Duas Fardas · Capítulo 3
Capítulo 3 — General Duarte
Ele chegou numa segunda-feira com chuva fina e sem cerimônia.
Viviane havia imaginado o tipo — havia tipos de general, como havia tipos de tudo, e ela os catalogava com eficiência: o que precisava de adulação, o que precisava de resultados, o que precisava de distância respeitosa, o que precisava sentir que estava sempre certo. Cada um exigia um ajuste de postura diferente, e ela havia aprendido todos eles.
Marcos Duarte não era nenhum desses tipos.
Chegou sem comitiva excessiva, cumprimentou os oficiais pelo nome — havia decorado, claramente, antes de chegar — e quando chegou em Viviane havia nele uma atenção que não era hierárquica. Era... observação. O tipo que ela usava para avaliar terreno.
— Coronel Ramos. — O aperto de mão foi firme sem ser afirmação de força. — Li seu dossiê na semana passada.
— General. — Ela sustentou o olhar. — Bem-vindo à base.
— Obrigado. — Uma pausa mínima, o tipo que a maioria das pessoas não percebia. — Você está aqui há três anos?
— Quatro.
— E antes, Mato Grosso?
— Dois anos. Antes, Manaus.
Ele assentiu, como quem está confirmando o que já sabia. — Conversa amanhã às dez, Coronel. Quero entender o que você pensa sobre a situação logística atual.
Não era *quero ser briefado*. Era *quero entender o que você pensa*.
A distinção era pequena e significativa.
— Às dez — confirmou ela.
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A reunião durou noventa minutos. Ele fez perguntas que nenhum general havia feito antes — não sobre números, não sobre protocolos, mas sobre o raciocínio por trás das decisões. Por que esse fornecedor e não aquele. Por que essa rota logística quando havia uma alternativa mais curta. O que ela priorizava quando os recursos não cobriam tudo.
Viviane respondeu com precisão e sem ornamento, como sempre fazia. Mas havia algo diferente em ser ouvida de verdade — não avaliada, não testada, mas ouvida.
Ela identificou o desconforto no final da reunião e o arquivou como dado.
— Uma coisa. — Ele estava fechando o caderno quando disse isso, o tom casual demais para ser acidental. — O Dr. Menezes. Você o conhecia antes?
O silêncio durou menos de um segundo. Ela havia treinado para isso. — Não, General. Por quê?
— Observação. — Ele ergueu os olhos. — Quando ele entrou na reunião de apresentação, você ajustou a postura.
Viviane ficou olhando para ele.
Era raro. Era muito raro alguém notar o que ela não queria que fosse notado.
— Não me lembro de ter feito isso — disse ela, com a voz completamente plana.
— Pode ter sido impressão minha. — O tom dele era amistoso, sem pressão. Mas os olhos continuavam com aquela atenção que não desligava. — Dispensada, Coronel.
Ela saiu da sala com passo regular.
No corredor, parou por três segundos com a mão na parede — não para se segurar, mas para verificar se o corpo estava obedecendo. Estava.
Marcos Duarte havia notado algo que ninguém em vinte anos havia notado.
Isso era um problema de ordem diferente de Rafael.
Rafael era uma ameaça que ela compreendia — tinha forma, tinha motivação provável, tinha caminhos de gerenciamento. Marcos era uma ameaça que ela não compreendia ainda, e o que ela não compreendia a incomodava de um jeito que era visceral e, portanto, precisava ser monitorado com cuidado redobrado.
Ela voltou para a sala no horário. Assinou os papéis do dia. Respondeu os emails com eficiência.
À noite, no alojamento, ficou olhando para o teto por mais tempo do que o habitual antes de dormir.
Rafael sabia. Marcos suspeitava de alguma coisa — não o quê, mas alguma coisa.
E na próxima sexta ela tinha um cliente novo.
Duas vidas que haviam funcionado em paralelo por três anos sem nunca se tocarem estavam começando a dobrar em direção uma à outra, devagar, com a inevitabilidade de duas rotas de colisão que parecem seguras até o momento em que não são mais.
Viviane fechou os olhos.
Calculou.
Não encontrou solução ainda.
Dormiu de qualquer jeito — porque a exaustão não esperava soluções, e porque amanhã havia trabalho, e porque o trabalho sempre havia sido o lugar onde as coisas faziam sentido quando nada mais fazia.
Só que agora o trabalho era dois.
E os dois estavam começando a sangrar um no outro.