Ele Me Quis. Ele Me Tomou. · Capítulo 1

Entre Pixels e Máscaras Sociais: Ela Existe?

O clique do mouse era o único som que preenchia o silêncio opressor do apartamento de luxo. Não aquele clique irritante de plástico barato, mas o suave e quase imperceptível som de um periférico de alto desempenho, que respondia com a precisão de um cirurgião. Valentina, ou melhor, ‘Valquíria_V’ naquele instante, apertava o botão esquerdo com a destreza de quem havia passado a vida inteira treinando para aquele momento. Na tela ultrawide, o mundo virtual de Azgard of Valor fervilhava em tons vibrantes de verde esmeralda e roxo néon, enquanto ela desviava de uma saraivada de golpes mágicos, os dedos voando sobre o teclado com uma agilidade quase hipnótica.

Seus cabelos castanho-escuros, que sob as luzes LED do quarto gamer ganhavam reflexos dourados, estavam presos num coque desleixado no alto da cabeça, alguns fios teimosos escapando para emoldurar seu rosto. A pele clara brilhava sutilmente sob a concentração, e seus olhos avelã, normalmente cheios de uma rebeldia contida, agora dançavam com a adrenalina de uma batalha épica. O corpo curvilíneo, elegante em um moletom oversized que pertencia a um ex-ficante e calças de moletom, estava curvado sobre a cadeira ergonômica, tão longe da postura impecável exigida por sua mãe que Valentina sentia um pequeno prazer subversivo a cada movimento.

— Morra, seu bicho nojento de três cabeças! — ela rosnou baixinho, a voz rouca pela falta de uso. Um sorriso vitorioso surgiu em seus lábios cheios enquanto a barra de vida do monstro épico se esvaía. Um último golpe certeiro, uma explosão de partículas digitais, e a notificação de 'Vitória!' preencheu a tela. Valquíria_V havia, mais uma vez, provado seu valor no reino de Azgard.

Um suspiro de alívio, e ela se recostou na cadeira, esticando os braços acima da cabeça até ouvir os ossos estalarem. A sensação do sangue fluindo novamente era um alívio bem-vindo depois de horas na mesma posição. Olhou para o relógio digital no canto da tela: 3:00 da manhã. A mesma hora de sempre. A mesma rotina. Treinar, jogar, vencer. E então, o vazio.

Naquele momento, longe das expectativas maternas e da fachada de perfeição social que era obrigada a exibir, Valentina era apenas Valquíria_V. Uma gamer de elite, respeitada por sua guilda, temida pelos adversários, e completamente anônima no mundo real. Era o único lugar onde podia ser impulsiva, estratégica e, acima de tudo, livre. Onde sua voz importava, não seu sobrenome ou sua posição social.

Um arrepio de desconforto percorreu sua espinha. A liberdade era um conceito que ela ansiava, mas que raramente conseguia tocar. Na vida real, Valentina era uma marionete, vestida, penteada e apresentada de acordo com as exigências de sua mãe. Seus 1,67m de altura, seu corpo que a mãe insistia em chamar de “delicado demais para não ser cultivado”, tudo era um adereço para o grandioso palco social que sua progenitora construíra ao redor delas.

Lembrou-se da última discussão, horas antes, sobre qual vestido deveria usar no próximo evento de caridade. A mãe, fria e impecável em sua postura, havia deslizado os dedos pelas sedas e crepes, ditando, como sempre, o que era “adequado” para uma filha da família. Valentina havia engolido a raiva, disfarçando-a sob uma máscara de indiferença polida. Aquele olhar desafiador, que Dante um dia diria que o instigava, estava presente, mas escondido sob pálpebras baixas.

O contraste entre sua vida online e offline era brutal. No jogo, ela era uma guerreira destemida. Na vida real, uma prisioneira dourada, sufocada por etiqueta, status e a incessante busca por uma perfeição social que a deixava faminta por algo real. Algo cru. Algo perigoso. A raiva engolida por anos borbulhava sob sua pele, procurando uma válvula de escape.

Com um clique, ela minimizou o jogo, o calor da batalha se esvaindo para ser substituído pelo frio vazio da tela de trabalho. A imagem de fundo era uma paisagem serena, uma praia vazia ao pôr do sol. Um lugar para onde ela desejava escapar. Mas não seria tão simples assim.

Seus olhos avelã, antes tão cheios de fogo, agora se demoravam na própria imagem refletida no monitor apagado. Uma garota com um ar delicado, mas com a mandíbula teimosamente cerrada. Uma rebelde impulsiva, ferida pela rejeição de uma mãe que nunca a vira como um indivíduo, mas como uma extensão de si mesma. E, acima de tudo, insegura sobre seu próprio valor fora da bolha de perfeição que a cercava.

Um e-mail piscou na barra de tarefas. Um convite para um evento exclusivo, um clube noturno recém-inaugurado no submundo de Nova Iorque, conhecido por ser frequentado por uma clientela... diferenciada. O tipo de lugar que sua mãe teria um ataque cardíaco só de saber que ela consideraria pisar. O tipo de lugar que prometia perigo, anonimato e, talvez, a chance de ser alguém completamente diferente por uma noite.

Seus dedos pairaram sobre o mouse. Era um erro, ela sabia. O maior erro da sua vida. Mas a ideia de infligir um golpe no orgulho familiar, de quebrar as correntes invisíveis que a prendiam, era irresistível. Um jogo. Apenas um jogo, pensou, o olhar desafiador fixo no convite. Mas ela não sabia que, do outro lado da cidade, um certo mafioso temido estava prestes a fazer sua jogada.