Desejo em Altitude · Capítulo 2
Voos e Vícios
Valentina ajustou o cinto de segurança, sentindo o familiar balanço do avião que ganhava altura. O jorro constante dos motores era uma melodia para ela, um lembrete de que estava no seu elemento. Havia algo de mágico no anonimato das nuvens, a certeza de que, lá em cima, as regras do mundo lá embaixo se dissolvem, mesmo que por algumas horas.
Ela deslizou pelo corredor, um sorriso profissional colado aos lábios. Os passageiros começavam a relaxar, alguns já com os olhos fechados, outros lendo revistas ou assistindo a filmes. Valentina observava, como sempre. Uma mãe aflita com o filho, um casal que trocava olhares apaixonados, um empresário absorvido em seu laptop.
Era fascinante como as pessoas se revelavam, ou tentavam se esconder, em um espaço tão confinado. Ela via a solidão nos olhos de um, a arrogância de outro, a esperança ou o desespero de muitos. Era um desfile silencioso de emoções humanas, e Valentina era uma espectadora privilegiada.
Seu trabalho era oferecer conforto, segurança e, por vezes, um toque de fantasia. Ela distribuía cobertores, servia bebidas, respondia a perguntas repetidas vezes. Mas, por trás do uniforme impecável, da postura perfeita, havia uma mente aguçada que catalogava cada detalhe.
Hoje, entre os assentos da primeira classe, um homem chamava sua atenção. Não pela aparência – embora ele fosse, inegavelmente, atraente –, mas pela forma como se portava. Cabelos escuros, barba bem aparada, olhos claros e uma calma perturbadora. Alexander Beaumont. Seu nome estava na lista de passageiros VIP.
Ele não olhava pela janela. Não lia. Não parecia interessado na tela à sua frente. Estava apenas lá, existindo, como se o voo fosse uma pausa obrigatória entre dois pontos importantes de sua vida.
Valentina se aproximou, sua voz suave, mas firme.
— Bom dia, senhor Beaumont. Gostaria de algo para beber?
Ele ergueu os olhos, e o contato visual a atingiu como uma onda inesperada. Não havia curiosidade. Não havia fascínio. Apenas uma análise fria, rápida e quase cínica.
— Água com gás, por favor.
Sua voz era profunda, com um sotaque que ela não conseguiu identificar de imediato. Havia uma leve aspereza que a fez prestar mais atenção. Ela sorriu, um sorriso que costumava derreter a maioria dos homens.
— Para começar o dia com o pé direito.
Ele não sorriu de volta. Apenas um aceno de cabeça quase imperceptível.
— Se o objetivo é apenas isso, sim.
Valentina sentiu um leve tremor de desafio. A maioria dos passageiros respondia aos seus flertes sutis, aos seus comentários inteligentes. Mas Alexander Beaumont não parecia se abater. Isso a intrigava. Um homem que não reagia ao seu charme era como um enigma a ser decifrado.
Ela voltou com a água, pousando o copo cuidadosamente sobre a pequena mesa retrátil.
— Você sempre parece tão entediado ou só quando voa, senhor Beaumont?
O canto dos lábios dele se moveu minimamente. Foi quase um sorriso, mas durou menos de um segundo.
— Depende da companhia, senhorita…?
— Moreau. Valentina Moreau.
— Depende da companhia, senhorita Moreau. Hoje, não estou entediado.
Era um desafio. Uma linha tênue entre a indiferença e a provocação. Valentina adorava aquele jogo. Ela sabia o que fazer.
— Então vou considerar isso um elogio. Há algo mais em que posso ajudá-lo?
Ele a estudou novamente, os olhos claros perfurando a máscara de confiança que ela tão cuidadosamente construía. Alexander parecia ver além, ou pelo menos tentava.
— Por enquanto, não. Obrigado.
Valentina sentiu uma pontada de frustração, misturada com uma curiosidade crescente. Ele não estava caindo no seu jogo. Não estava fascinado, não estava seduzido. Alexander Beaumont era uma parede, e isso a irritava de uma forma que poucas coisas conseguiam.
Ela se afastou, sua mente trabalhando em ritmo acelerado. Nunca havia falhado em encantar um homem quando se propunha a isso. Nunca. Mas Alexander era diferente. Era quase como se ele a estivesse avaliando, e não o contrário.
Ao final do voo, enquanto os passageiros se preparavam para desembarcar, Valentina passou por ele novamente. Alexander estava ajeitando a lapela do paletó. Seus olhos se encontraram, e um leve aceno foi trocado. Aquele não seria o último encontro deles, ela sabia. Ela *sentia*.
E pela primeira vez em muito tempo, Valentina sentiu que o próximo voo não era apenas sobre um novo destino. Era sobre uma nova possibilidade, um desafio que ela não sabia se queria enfrentar. Mas não conseguia ignorar.
Horas depois, já em seu apartamento temporário, ela sentiu um impulso estranho. Tirou um cartão-postal de Nova York, a cidade onde acabara de pousar. Pegou uma caneta e começou a escrever, as palavras fluindo sem esforço, como sempre acontecia quando escrevia cartas que jamais seriam enviadas.
*Caro Alexander Beaumont, você não sabe, mas está me tirando do meu script. Eu deveria ter esquecido você no momento em que a porta do avião se abriu. Mas você não sai da minha cabeça. E isso… isso não é bom. Não para mim.*
Ela selou o cartão, mas não sem antes sentir a familiar ansiedade que vinha com cada voo de volta ao desconhecido.
Na manhã seguinte, no aeroporto, enquanto se preparava para mais um dia de voos e interações protocolares, um aviso soou nos alto-falantes: “Voo 747 para Londres, portão B12, está agora embarcando.”
Era o seu voo. O próximo. E, de repente, um vício que ela não esperava a atingiu.
Ela precisava vê-lo de novo. Precisava que ele estivesse naquele avião.
E, como que atendendo a uma prece silenciosa, ele estava lá. Sentado na primeira classe, no mesmo assento que no voo anterior, Alexander Beaumont a olhou, e um sorriso, desta vez real, desabrochou em seus lábios. Um sorriso que dizia: “Eu sabia que você viria.”