Desejo em Altitude · Capítulo 1

A Primeira Classe e o Desejo Oculto

Aquele dia começou como tantos outros para Valentina Moreau. O cheiro de querosene misturado ao café recém-passado, o burburinho de vozes em diferentes idiomas no portão de embarque e a promessa de um novo destino. Ela deslizou pelo corredor estreito, os saltos baixos mal tocando o carpete, cada movimento calculado, cada sorriso calibrado. Seus cabelos castanho-escuros estavam presos em um coque impecável, revelando a linha do pescoço. Os olhos castanhos claros, intensos, varriam o ambiente. Não era apenas por segurança. Era um hábito. Uma segunda natureza que a fazia observar, analisar, catalogar.

Em pouco tempo, ela sabia quem era o casal em crise, a executiva ansiosa, o jovem turista empolgado. E, claro, os predadores. Aqueles que buscavam contato. Que a mediam com um olhar demorado, uma tentativa de sorriso que ela sabia decifrar. Para esses, Valentina tinha um repertório pronto. Uma gentileza profissional, um toque leve no braço durante a explicação das opções de bebida, um olhar que prometia mais do que entregava. Eles chegavam, partiam, e nunca ficavam. Exatamente como ela gostava.

Ela gostava da efemeridade. Da intensidade passageira. De ser a fantasia de alguém por algumas horas. Do desejo puro, sem as amarras de um compromisso, sem as expectativas que acompanhavam o “depois”. Sentimentos eram um risco que ela não se permitia correr. O desejo, ah, o desejo era controlável. No avião, ela era a personificação da confiança. Andava com uma postura que exalava domínio, os ombros retos, o queixo levemente erguido. Seu uniforme, impecável, realçava a silhueta elegante, um corpo que ela moldava não para agradar, mas para suportar a vida em constante movimento.

Hoje, a rota era uma das mais longas, ligando São Paulo a Londres. O voo seria noturno, envolto na escuridão pontuada pelas estrelas e as luzes distantes das cidades sob as nuvens. O cenário perfeito para alguns jogos discretos. Na primeira classe, o ambiente era de silêncio quase reverencial. Poltronas luxuosas reclinadas, alguns passageiros lendo, outros já cochilando. Valentina sabia que era ali que a caça era mais interessante. Homens de negócios, bilionários com pressa, alguns em busca de distração.

Ela parou na fileira G, onde um homem parecia alheio a tudo. Alexander Beaumont. O nome estava em sua lista de passageiros VIP. Ele era novo ali. Nunca o tinha visto antes. E ele se encaixava perfeitamente na descrição do “tipo”. Alto, com um porte atlético que as roupas discretas não conseguiam esconder. Cabelos escuros e uma barba curta e bem aparada davam-lhe um ar de seriedade. Seus olhos claros estavam fixos na tela à sua frente, um filme que Valentina não conseguiu identificar. Ele não demonstrava nervosismo, nem curiosidade. Não olhou para ela quando ela se aproximou, oferecendo a bandeja de bebidas. Apenas um aceno de cabeça. Ela percebeu o relógio discreto, mas absurdamente caro, em seu pulso. Os ternos impecáveis. Tudo nele gritava poder, sem a necessidade de ostentação. “Gostaria de algo para beber, senhor?” Sua voz era suave, profissional. Mas com uma pitada sutil de convite que poucos homens resistiam.

Ele finalmente levantou os olhos. Eram azuis, de um tom tão claro que pareciam quase transparentes. E penetrantes. Não era um olhar de desejo, nem de admiração. Era um olhar que analisava. Que via além da superfície. — Água com gás. Sem gelo, por favor. A voz era grave, calma. Sem pressa. Sem a ânsia que ela costumava encontrar em homens como ele. Aquele era diferente. Não caiu na isca. Não a convidou com os olhos. Não prolongou o contato visual. Valentina sentiu uma fisgada. Era quase imperceptível. Uma irritação suave. Ele não se impressionou. Ela, que sempre conseguia uma reação, havia sido ignorada. Isso era novo. Ela serviu a água, os dedos roçando levemente a garrafa ao passá-la. Ele pegou, sem que a pele deles se tocasse. Um fantasma de um toque que ela esperava, mas que não veio. — Algo mais, senhor? – A voz dela agora tinha um tom de desafio velado. Alexander inclinou a cabeça ligeiramente, um leve sorriso se formando em seus lábios. Não era um sorriso sedutor, mas divertido. Como se ele soubesse algo que ela não sabia. — Por enquanto, não. Obrigado.

Valentina se afastou, sentindo os olhos dele em suas costas. Era uma sensação que ela conhecia, mas de uma forma diferente. Não de admiração, mas de… observação. Ele estava a observando, não sendo observado por ela. O jogo estava invertido. O resto do voo passou sem grandes interações entre eles. Ela tentou novamente, oferecendo um cardápio extra de sobremesas, um café mais tarde. Ele sempre recusava com a mesma polidez fria. O sorriso divertido, quase cúmplice, permanecia. Ela o via cochilar por breves momentos, a cabeça encostada na poltrona. Ele parecia perfeitamente à vontade, mas ao mesmo tempo distante. Um bilionário em seu mundo, inatingível.

Ao desembarcar em Londres, Valentina se posicionou na porta, agradecendo aos passageiros. Alexander passou por ela, um aceno de cabeça. Nenhuma palavra. Nenhuma troca de olhares prolongada. Ela sentiu um misto de frustração e, para sua surpresa, uma pontada de curiosidade. Ele não tinha caído em sua rede. Isso nunca acontecia. Ele não era apenas mais um passageiro. Ele era o passageiro que ela não conseguiu conquistar. Enquanto ele se afastava pelo corredor do aeroporto, uma figura elegante e solitária, Valentina teve a certeza de que nunca mais o veria. Aquela rota não era frequente para ela, e passageiros como ele tinham jatos particulares e agendas impossíveis de cruzar novamente.

Um ano depois, em um voo de Nova York para Paris, enquanto servia o champanhe na primeira classe, ela parou de repente. O coração disparou no peito, uma sensação que não experimentava há muito tempo. Ali estava ele. Na mesma fileira G. Os mesmos olhos claros a encontraram. Um sorriso se formou em seus lábios. Mas, desta vez, não era divertido. Era um sorriso de reconhecimento. De quem sabia que o jogo estava apenas começando. E, pela primeira vez, Valentina sentiu que talvez não fosse ela quem estava no controle.