Cartas Para o Meu Primeiro Amor · Capítulo 2

Coisas que eu nunca disse

Passei o domingo inteiro tentando agir como se nada tivesse mudado. Tecnicámente, não tinha. O Gabriel não sabia da minha existência antes, não ia magicamente saber agora só porque tinha voltado pra cidade.

Mas tenta explicar isso pro meu cérebro.

Cada coisa me lembrava dele. A quadra onde ele jogava. A padaria onde ele comprava salgado depois da aula. Até o ônibus passando na rua parecia cena de flashback.

Depois do almoço, fui direto para o meu quarto. A caixa ainda estava lá, como se me chamasse.

Sentei no chão de novo e espalhei as cartas ao meu redor. Haviam muitas mais do que eu lembrava. Algumas com desenhos nas margens, outras com borrões de caneta, uma ou outra manchada como se eu tivesse chorado escrevendo.

O que, honestamente, era bem provável.

Peguei uma delas, datada de dois dias antes da formatura.

“Querido Gabriel, Hoje foi o ensaio da nossa formatura. Você estava com aquela camisa azul que faz seu olho parecer ainda mais claro. Fiquei o ensaio inteiro imaginando se um dia a gente ia conversar de verdade…”

Sorri triste. A gente nunca conversou de verdade.

Outra carta, agora do começo do terceiro ano:

“Querido Gabriel, Todo mundo fala que você é popular, mas acho que ninguém repara quando você fica em silêncio, olhando pela janela, como se estivesse pensando em coisas que ninguém sabe…”

Essa me pegou. Eu lembrava exatamente do dia em que escrevi isso. A professora estava explicando alguma coisa sobre literatura, e ele estava lá, no fundo da sala, encarando o céu, com uma expressão que eu nunca tinha visto antes.

Naquela época, eu jurava que ninguém no mundo conhecia o Gabriel melhor do que eu. O detalhe é: ele nem sabia meu nome.

— Que que é isso tudo? — ouvi uma voz na porta.

Levei um susto tão grande que quase joguei as cartas pro alto.

— Meu Deus, Júlia! — pressionei a mão no peito. — Bate na porta, criatura!

Minha melhor amiga entrou rindo, se jogando de barriga na minha cama e deixando o tênis pendurado pra fora.

— Uau, quantos papéis. Isso é o quê? Provas que você vai queimar porque não quer lembrar da escola?

— São… cartas — respondi, sem coragem de mentir.

Ela se apoiou nos cotovelos, curiosa.

— Cartas? De quem?

Engoli em seco.

— Minhas. Para o Gabriel.

Os olhos dela brilharam imediatamente.

— Não. Amei. Você guardou isso tudo? — Ela desceu da cama e pegou uma das cartas. — “Querido Gabriel…” Meu Deus, isso é ouro puro.

— Não lê! — tentei pegar de volta, mas ela já tinha começado.

— “Talvez um dia eu crie coragem pra te dizer tudo isso, mas por enquanto é só você e esse papel que não vão rir da minha cara.” — Ela me encarou, emocionada. — Ana, isso é tão… você.

Senti o rosto corar.

— Eu era ridícula.

— Você era apaixonada — corrigiu. — O que, inclusive, eu sempre soube.

Júlia puxou mais cartas, lendo trechos, rindo em algumas partes, suspirando em outras.

— E você nunca entregou nenhuma?

Balancei a cabeça.

— Nunca tive coragem. E também… depois de um tempo, percebi que era melhor assim. Era só uma fase, né? Eu ia superar.

— Aham — ela murmurou. — Tanto que você ainda guarda uma caixa inteira de cartas e fica vermelha só de ouvir o nome dele.

Revirei os olhos.

— E também, na época, ele nem ligava pra mim. Era sempre rodeado de gente, de meninas muito mais bonitas, mais confiantes… Eu era só a nerd da fileira da frente.

— Isso é mentira e você sabe. — Ela cruzou os braços. — E mesmo se fosse verdade, isso não invalida o que você sentia.

Ela olhou outra carta e abriu um sorriso malicioso.

— Você tem ideia de que isso daria um livro perfeito? “Cartas para meu primeiro amor”. A menina que escreveu tudo que sentia e nunca teve coragem de entregar.

Meu coração deu um mini pulo. Eu já tinha pensado nisso mil vezes. Era um título perfeito.

— Não é porque daria um livro que eu quero viver isso tudo de novo — respondi, tentando parecer racional.

Júlia jogou uma carta em mim.

— Tarde demais. Você viu o Instagram ontem?

Perdi o ar.

— Vi.

— Então. O universo está te dando uma segunda temporada, amiga. Gabriel Martins: o retorno.

Revirei os olhos de novo, mas no fundo… eu sabia que ela tinha um ponto.

— Só porque ele voltou não significa que eu tenho que fazer alguma coisa.

— Não significa. — Ela deu de ombros. — Mas também não significa que você precisa se esconder de novo.

Fiquei em silêncio.

Porque, no fundo, a verdade era essa: eu tinha passado a adolescência inteira escrevendo coisas que nunca disse. E agora, com ele de volta, eu precisava decidir se ia continuar fazendo isso.

Quando Júlia foi embora, a tarde já estava virando fim de dia. Fiquei sozinha no quarto, as cartas de novo espalhadas em volta de mim.

Peguei uma folha em branco.

Olhei pro papel, pro nome “Gabriel” escrito de novo, meio hesitante.

E escrevi.

“Querido Gabriel, Você voltou.”

Só isso. Duas palavras que mexeram com tudo.

Por algum motivo, essa carta parecia diferente. Como se, pela primeira vez, eu não estivesse escrevendo só pra mim mesma.

Eu não sabia ainda, mas aquela foi a primeira carta que realmente dava a sensação de que, talvez, um dia… pudesse ser entregue.