A Noiva do Don · Capítulo 2
Vinte e Quatro Horas
Helena não lembrava exatamente como tinha saído do prédio dos Russo. Só tomou consciência de si mesma quando já estava no ônibus, as mãos geladas, o corpo inteiro tremendo, o cheiro de cigarro e chuva impregnado nas roupas.
“Você vai se tornar minha esposa.”
As palavras ecoavam na mente como um pesadelo que insistia em se repetir.
Ela desceu duas ruas antes do ponto de casa só para ganhar alguns segundos a mais. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Como é que a vida dela tinha virado isso em tão pouco tempo?
A porta do pequeno apartamento estava entreaberta. Má notícia.
— Levi? — chamou, entrando.
O irmão estava sentado no sofá, cabeça entre as mãos, o lugar cheio de latas vazias e copos pela metade. O rosto dele parecia ainda mais jovem daquele jeito – perdido, culpado.
— E então? — ele perguntou, sem coragem de encará-la. — Você conseguiu mais tempo?
Helena fechou a porta com calma. Era estranho: por dentro, ela estava em pedaços. Por fora, parecia feita de aço.
— Não — respondeu. — Não consegui.
Levi finalmente levantou o olhar. Os olhos dele estavam vermelhos, não se sabia se de choro ou de bebida.
— Como assim, “não”? — ele levantou do sofá. — Ele vai me matar, Helena.
— Vai — ela concordou, com uma frieza que o fez recuar. — Vai matar você, e provavelmente vai arrastar a gente junto pro inferno com você. Porque foi isso que você fez. — Apontou para ele. — Você arrastou a gente.
Ele piscou, magoado.
— Eu… eu só tava tentando… resolver. Pensava que ia ganhar de volta, que ia sair dessa.
— Jogando com dinheiro da máfia? — Ela deu uma risada vazia. — Isso não é tentar resolver, Levi. Isso é cavar a própria cova.
Ele desabou de novo no sofá, as mãos puxando o cabelo.
— Você não entende. Eu… eu tava desesperado, Lena. O aluguel atrasado, o trabalho não deu certo, aquela proposta furada… eu achei que era a única saída.
Ela ficou em pé diante dele, os olhos marejados, mas firmes.
— E a minha saída, qual é?
Levi não respondeu.
O silêncio entre os dois era carregado demais, pesado demais.
Helena respirou fundo.
— Ele fez uma proposta.
— Uma proposta? — Levi arregalou os olhos. — O quê? Pra eu trabalhar pra ele? Eu aceito, eu…
— Não — interrompeu. — Não é você.
Os olhos dele se estreitaram.
— Então quem?
Ela demorou um segundo a mais do que deveria.
E isso bastou.
— Não. — Ele balançou a cabeça, levantando. — Não, não, não, me diz que você não… Helena, o que ele pediu?
Ela olhou direto para ele, sem desviar.
— Ele quer que eu me case com ele.
Foi como se o tempo tivesse parado no apartamento.
Levi ficou completamente estático. Depois, deu um passo pra trás, como se tivesse levado um soco invisível.
— O quê?
— Ele disse que apaga sua dívida, garante sua proteção… desde que eu me torne a esposa dele.
Levi começou a rir. Um riso nervoso, quebrado, quase histérico.
— Não. Isso é loucura. Você tá brincando. Ele não pode… não é assim que as coisas funcionam. Não é filme, Helena!
— Aparentemente, pra ele é.
Ele se aproximou, desesperado.
— Você não vai aceitar. Diz que não vai. Me fala que você mandou ele pro inferno.
Ela mordeu o lábio inferior.
— Eu tenho vinte e quatro horas.
— Vinte e quatro… — Ele parou, encarando-a como se só agora entendesse o tamanho da encrenca. — Helena, eu não vou deixar você fazer isso. Eu prefiro morrer.
— Cala a boca. — A voz dela saiu mais alta do que pretendia. — Não fala isso nem de brincadeira.
— É sério! — ele insistiu. — Eu errei. Eu assumo. Não vou vender a sua vida pra consertar a minha.
Ela o empurrou de leve, irritada.
— E quem disse que é sua decisão?
