Ele Me Quis. Ele Me Tomou. · Capítulo 2
A Máscara de uma Princesa Digital
O apartamento luxuoso no Upper East Side era um cenário de revista, mas para Valentina, era uma gaiola dourada. Enquanto a mãe gastava fortunas em eventos de gala e leilões de arte, a filha se refugiava em seu próprio universo, onde diamantes e seda davam lugar a pixels e estratégias. Seus longos cabelos castanho-escuros, que sob o sol revelavam reflexos dourados quase mágicos, estavam agora presos em um coque desgrenhado, enquanto seus olhos avelã, normalmente cheios de uma rebeldia contida, brilhavam com a luz fria da tela do computador.
Era uma terça-feira, o dia sagrado das raides semanais. A sala, com sua mobília italiana impecável, estava bagunçada com embalagens de batata frita e latas de energético. Valentina, ou como era conhecida no mundo virtual, 'Nyx', estava no auge de mais uma batalha épica. Seus dedos voavam sobre o teclado, curando seus companheiros de guilda com precisão cirúrgica, esquivando-se de ataques inimigos com reflexos impressionantes. A cada vitória, um sorriso discreto surgia em seus lábios, uma pequena quebra na fachada de perfeição que ela mantinha no mundo real.
"Nyx, seu escudo foi impecável!" A voz de um de seus amigos de guilda ecoava nos fones de ouvido. "Nem a Valquíria conseguiria fazer melhor!"
Valentina revirou os olhos, mas o elogio a inflou de um orgulho quase palpável. Naquele mundo, ela não era a 'filha perfeita' que a mãe moldava meticulosamente. Não era a peça de exibição, a garota que precisava se encaixar em um molde social sufocante. Ali, ela era uma estrategista, uma curandeira, uma força a ser reconhecida. Sua altura de 1,67m, que no mundo real a fazia sentir-se delicada demais para suas próprias ambições, era irrelevante. Seu corpo curvilíneo e elegante, que a mãe insistia em cobrir com vestidos que minimizavam suas formas, era apenas um avatar digital com armadura pesada.
"É o que eu faço", respondeu, com uma voz que em nada lembrava o tom suave e controlado que usava na frente de sua mãe. Ali, ela era nítida, assertiva, dona de si. "Agora, foquem no boss. Ele vai soltar o AoE em dez segundos!"
O olhar desafiador que Dante Morelli um dia diria que o instigava, o provocava e o devorava, estava agora fixo na tela. Era um olhar de concentração intensa, de uma mente que processava informações a uma velocidade vertiginosa. A raiva engolida por anos, as críticas incessantes da mãe, o peso das expectativas – tudo isso era canalizado para a performance impecável no jogo. Cada monstro derrotado era uma pequena vingança, uma forma de provar para si mesma que ela era mais do que a boneca de porcelana que sua mãe queria que fosse.
O sol já se punha, pintando o céu de Nova Iorque com tons de laranja e roxo que mal penetravam as janelas do apartamento. Lá fora, a cidade vibrante pulsava com uma energia que Valentina ansiava experimentar de verdade. Não a Nova Iorque dos arranha-céus brilhantes e restaurantes luxuosos que sua mãe frequentava, mas a Nova Iorque dos becos, dos segredos, das vidas reais que fervilhavam sob a superfície polida.
A raide terminou em mais uma vitória esmagadora para a guilda de Nyx. Valentina se recostou na cadeira, um suspiro satisfeito escapando de seus lábios. Ela desligou o microfone e tirou os fones, a cacofonia do jogo dando lugar ao silêncio opressor do apartamento. A euforia da batalha virtual rapidamente se dissipou, substituída pela velha sensação de vazio.
Ela se levantou, andando até a janela e observando as luzes da cidade acenderem. Nova Iorque, a cidade que era um tabuleiro para Dante Morelli, era para ela uma promessa silenciosa, um convite para algo mais. Ela sentia a fome de viver algo real, de quebrar as correntes invisíveis que a prendiam. A impulsividade que ela guardava em segredo estava borbulhando, clamando por uma válvula de escape.
De repente, a tela do computador, que estava em modo de espera, acendeu sozinha. Um brilho estranho, quase um pulso de luz, emanou do monitor. Valentina franziu a testa. Tinha certeza de que havia fechado todas as aplicações. Aproximou-se, curiosa. No centro da tela, em vez do papel de parede padrão, havia uma imagem que ela nunca tinha visto antes. Não era um erro do sistema, parecia… um mapa. Um mapa de Nova Iorque, mas com pontos marcados em vermelho, e uma frase piscando em latim, que Valentina não conseguiu decifrar de imediato. Um arrepio frio percorreu sua espinha. O que diabos era aquilo?
Ela tentou mover o mouse, mas o cursor não respondia. O brilho aumentou, e a imagem no monitor começou a se distorcer, pulsando em um ritmo hipnótico. Valentina sentiu uma vertigem súbita, como se o chão estivesse tremendo sob seus pés. Aquilo não era um simples bug. Era algo mais. Algo que a estava chamando, puxando-a para um abismo de possibilidades. O jogo tinha acabado, mas um novo estava prestes a começar.