vapor misturando-se à melodia crescente da cidade que despertava lá fora. Seus 27 anos pareciam se encaixar perfeitamente naquele ritual matinal, as mãos ágeis e finas movendo-se em um balé silencioso entre xícaras e grãos.
Miguel não era do tipo que buscava holofotes. Sua presença era discreta, quase um sussurro, mas sua dedicação falava mais alto que qualquer grito. Lembrava-se do café preferido de cada cliente, do sorriso de Dona Lúcia que pedia sempre um *latte* extra cremoso, ao freelancer que só conseguia escrever depois de um *espresso* duplo. Os óculos de armação fina escorregavam vez ou outra pelo nariz, e ele os empurrava com um dedo, um gesto quase imperceptível que lhe dava um charme intelectual sem que ele mesmo notasse. Vestia sempre camisas de algodão amassadas na medida certa, calças confortáveis e tênis simples, tudo coroado pelo avental preto impecável que o transformava de Miguel, o rapaz reservado, em Miguel, o barista talentoso.
Havia um orgulho silencioso em seu trabalho. Ele gostava da previsibilidade, do conforto de ter tudo sob controle, do pequeno universo que girava em torno do balcão de madeira. Era um contraste bem-vindo à sua vida pessoal, onde a família ainda se ajustava, a trancos e barrancos, à sua sexualidade, e a pressão velada por uma promoção na cafeteria pairava como uma nuvem cinzenta. Ele queria aquela promoção, sonhava em gerenciar o Chá & Alma, mas a ideia de ter mais responsabilidades, de sair da sua zona de conforto, o assustava um pouco.
Naquela terça-feira, o tempo parecia arrastar-se mais do que o usual. O sol já invadia a cafeteria, desenhando padrões de luz nas mesas de madeira arranhadas. O aroma de bolo de canela recém-saído do forno misturava-se ao do café, criando uma nuvem de aconchego. Miguel estava polindo a máquina de *espresso*, os cabelos castanhos escuros, levemente ondulados, caindo sobre a testa, quando a porta se abriu. Um cliente novo. Miguel sabia distinguir os rostos familiares dos novatos, e este definitivamente era um novato.
O homem era alto, um metro e oitenta e sete, com ombros largos que pareciam preencher a entrada da cafeteria. Cabelos pretos, com mechas sutis que brilharam sob a luz da manhã, emolduravam um rosto de traços fortes. Vestia uma camisa social de mangas dobradas, revelando braços marcados, e um relógio discreto, porém caro, brilhava em seu pulso. Um cheiro amadeirado, marcante, chegou antes mesmo que ele se aproximasse do balcão. Miguel sentiu um leve arrepio na nuca. Não era medo, nem desconforto, apenas… uma intensidade diferente.
“Bom dia”, disse o homem, a voz grave e calma. “Um café coado, por favor. E um pão de queijo.”
Miguel assentiu, sentindo um calor se espalhar por seu rosto. “Claro. Para viagem ou aqui?”
“Aqui”, ele respondeu, e o sorriso que se abriu em seus lábios era perigoso e encantador ao mesmo tempo. Havia algo de misterioso naquele sorriso, algo que prometia mais do que entregava. Ele escolheu uma das poltronas confortáveis perto da janela, e Miguel notou como seus olhos percorriam o ambiente, como se estivesse avaliando cada detalhe, cada planta suspensa, cada livro na estante.
Enquanto preparava o café, os olhos mel azulado de Miguel não puderam deixar de voltar ao homem. Ele parecia saído de um anúncio de revista, mas havia uma quietude nele que o intrigava. Murilo. O nome apareceu em sua mente, embora ele não soubesse de onde veio. Talvez fosse a intuição, ou talvez fosse a forma como o homem parecia carregar uma história não contada. Quando Miguel levou o pedido à mesa, Murilo agradeceu com um aceno de cabeça e um sorriso que não alcançava os olhos. Havia uma sombra ali, uma distância que Miguel mal podia decifrar.
“Tudo certo?”, Miguel perguntou, sua voz um pouco mais suave do que o normal. Ele não fazia isso com todos os clientes. Apenas com aqueles que, por algum motivo, capturavam sua atenção. E Murilo, definitivamente, havia capturado a sua.
Murilo ergueu os olhos, encontrando os de Miguel. Por um instante, o mundo pareceu缩小. “Perfeito. Obrigado.” Aquele olhar, ainda que breve, parecia carregar um segredo, uma profundidade que ia muito além de um simples pedido de café. E Miguel, o barista reservado, sentiu uma curiosidade inesperada borbulhar dentro de si. Ele sabia que Murilo voltaria. E quando voltasse, talvez trouxesse consigo não apenas a vontade de um café, mas também um pedaço do mistério que o envolvia.
Enquanto Miguel voltava para o balcão, seu coração deu um salto. Ele não percebera antes, mas o sorriso que ele dera a Murilo, foi diferente de qualquer outro que ele já havia dado a um cliente. Era um sorriso que prometia mais do que entregava, assim como o de Murilo. E a sensação de nervosismo que o invadia não era algo que ele estaria acostumado a sentir com um cliente. Com Murilo, parecia que algo estava para começar, e Miguel não sabia se deveria se aproximar ou fugir. Mas, a verdade é que ele não conseguiu parar de olhar para aquele homem com um olhar mel azulado que guardava um convite silencioso.