Duas Fardas · Capítulo 2

Capítulo 2 — Sábado

Ela começava a viagem duas horas antes do necessário.

Não por ansiedade — havia deixado a ansiedade para trás há muito tempo, na primeira vez, num quarto de hotel em Campinas com as mãos que ainda tremiam um pouco e a voz que não tremia nada. Começava cedo porque o ritual importava. A transição precisava de tempo.

A mochila ficava num guarda-volume da rodoviária de Campinas — não da cidade onde morava, não da cidade da base. Ponto intermediário, escolhido com critério. Dentro: vestido preto, salto, maquiagem, o perfume que Viviane nunca usava. O cabelo ela soltava no banheiro da rodoviária, passava o babyliss compacto que ficava no fundo da mochila, refazia o rosto.

Quinze minutos. Quando saía do banheiro, não era a Coronel Ramos.

Era Valentina.

O Uber para o Grand Hyatt durou quarenta minutos. Ela usou para checar o perfil do cliente novo — Eduardo, 47 anos, empresário do agronegócio, primeira vez com a agência. Perfil verificado significava que a agência havia confirmado identidade, capacidade de pagamento e ausência de histórico problemático. Ela não atendia ninguém que não passasse por esse processo.

Era profissional nisso também.

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Eduardo estava no bar do hotel quando ela chegou — pontual, como ela gostava, sem aquele nervosismo excessivo de primeira vez que tornava tudo mais complicado. Levantou quando a viu, e havia no olhar dele a mesma expressão que ela reconhecia em todos: a de quem esperava uma coisa e recebeu outra.

Valentina era mais do que a foto. Sempre foi.

— Você é... — ele começou.

— Valentina — disse ela, com o sorriso que era profissional e ao mesmo tempo completamente real, porque essa era a habilidade central: fazer o real e o profissional coincidirem. — Pode me chamar assim.

Conversaram por uma hora no bar. Era parte do serviço — a conversa, a atenção, o espaço onde o cliente podia ser alguém diferente do que era no escritório ou em casa. Ela ouvia. Fazia as perguntas certas. Não fingia interesse onde não havia, mas havia sempre alguma coisa genuína para encontrar se você prestava atenção.

Eduardo era solitário de um jeito específico — o tipo que tem tudo e descobriu que tudo não resolve a solidão fundamental. Ela conhecia esse perfil. Era o mais fácil de atender e o mais pesado de carregar para casa depois.

Não levava para casa. Era a regra mais importante.

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No quarto, ele foi direto — não grosseiro, mas sem rodeios, o que ela preferia ao nervosismo prolixo. Ela tirou o vestido com a naturalidade de quem está completamente no próprio corpo, porque estava. Valentina não se dissociava. Valentina estava presente, controlava cada detalhe, sabia exatamente o que estava fazendo e por quê.

Era Viviane que às vezes fugia de si mesma.

Eduardo era atencioso da forma que homens ricos aprendiam a ser — não por instinto, mas por hábito de conseguir o que queriam sendo educados. As mãos dele percorreram o corpo dela com aquela possessividade contida de quem está pagando e sabe que o pagamento garante apenas o que foi acordado.

Ela o deixou acreditar que estava no controle.

Nunca estava. Valentina sempre estava.

Quando ele a puxou para mais perto e enterrou o rosto no pescoço dela, ela inclinou a cabeça na direção certa, a mão subindo pela nuca dele com a pressão calculada que ela sabia que funcionava. O som que ele fez foi involuntário — e havia nisso uma honestidade crua que ela havia aprendido a respeitar, mesmo quando não sentia nada além de profissionalismo.

Às vezes sentia mais do que profissionalismo. Não com Eduardo — mas havia clientes, ao longo dos três anos, com quem o corpo respondia de formas que não eram performance. Ela catalogava isso sem julgamento. Era humana. O corpo não sabia distinguir contexto.

A hora que se seguiu foi competente, limpa, sem drama. Ele veio duas vezes. Ela uma — real, não encenada, porque encenação era desrespeito ao próprio trabalho e ela não fazia desrespeito ao próprio trabalho.

Depois, enquanto ele dormia, ela foi ao banheiro.

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O espelho do Grand Hyatt era grande e bem iluminado. Ela ficou olhando para o próprio rosto por um tempo — maquiagem levemente desfeita, cabelo bagunçado, o corpo que era o mesmo no quartel e aqui mas que as pessoas olhavam de formas completamente diferentes dependendo da farda.

Pensou em Rafael Menezes.

Pensou no modo que ele havia dito *Coronel Ramos* com exatamente a mesma entonação de quando ligava para confirmar horário.

Lavou o rosto. Recompôs. Voltou para o quarto, pegou o vestido do chão em silêncio, e esperou a hora certa para sair sem acordar Eduardo.

No Uber de volta, com o cabelo ainda solto mas a maquiagem retirada, ela ficou olhando pela janela para as luzes da rodovia.

Não pensou em nada.

Era a única coisa que sabia fazer que Viviane não conseguia — esvaziar completamente. Valentina esvaziava. Viviane carregava tudo o tempo todo.

Às vezes ela se perguntava qual das duas estava mais perto do que ela realmente era.

Nunca respondia.