A Noiva do Don · Capítulo 3

A Noiva

“Minha.”

A palavra ecoava nos corredores da mansão enquanto Helena seguia o segurança que a guiava. Ela tinha acabado de vender a própria liberdade em troca da vida do irmão. A ficha ainda não tinha caído completamente.

— Este será o seu quarto por enquanto — disse a governanta, uma mulher de meia-idade de expressão dura, abrindo uma porta enorme.

“Por enquanto”. Como se aquilo fosse uma espécie de estágio para o inferno.

O quarto era grande, bonito até demais: cama king-size, cortinas pesadas, uma janela enorme com vista para o jardim iluminado. Nada combinava com a vida simples que ela tinha até ali.

— O senhor Russo pediu que a senhorita tenha um banho, vista algo apropriado. — A mulher entregou um cabide com um vestido longo, de seda clara. — Hoje à noite teremos… formalidades.

Helena pegou o vestido, sentindo o tecido escorregar pelos dedos.

— Ele está aqui? — perguntou, sem conseguir evitar.

— O Don sempre está em todos os lugares — respondeu a governanta, num tom que não ajudava em nada a acalmar.

Depois de um banho demorado – mais para tentar organizar os pensamentos do que por necessidade – Helena parou diante do espelho, já usando o vestido. A seda abraçava suas curvas de um jeito que ela não estava acostumada. O cabelo solto caía pelos ombros.

Ela parecia alguém que não reconhecia.

Um toque na porta.

— Entre — ela disse.

Adrian entrou.

Não havia seguranças com ele, nem assessores, nem família. Só ele.

Por um segundo, Helena esqueceu como se respirava.

Ele usava um terno preto bem cortado, sem gravata, os dois primeiros botões da camisa abertos. O cabelo estava levemente penteado para trás, deixando o rosto ainda mais definido. Ele a olhou de cima a baixo, devagar, como se estivesse avaliando uma aquisição valiosa.

O olhar dele queimava.

— Ficou melhor do que eu imaginei — disse, por fim.

Helena cruzou os braços, tentando criar alguma barreira invisível.

— Você poderia ter apenas perdoado a dívida — alfinetou. — Não precisava me transformar em… isso.

— “Isso”? — ele ergueu uma sobrancelha. — Em minha esposa?

Ela engoliu em seco.

— Ainda não sou sua esposa.

— Detalhes. — Ele deu um passo para mais perto. — A cerimônia será simples. Civil, com algumas testemunhas. O que importa não é o espetáculo. É o compromisso.

— Você nem acredita em casamento — ela retrucou.

Ele sorriu, mas não chegou aos olhos.

— Antes eu não tinha motivo para isso.

Helena sentiu o coração tropeçar.

Ele ofereceu o braço.

— Vamos.

— Agora? — Ela arregalou os olhos. — Você está falando sério?

— Estou sempre falando sério, Helena. — O olhar dele ficou mais intenso. — Quanto mais tempo você ficar sem o meu sobrenome, mais tempo seus inimigos – e os meus – terão para pensar que pode tocá-la.

Ela hesitou, mas entrelaçou o braço no dele.

Ao descer as escadas, viu algumas pessoas reunidas: dois homens de meia-idade que pareciam conselheiros, uma senhora de expressão severa que deve ser algum parente distante, um padre – ou alguém vestido como um –, e um funcionário do cartório.

Tudo planejado.

Tudo decidido sem ela.

O “sim” saiu da boca dela mais baixo do que imaginava, mas suficiente para o oficial registrar.

O “sim” dele saiu firme, sem a menor sombra de dúvida.

Quando o homem anunciou que eles estavam oficialmente casados, o mundo pareceu dar uma volta estranha, como se a gravidade tivesse mudado.

— Agora você é Helena Russo — Adrian disse, usando a mão para erguer o queixo dela.

Ela o encarou.

— Isso não significa que eu pertenço a você.

Ele se inclinou até os lábios quase tocarem o ouvido dela.

— Significa exatamente isso.

Antes que pudesse responder, alguém entrou apressado na sala, sussurrando em seu ouvido. Adrian assentiu, o rosto ficando ainda mais sério.

— Teremos uma pequena “recepção” — anunciou. — Nada demais. Algumas pessoas importantes querem ver quem é minha esposa.

Helena sentiu o estômago revirar.

Horas depois, já no salão da mansão, ela sentia os olhares sobre si. Havia homens de terno falando baixo em cantos, mulheres elegantes a estudando com curiosidade e julgamento, e funcionários circulando com bandejas.

Ela se sentia exposta, como um troféu.

Adrian mantinha a mão nas costas dela o tempo inteiro, guiando-a, apresentando-a como “minha esposa” com um orgulho que ela não entendia.

— Eles respeitam o que é meu — murmurou no ouvido dela em determinado momento. — Lembre-se disso.

— Eu não sou um objeto.

— Nunca disse que era. — O olhar dele se estreitou. — Mas você é minha prioridade. E prioridade eu protejo.

Antes que pudesse rebater, um som cortou o ambiente.

Um estampido seco.

Depois outro.

Gritos.

Vidros estilhaçados.

Alguém apagou as luzes por instinto, e o salão mergulhou num caos imediato.

Helena congelou.

Não era barulho de festa.

Era tiro.

— Abaixem-se! — um dos homens gritou.

Ela mal conseguiu reagir antes de sentir uma mão forte a puxando.

Adrian a jogou no chão atrás de uma grande mesa de madeira, cobrindo o corpo dela com o seu, enquanto outro disparo ecoava do lado de fora.

O coração de Helena disparou, o som misturado ao cheiro de pólvora e perfume caro.

— O que está acontecendo?! — ela sussurrou, apavorada.

Ele olhou para ela por um segundo — um olhar escuro, selvagem, perigoso.

— Bem-vinda ao meu mundo, esposa.

E naquele instante, Helena entendeu: ninguém exagerou nas histórias sobre ele.

O inferno não começava depois do casamento.

Ele tinha acabado de dizer “sim” com ela dentro.