Desejo em Altitude · Capítulo 3
O Silêncio de Um Bilionário
Valentina ajustou o lenço de seda azul no pescoço, o tecido macio roçando sua pele. Mais um voo, mais uma leva de passageiros ansiosos ou indiferentes. Ela deslizou pelo corredor estreito, um sorriso profissional colado aos lábios, os olhos castanhos registrando cada detalhe. O trabalho era uma dança coreografada, e ela conhecia cada passo de cor.
Até que seus olhos pararam na primeira classe. Assento 1A.
Ele estava lá.
Alexander Beaumont. O homem que deveria ter sido apenas mais um rosto em uma multidão de mil voos.
Seu coração deu um salto, um batimento fora de sincronia que ela apressou-se em ignorar. Isso não era normal. Nunca antes um passageiro a fizera sentir essa pontada de antecipação.
Ele estava lendo. Um tablet fino e discreto, seus dedos longos e elegantes passando pela tela. Não havia nervosismo em sua postura, nenhuma pressa. Apenas uma calma imperturbável que exalava poder, mas de uma forma silenciosa.
Valentina se aproximou, o sorriso se alargando um pouco, mas ainda dentro dos limites do profissionalismo. “Bom dia, senhor. Posso oferecer-lhe algo para beber antes da decolagem?”
Alexander baixou o tablet, seus olhos claros e profundos encontrando os dela. Não era um olhar de admiração, nem de curiosidade óbvia. Era algo mais parecido com... reconhecimento. Como se ele a esperasse.
“Água, por favor.” Sua voz era grave, baixa, sem a menor entonação de flerte ou interesse. Simplesmente um pedido. Um pedido que não a colocava no centro de seu universo, nem por um segundo.
Isso, de alguma forma, era ainda mais desafiador. Valentina sentiu um calor inesperado subir por sua nuca. Ele não estava jogando o jogo dela. Ele estava estabelecendo suas próprias regras.
Ela entregou a garrafa de água com um movimento gracioso. “Excelente escolha. É importante manter-se hidratado em voos longos.” Ela se inclinou um pouco, permitindo que seu perfume sutil chegasse até ele. A tática de sempre.
Ele apenas assentiu, sem desviar o olhar do dela. “Concordo. O ar da cabine pode ser bastante seco.”
Nenhuma pergunta sobre ela. Nenhuma tentativa de prolongar a conversa. Apenas uma afirmação seca. Valentina sentiu a pontada de frustração, mas também a curiosidade aguçada. Ele era um enigma, um quebra-cabeça que ela estava disposta a resolver.
“Vejo que está concentrado. Negócios, imagino?” ela tentou, com o tom mais leve e casual que conseguiu.
Alexander hesitou por um milésimo de segundo. “Sempre. Meu trabalho não tira férias, infelizmente.” Um fantasma de um sorriso tocou seus lábios, tão breve que ela quase o perdeu.
“Entendo perfeitamente”, Valentina murmurou, embora não entendesse nada da vida de um bilionário. A dela era feita de escalas, fusos horários e quartos de hotel impessoais. A dele, ela imaginava, era um império em constante movimento.
Ela percebeu que outros passageiros na primeira classe começavam a olhá-los. Era hora de se afastar. Mas algo a segurou. Aquele desafio silencioso, o fato de ele não ter cedido ao seu charme usual.
“Então, senhor Beaumont, sempre parece tão entediado ou só quando voa?” A pergunta escapou antes que ela pudesse pará-la, carregada com seu humor ácido e inesperado. Era uma aposta. Ele poderia se ofender.
Alexander soltou uma risada baixa, um som que vibrou na cabine. “Depende da companhia, senhorita Moreau.”
Ele sabia o nome dela. Não do crachá, ela tinha certeza. Ele a observava também. A sensação estranha de ser o objeto de sua observação fez seu estômago revirar.
Ela sorriu, um sorriso genuíno desta vez, o que era raro em serviço. “Então vou considerar isso um elogio.”
“Considere como quiser”, ele respondeu, seus olhos penetrantes. “Mas, por favor, me chame de Alexander. Não precisa ser tão formal quando não estamos voando.”
“Ah, mas estamos voando”, Valentina retrucou, mantendo o jogo. “E eu estou trabalhando.” Ela sentiu a adrenalina correndo. Ele estava se abrindo, mesmo que minimamente. Era uma vitória, por menor que fosse.
Alexander apenas assentiu, voltando a atenção para o tablet. O gesto era claro: a conversa terminara. Valentina sentiu a decepção, mas também a chama da obstinação acender dentro dela. Ele não era como os outros. E isso era fascinante.
Durante o voo, ela o observou de longe. Ele trabalhou, comeu sua refeição leve, leu. Sem filmes, sem fones de ouvido. Completamente absorto em seu mundo. Ele nunca a chamou, nunca pediu nada extra.
Quando o avião começou a descer, Valentina se aproximou novamente para o serviço de encerramento. Ele estava fechando o tablet, os olhos fixos na janela, observando as luzes da cidade surgirem abaixo.
“Espero que tenha tido um bom voo, Alexander”, ela disse, usando seu nome pela primeira vez em voz alta. Soou natural.
Ele se virou, um olhar de surpresa, um quase sorriso. “Foi… eficiente. Como sempre.” Ele estendeu a mão, e Valentina, pega de surpresa, apertou-a. O toque foi firme, quente, elétrico. Uma onda de choque percorreu seu braço.
“Até o próximo voo, então?” Ela disse, a voz mais baixa do que o pretendido, o coração batendo descompassado.
Alexander apenas a olhou, seus olhos fixos nos dela. “Quem sabe, Valentina. Quem sabe.”
Ele pegou sua pasta e saiu do avião sem olhar para trás. Valentina ficou ali, a mão ainda formigando, a imagem de seus olhos claros gravada em sua mente. Ela não o veria novamente. Estava acostumada a isso. Mas a curiosidade latejava em seu peito.
Ela estava errada.
Dois dias depois, no voo de volta, ele estava lá de novo. Assento 1A. Como se nunca tivesse partido. E desta vez, Alexander a olhou de uma forma que fez Valentina sentir que talvez, apenas talvez, ela não estivesse tão no controle como sempre pensou.