Levi pareceu levar outro tapa.
— Você… está considerando?
Helena fechou os olhos por um momento.
Ela viu a infância dos dois passando diante dela. A mãe doente, o pai ausente, ela trabalhando em três lugares ao mesmo tempo enquanto Levi se perdia aos poucos, tentando parecer forte, mas sempre tropeçando.
Ela tinha passado a vida inteira segurando o mundo nos ombros. Seria agora que ia desistir?
— Se eu não aceitar, você morre — ela disse, simples, cruel. — Não hoje, não amanhã. Mas ele vai te achar. E quando achar, não vai ser rápido.
Levi engoliu em seco.
— E se você aceitar… você morre também. Por dentro.
A frase o matou tanto quanto a dívida.
Ela sentou ao lado dele, colocando a cabeça no ombro do irmão.
— Eu não sei o que fazer — confessou, num sussurro. — Eu sempre achei que dava pra consertar tudo com esforço, com coragem… mas isso… isso é maior que a gente.
Levi apertou a mão dela.
— Me deixa resolver.
— Como? Vai fugir? — Ela riu, sem humor. — Você sabe que ele vai te achar em qualquer buraco do país.
Ele ficou em silêncio.
O resto do dia foi um borrão. Helena foi trabalhar no café onde servia mesas – corpo presente, mente ausente. Esqueceu pedidos, derrubou uma bandeja, levou bronca do gerente. Voltou pra casa sem lembrar do caminho.
À noite, sentou na beira da cama e encarou o relógio.
23h17.
Vinte e quatro horas estavam quase no fim.
Seu celular vibrou.
Número desconhecido.
Ela atendeu com a voz fraca.
— Alô?
— Faltam quarenta minutos. — A voz de Adrian soou do outro lado, calma, como se falasse sobre previsão do tempo. — Você vem?
Ela sentiu cada célula do corpo se contrair.
Olhou para a porta do quarto, onde Levi dormia – ou fingia que dormia – no sofá da sala.
— Se eu disser não… — sua voz falhou — você vai realmente…?
— Não faço ameaças vazias, Helena.
As lágrimas começaram a cair, silenciosas.
Ela poderia escolher ficar. Poderia deixar tudo explodir, culpar o mundo, o destino, a máfia, o universo. Poderia escolher salvar a si mesma e perder o irmão.
Mas não era assim que ela era.
Nunca foi.
— Eu vou — respondeu, enfim.
Do outro lado da linha, silêncio por dois segundos. Depois, um tom satisfeito, quase imperceptível.
— Excelente. — Adrian disse. — Mando um carro te buscar em quinze minutos.
A ligação caiu.
Helena enxugou as lágrimas com raiva. Levantou, respirou fundo diante do espelho. A mulher que a encarou de volta parecia mais velha em um dia do que nos últimos cinco anos.
Ela pegou a mochila, deixou um bilhete rápido em cima da mesa:
“Não me segue. Não tenta fazer nada idiota. Eu estou fazendo isso por você. Não me faça me arrepender.”
Assinou com um pequeno coração, como fazia quando eram crianças.
Quando desceu para a rua, o carro preto já estava parado na calçada, faróis ligados.
Helena entrou no banco de trás.
O motorista não disse uma palavra.
Enquanto a cidade passava pela janela, ela tentou pensar em alguma forma de escapar, em alguma reviravolta milagrosa, em alguma saída que não envolvesse entregar a própria vida.
Nada veio.
Quando o carro parou em frente à mansão Russo, ela sentiu como se estivesse cruzando um portal.
O segurança abriu a porta.
Helena desceu, a perna quase falhando.
Adrian já a esperava na entrada, terno escuro impecável, as mãos nos bolsos, olhar preso nela como se fosse a única coisa que importava naquele terreno inteiro.
— Então… — ele disse, quando ela parou a poucos passos.
Helena engoliu em seco.
— Eu aceito.
Um brilho perigoso passou pelos olhos dele.
— Bem-vinda, Helena. — Um sorriso quase imperceptível se desenhou no canto de sua boca. — A partir de agora, você é minha.
E, pela primeira vez, ela entendeu que não havia retorno.
Nada seria igual depois daquela noite.