Ele Me Quis. Ele Me Tomou. · Capítulo 3
Entre Pixels e Expectativas
O aroma de lavanda impregnava os lençóis de seda, um perfume que Valentina já detestava por associação. Não era o dela, evidentemente. Era o da mãe, Dona Cecília, a essência de controle e perfeição que a sufocava desde o berço. Virou-se na cama, ignorando a luz opaca que filtrava pelas cortinas espessas. O despertador, um som suave de canto de pássaros, parecia uma afronta à sua alma rebelde. Era terça-feira, mais um dia em sua jaula dourada.
Com um gemido, Valentina se arrastou para fora da cama. Seus cabelos castanhos, longos e repletos de reflexos dourados que só apareciam sob a luz do sol, caíam sobre seus ombros. A pele clara e macia contrastava com a rigidez de sua rotina. À frente do espelho, ela estudou seus olhos avelã. Eles guardavam uma faísca, uma promessa de caos que ela, por anos, tentou conter. Um corpo curvilíneo e elegante, envolto em uma camisola de seda, dava a ela um ar delicado que, sob a superfície, era apenas uma casca. Por dentro, o fogo ardia, faminto por liberdade.
Aquelas roupas, aquelas aulas de etiqueta, aqueles almoços insossos com senhoras da sociedade que julgavam cada garfo e cada risada… tudo parecia um roteiro pré-determinado, escrito sem sua permissão. A mãe, a matriarca da família, era uma mestre na arte da manipulação sutil. "Uma dama não se veste assim, Valentina. Uma dama não ri tão alto. Uma dama não…" A lista era interminável. E a cada "uma dama não", Valentina sentia um pedaço de si ser amputado, substituído por uma imagem polida e sem vida.
Após o ritual matinal de se vestir em um conjunto de seda cor de pêssego (escolha da mãe, é claro), ela desceu para a cozinha. O silêncio era a trilha sonora de sua casa, interrompido apenas pelo tilintar da porcelana e os sussurros contidos dos empregados. Valentina apanhou uma maçã e um café forte. Não tinha estômago para os ovos beneditinos e os croissants que a cozinheira havia preparado. Sua fome era por outra coisa, algo que o mundo exterior não podia oferecer.
Com a maçã na mão, ela se dirigiu ao seu santuário: o quarto dos fundos, onde ficava seu setup gamer. Era o único lugar onde podia ser quem realmente era. Uma tela gigante, luzes LED azuis e roxas iluminando o ambiente, e um mouse de alta precisão esperavam por ela. Ali, ela não era a "filha perfeita" que a mãe tentava enquadrar, mas sim *Valkyrie*, uma jogadora destemida, com uma mira impecável e uma estratégia afiada. Era ali que a rebeldia contida e a inocência que tentava esconder se transformavam em pura adrenalina.
Sentou-se na cadeira ergonômica, o corpo curvilíneo se encaixando perfeitamente. Ligou o computador, o som do sistema operacional a saudando como um velho amigo. Abriu o jogo, um MMORPG de fantasia medieval que a transportava para um reino de dragões, magos e batalhas épicas. Seus dedos voaram pelo teclado, a maçã esquecida ao lado do mouse. Em Valkyrie, ela era forte, poderosa, capaz de destruir exércitos inteiros e liderar clãs em busca de tesouros. Em Valkyrie, ninguém lhe dizia o que fazer ou como se comportar. Ela era a protagonista de sua própria história.
Horas se passaram voando. O sol escalava o céu, mas Valentina mal percebeu. Sua mente estava imersa nas batalhas, nas missões, nas conversas com seus companheiros de guilda. Um deles, um jogador com o nome de *ShadowLord*, era especialmente interessante. Misterioso, sarcástico e surpreendentemente perspicaz. Eles haviam se tornado aliados improváveis, com uma química virtual que desafiava a distância. Ele a desafiava, a provocava, e ela, pela primeira vez em muito tempo, se sentia excitada. Não de uma forma romântica, mas de uma forma intelectual, estratégica. Era como se ele enxergasse a faísca em seus olhos avelã, mesmo através de um avatar pixelado.
Enquanto Valkyrie e ShadowLord se preparavam para invadir uma fortaleza inimiga, um aviso de e-mail piscou no canto da tela. Era da mãe. "Almoço com a Sra. Albright hoje às 13h. Não se atrase. Use o vestido azul-marinho." A mensagem era curta, direta e fria como sempre. Valentina suspirou, a realidade invadindo seu refúgio. O fogo em seus olhos avelã ameaçava se apagar. A raiva engolida por anos subia pela garganta. Ela odiava a Sra. Albright, uma mulher que parecia esculpida em gelo, com um riso agudo e dedos finos que apontavam para qualquer imperfeição.
Era sempre a mesma coisa. Perfeita, composta, obediente. Mas hoje, algo nela estalou. Uma ideia descabida, perigosa, floresceu em sua mente. Um grito de socorro que ela nunca ousou verbalizar, mas que agora, em seu santuário de pixels, parecia a única saída. Ela precisava de algo real. Algo que fosse *dela*. Algo que a mãe jamais pudesse controlar. Seus olhos avelã, antes cheios de rebeldia contida, agora brilhavam com uma determinação fria e calculista. A ideia era loucura. Era o maior erro que ela poderia cometer. Ou, talvez, o maior destino. Ela ainda não sabia. Mas uma coisa era certa: a Valentina de hoje não seria a Valentina de amanhã. E a Sra. Albright poderia esperar. O vestido azul-marinho, definitivamente, também.