Cartas Para o Meu Primeiro Amor · Capítulo 3

Ele voltou de verdade

Descobrir que o Gabriel estava na cidade era uma coisa. Esbarrar com ele no meio da rua, do nada, era outra completamente diferente.

Mas é claro que foi isso que aconteceu.

Na segunda-feira, eu estava atrasada pra aula de reforço de redação. O céu estava nublado, minha mochila pesando uma tonelada, e eu tentando equilibrar um copo de café na mão direita enquanto respondia mensagem da Júlia com a esquerda.

“Você acha que ele vai aparecer no Horizonte hoje?” ela tinha perguntado.

“Dúvido. Ele já se formou faz tempo”, respondi, atravessando a rua rápido demais.

Foi aí que ouvi:

— Cuidado!

Uma mão segurou meu braço no exato segundo em que eu quase tropecei no meio-fio. O café balançou, mas não caiu. Eu também não.

Só que, quando levantei o olhar pra agradecer, o mundo ficou em silêncio.

Gabriel.

Ele estava ali. Mais alto do que eu lembrava, o cabelo um pouco maior, barba rala aparecendo. As mesmas sardas discretas no nariz, o mesmo sorriso fácil — mas agora, com alguma coisa… cansada, talvez?

— Tá tudo bem? — ele perguntou, ainda segurando meu braço.

Senti as palavras travarem.

— T-tá… sim… eu… — Ótimo, Ana. Vocabulário de três anos de idade.

Ele soltou meu braço devagar, como se tivesse medo de me machucar.

— Desculpa, te assustei? É que você quase caiu.

— Não, obrigada. Quer dizer, sim, você me assustou, mas… obrigada mesmo assim. — Eu estava oficialmente falando besteira.

Ele deu um risinho curto, e meu coração decidiu correr uma maratona.

— Você estuda no Horizonte, né? — Ele apontou pro meu moletom, com o nome do colégio.

— Estudo. Terceiro ano.

Ele assentiu, como se aquilo fizesse sentido.

— Eu estudei lá também. Faz tempo já.

Como se eu não soubesse.

— Eu lembro — escapou da minha boca antes que eu conseguisse segurar.

Ele franziu de leve a testa, curioso.

— Lembra?

Meu cérebro começou a gritar internamente: MENTE, ANA. Mas meu rosto já devia estar vermelho demais pra disfarçar qualquer coisa.

— É… você jogava no time de futsal. Todo mundo lembra.

Ele riu, meio sem graça, coçando a nuca.

— Pois é, era praticamente minha personalidade inteira, né?

Essa frase me pegou. No ensino médio, eu achava que ser o craque do time era tudo que ele queria ser. Nunca tinha imaginado que, talvez, ele mesmo se sentisse preso nesse rótulo.

— E agora? — perguntei, surpresa comigo mesma por ter continuado o assunto. — Ainda joga?

Ele deu de ombros.

— De vez em quando. Mas… — fez uma pausa — eu meio que dei uma bagunçada na vida. Agora tô tentando colocar as coisas em ordem de novo. Começando por voltar pra cá.

Uma versão do Gabriel que admitia que a vida não estava perfeita? Essa era nova.

Olhei pro relógio e levei um susto.

— Droga, vou me atrasar.

— Você tem aula agora? — Ele olhou na mesma direção que eu.

— Reforço de redação. — Fiz uma careta. — Redação e eu temos uma relação complicada.

Ele sorriu, um pouco mais aberto.

— Acho que você vai dar conta.

Se ele soubesse a quantidade de redações que eu fiz mentalmente sobre ele…

— Eu… preciso ir. — Dei um passo pra trás.

Ele assentiu, mas antes que eu pudesse fugir de vez, falou:

— Espera. Qual é o seu nome mesmo?

Meu coração literalmente parou.

Ele não sabia. É claro que não sabia. Mas ouvir a pergunta assim, na lata, doeu mais do que eu estava preparada para admitir.

Mesmo assim, sorri.

— Ana.

Ele repetiu, devagar, como se provasse o som.

— Ana. Certo. Prazer, Ana.

Estendeu a mão, num gesto bobo, mas que fez meus dedos tremerem quando toquei na palma dele.

— Prazer, Gabriel — respondi, fingindo que não sabia como se escrevia cada letra do nome dele desde os quinze anos.

Quando me afastei, senti os olhos dele me seguindo por alguns segundos. Não tive coragem de olhar pra trás.

Passei a manhã inteira revivendo a cena, detalhe por detalhe. O jeito que ele segurou meu braço. O sorriso sem graça. O “qual é o seu nome mesmo?”

À tarde, assim que cheguei em casa, fui direto pra caixa.

Puxei a última carta que tinha escrito — a do “Você voltou” — e peguei outra folha.

Dessa vez, minha mão deslizou mais rápido pelo papel.

“Querido Gabriel, Hoje você segurou meu braço antes que eu caísse. Pela primeira vez, em todos esses anos, você me olhou nos olhos e perguntou o meu nome. Você não faz ideia de quantas vezes eu escrevi ‘Ana’ ao lado do seu, sem que você soubesse…”

Quando terminei, as mãos tremiam.

Essa era a primeira carta que parecia pertencer ao presente, não só ao passado.

E, pela primeira vez, uma pergunta realmente me assustou:

E se, um dia, eu entregasse?