A Noiva do Don · Capítulo 1
A Proposta do Monstro
Helena sempre acreditou que a vida tinha limites bem definidos: o certo, o errado, e o que a gente precisava fazer para sobreviver. Ela jamais imaginou que um dia precisaria ultrapassar todos eles.
A chuva caía pesada quando ela empurrou a porta de vidro do prédio onde funcionava o antigo cassino da Família Russo, agora camuflado como “clube privado”. Era quase meia-noite, mas por dentro parecia outro mundo: iluminação baixa, cheiro de uísque envelhecido, seguranças que não piscavam.
E no centro de tudo aquilo, o homem que podia decidir se seu irmão viveria… ou não.
Adrian Russo.
Dizem que ele não sorri. Que um gesto dele faz famílias inteiras desaparecerem. Que sua voz é calma demais para alguém que carrega tanto sangue nas mãos.
Helena engoliu seco quando o viu sentado atrás da mesa de madeira escura, observando alguns documentos com expressão indecifrável.
Ela apertou o casaco contra o corpo, tentando impedir que as mãos tremessem.
— Você está atrasada — ele disse sem levantar os olhos.
O som da voz dele era profundo, firme. Não agressivo… mas carregado de autoridade. Um aviso por si só.
— Eu… não consegui antes. — Helena tentou controlar a respiração. — Preciso falar sobre o meu irmão.
Agora sim, Adrian levantou o olhar.
E foi como se o ar ficasse mais fino.
Ele era ainda mais intenso do que diziam. Traços fortes, barba aparada, olhos escuros que não revelavam nada. Não era bonito no sentido tradicional — era perigoso. Hipnotizante. Um tipo de beleza que você não podia encarar por muito tempo sem esquecer de respirar.
— Seu irmão — ele repetiu, interligando os dedos sobre a mesa. — Levi Marconi. Vinte e dois anos. Jogador compulsivo. Devia ter escolhido outra família para enganar.
Helena apertou os lábios. Ela já esperava por aquilo, mas ouvir assim… doía.
— Ele não enganou ninguém. Ele só… se perdeu.
— Dívidas não desaparecem porque alguém se “perde”. — Adrian empurrou um papel na direção dela. — Ele deve cento e vinte mil dólares. E antes que você pergunte, não, senhorita Marconi, isso não inclui juros, danos, ou o fato de ele ter quebrado o dedo de um dos meus homens quando tentou fugir.
Helena cobriu a boca por um instante, horrorizada.
— Ele não faria isso.
— Ele fez. — Adrian reclinou na cadeira, analisando-a com calma. — Você veio até aqui sabendo que não tinha como pagar. Então diga: o que exatamente esperava conseguir?
Ela não tinha um plano perfeito. Veio porque não tinha alternativa.
— Eu… estava esperando negociar. Dar mais tempo. Convencer você…
— Convencer-me a perdoar uma dívida com essa quantia? — Ele inclinou levemente a cabeça. — E por quê? Porque ele tem olhos bonitos? Porque você acredita em finais felizes?
Helena se forçou a manter a compostura.
— Porque ele é meu irmão. E porque… se alguma coisa acontecer com ele, eu nunca vou me perdoar.
Por um segundo, Adrian a observou em silêncio — não de forma cruel, mas avaliando algo por trás das palavras. Ela percebeu que ele estava tentando entender de onde vinha aquela coragem absurda de aparecer ali sozinha.
— Você tem coragem. Ou é só desespero? — ele murmurou.
— Talvez os dois.
Ele se levantou.
O movimento fez o ambiente inteiro parecer menor. Ele era alto, forte, com postura impecável. Não havia nada nele que sugerisse cansaço, dúvida… ou compaixão.
— Vou ser direto. — Adrian contornou a mesa, parando a poucos passos dela. — Seu irmão não vale nada para mim. Mas você, Helena… você é interessante.
Ela sentiu o coração tropeçar.
— O que… o que isso significa?
Ele a estudou como se estivesse decidindo se ela era digna de escutar o que viria a seguir.
— Significa que eu tenho uma proposta.
Não havia nada de bom na palavra “proposta” vinda dele.
— Eu posso garantir proteção para seu irmão. Posso zerar a dívida. Posso impedir que qualquer outra família coloque um dedo nele. — A voz de Adrian era baixa, letal. — Mas isso tem um preço.
— Que preço? — ela sussurrou.
Ele aproximou os lábios de seu ouvido.
— Você.
O corpo de Helena inteiro gelou.
— Eu… não entendi.
— Entendeu, sim. — Ele segurou o queixo dela com firmeza, mas sem machucar. — Você vai se tornar minha esposa.
Helena recuou um passo, atordoada.
— Isso é insano! Você nem me conhece!
— Não preciso conhecer para saber que quero. — Adrian a encarou como se estivesse analisando cada detalhe do rosto dela. — Você tem fogo nos olhos, Helena. Gosto disso.
Ela sentiu o estômago revirar — não de medo, mas de algo estranho, uma mistura proibida que não queria reconhecer.
— Eu não posso aceitar isso — murmurou.
— Você tem vinte e quatro horas. — Ele deu as costas e voltou para sua mesa. — Amanhã, à meia-noite. Se não aparecer, seu irmão desaparece primeiro.
Helena sentiu o sangue sumir do rosto.
— Você não faria isso…
— Eu faria qualquer coisa. — Adrian afirmou sem emoção. — E você sabe.
Ela ficou imóvel na porta.
Antes de sair, ouviu a última frase dele:
— Pense bem, Helena. Este casamento… é o único final feliz que o seu irmão tem.
E então ela entendeu:
Para salvar quem amava, precisaria entregar sua vida ao monstro mais temido de Chicago.