Duas Fardas · Capítulo 1

Capítulo 1 — Terça-feira

O relatório de disciplina estava errado em três lugares e o tenente que o assinou claramente não havia relido antes de entregar.

Viviane devolveu a pasta sem comentar. — Refaz. Prazo até as dezesseis.

— Sim, Coronel.

O tenente saiu. Ela virou para a janela.

A base ficava no interior de São Paulo — poeira, calor, o som constante de motores e botas em cascalho. Vinte anos ela havia passado em bases como essa, sempre avançando, sempre o posto acima, sempre a única mulher na reunião de oficiais sênior. Havia aprendido a transformar isso em invisibilidade estratégica — ser tão competente que o gênero deixava de ser assunto.

Funcionava. Quase sempre.

O celular vibrou na gaveta. Ela não precisou olhar para saber que era uma mensagem do aplicativo — o aplicativo tinha ícone neutro, aparecia como agenda pessoal para qualquer um que olhasse a tela, e vibrava com um padrão diferente das outras notificações. Ela havia configurado isso com cuidado, como configurava tudo.

Esperou o tenente sair, levantou, fechou a porta.

Leu a mensagem.

*Cliente novo. Perfil verificado. Sábado, 20h, Grand Hyatt São Paulo. Confirmar disponibilidade.*

Sábado ela estava livre. As contas do mês de junho ainda não tinham fechado — o tratamento da mãe tinha saído mais caro que o esperado, e a parcela do apartamento do irmão estava atrasada pela terceira vez. Ela não havia perguntado por quê. Havia pago.

Confirmou disponibilidade. Guardou o celular.

Voltou para a mesa.

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A reunião da tarde foi sobre a chegada do novo General de Brigada — Marcos Duarte, transferido do Rio Grande do Sul, assumia o comando regional na semana seguinte. O Major Fonseca leu o currículo em voz alta com aquele tom de quem está tentando avaliar se o novo chefe seria um problema ou não.

Viviane ouviu. Tomou notas. Não formou opinião — nunca formava opinião sobre superiores antes de tê-los na frente.

Foi só depois, quando a reunião terminou e os outros saíram, que o Dr. Rafael Menezes entrou pela porta lateral.

Ela o reconheceu antes de processar que havia reconhecido. Foi físico — uma parada mínima na respiração, um ajuste na postura que ninguém que não a conhecesse muito bem teria notado. Em vinte anos de exército ela havia treinado o corpo para não trair a mente. O corpo quase obedeceu.

Quase.

Rafael Menezes tinha cinquenta anos, cabelo grisalho, a postura relaxada de um homem que não precisava provar nada para ninguém há muito tempo. Consultor civil em logística — ela já tinha visto o nome na lista de incorporados civis da semana anterior. Havia pensado que era coincidência de sobrenome.

Não era.

Ele se apresentou para o Major Fonseca com a naturalidade de quem está acostumado a circular em qualquer ambiente. Quando os olhos dele chegaram em Viviane, havia um segundo de algo — rápido, controlado, arquivado — antes do aperto de mão profissional.

— Coronel Ramos. — A voz era a mesma. Neutra em público, a mesma que usava quando ligava para confirmar horário.

— Dr. Menezes. — A dela também era neutra. Havia treinado para isso por anos, mas nunca havia previsto precisar desse treinamento aqui.

Ele sorriu — o sorriso de apresentação, sem subtexto visível. — Boa tarde.

— Boa tarde. — Ela virou para o Major. — Às oito de amanhã, Fonseca.

Saiu pela porta antes que qualquer coisa precisasse ser dito.

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No carro, de volta para o alojamento, ficou com as mãos no volante por dois minutos antes de ligar o motor.

Rafael sabia. Ela sabia que ele sabia. Havia visto nos olhos dele — não julgamento, não surpresa, mas o reconhecimento específico de alguém que estava processando informação nova sobre um jogo que já jogava.

A questão não era se ele falaria. A questão era quando, e o que queria em troca do silêncio.

Viviane havia construído a carreira inteira sobre a capacidade de avaliar ameaças com precisão. Rafael Menezes não era uma ameaça que ela conhecia ainda — era uma variável nova num sistema que ela havia controlado com cuidado por três anos.

Variáveis novas precisavam de tempo e informação para serem gerenciadas.

Ligou o motor. Saiu da base no horário exato em que saía todos os dias, pela rota de sempre, na velocidade correta.

Por fora, tudo igual.

Por dentro, recalculando tudo.