Cartas Para o Meu Primeiro Amor · Capítulo 1
A caixa que eu fingi não ver
Eu sempre achei que meu primeiro amor tinha ficado lá atrás, perdido entre provas de matemática, bilhetes dobrados em quatro e o cheiro de lanche da cantina. Pelo menos era nisso que eu escolhi acreditar.
Naquela tarde de sábado, eu não estava procurando meu passado. Eu estava procurando minha mochila de treino. Em vez disso, encontrei… a caixa.
Ela estava empurrada para o canto mais escuro do meu armário, atrás de cadernos velhos e de um urso de pelúcia sem um olho. Uma caixa de sapato comum, tampo de papelão meio amassado, com uma fita rosa desbotada.
Meu estômago gelou na hora.
Eu sabia exatamente o que tinha ali dentro.
— Não… — murmurei, já sentindo o rosto esquentar só de lembrar.
Poderia ter colocado de volta e empurrado com o pé, fingir que nunca tinha visto. Mas alguma coisa em mim — curiosidade, masoquismo, ou as duas coisas — me fez sentar no chão do quarto e puxar a caixa para perto.
Quando tirei a tampa, o cheiro de papel guardado invadiu o ar. Havia um maço de envelopes dobrados, todos escritos com a mesma letra torta e nervosa: a minha. Alguns tinham corações minúsculos no canto. Em todos, no lugar do destinatário, o mesmo nome:
“Para: Gabriel.”
Fechei os olhos por um segundo.
Gabriel Martins. O cara mais popular do Colégio Horizonte. Capitão do time de futsal, sorriso fácil, cabelo sempre bagunçado na medida certa. O tipo de garoto que parecia existir em slow motion quando entrava em qualquer lugar.
E que nunca, nunca olhou duas vezes para mim.
Eu era só a Ana. A menina que sempre sentava na frente, que fazia resumo colorido das matérias e que a professora pedia ajuda para organizar as apresentações. Eu não era exatamente invisível… mas ao lado dele, parecia.
Abri o primeiro envelope com cuidado, como se o papel fosse explodir.
“Querido Gabriel, Hoje você passou por mim no corredor e pediu desculpa quando esbarrou no meu caderno. Eu só consegui responder ‘tudo bem’ e dar um sorriso ridículo…”
Sorri sozinha, envergonhada de mim mesma, mesmo anos depois. Eu escrevia cada carta como se realmente fosse entregar. Mas nunca tive coragem. Todas terminaram na mesma caixa.
Peguei outra.
“Querido Gabriel, Você fez dois gols na final do campeonato hoje. Fiquei na arquibancada fingindo que estava lá por causa da Júlia, mas a verdade é que meu coração quase saiu pela boca quando você comemorou…”
O estranho era que… não doía mais daquele jeito. Não como antes. Era mais uma mistura de nostalgia e vergonha de adolescente.
Eu já tinha seguido em frente. Tinha outros problemas agora: vestibular chegando, pressão pra escolher faculdade, minhas amigas surtando com ex-namorados, e eu tentando fingir que estava tudo bem com a vida inteira.
Mas ainda assim, eu estava ali, no chão, relendo cartas para um garoto que não fazia ideia de que eu existia além de “oi” e “licença”.
— Ana, você arrumou o quarto? — a voz da minha mãe ecoou pelo corredor.
— Quase! — respondi, tentando esfregar uma lágrima que nem sabia que tinha deixado cair.
Juntei as cartas de novo, mas, em vez de guardar a caixa no fundo do armário, deixei embaixo da cama. Não sabia por quê. Só parecia… errado esconder de novo.
Naquela noite, deitei pensando em como eu era dramática no ensino médio. Quase ri lembrando de uma carta específica em que eu jurava que ia amar o Gabriel “para sempre”.
“Para sempre”, né.
Peguei o celular pra checar o horário e, como sempre, acabei abrindo o Instagram. A timeline descia sozinha, até que uma foto apareceu e meu dedo simplesmente parou.
Coração acelerado. Respiração presa.
A foto era de um grupo de amigos na porta de uma lanchonete famosa da cidade. No meio deles, com o mesmo sorriso de sempre — mas mais velho, mais… bonito — estava ele.
Gabriel Martins.
E a legenda, postada por um amigo em comum, dizia:
“Reunião dos antigos da Horizonte porque ELE VOLTOU PRA CIDADE! Quem lembra do mito? 😂🔥”
Senti o mundo parar por alguns segundos.
Meu primeiro amor estava de volta.
Abaixo da cama, uma caixa cheia de cartas que ele nunca leu. Na tela, a prova de que o passado tinha acabado de voltar.
E eu não fazia ideia do que isso significava.