A Corte dos Esquecidos · Capítulo 2

A Corte

A Corte dos Esquecidos não era o que Lara esperava.

Ela não sabia exatamente o que esperava — castelo de pedra negra, talvez, com tochas sombrias e corvos estrategicamente posicionados. Havia pedra negra. Havia tochas. Mas havia também algo que nenhuma descrição de lugar sombrio jamais mencionava: a qualidade específica do silêncio. Não o silêncio de lugar vazio — o silêncio de lugar que aprendeu a ficar quieto porque barulho não adiantava mais.

As árvores à beira da estrada tinham a casca prateada e as folhas de um verde tão escuro que pareciam pretas na penumbra permanente. O céu era de um crepúsculo que não avançava para a noite nem recuava para o dia — preso, ela percebeu, como tudo ali estava preso de alguma forma.

— A maldição — disse ela, mais para si mesma do que para ele.

— Sim. — Kael caminhava à sua frente com aquela precisão que ela já estava catalogando: cada passo calculado, nada desperdiçado. — Quando a maldição foi lançada, o tempo nesta corte parou de avançar completamente. Sempre este horário. Sempre esta luz.

— Quanto tempo faz?

— Em anos do seu mundo? — Ele considerou. — Duzentos e trinta e dois.

Lara ficou olhando para o céu imóvel.

— Minha nossa.

— Sim.

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O interior do castelo era mais habitado do que ela esperava. Havia fae em corredores — altos, de movimentos fluidos, todos com aquela mesma qualidade de estar completamente presentes no espaço sem ocupá-lo de forma barulhenta. Eles olhavam para ela com expressões que ela aprenderia a ler nas semanas seguintes: curiosidade controlada, ceticismo educado, e, em alguns casos, algo que se parecia perturbadoramente com esperança.

Ela não gostou da esperança. Esperança significava expectativa, e expectativa significava frustração programada.

Kael a levou até um quarto na ala leste — amplo, com teto alto e uma janela que dava para o jardim de árvores prateadas. A cama tinha lençóis de algum tecido que ela não reconhecia, mais suave do que qualquer coisa que tinha dormido. Havia uma escrivaninha, uma estante vazia e um espelho grande que, ela notou com desconforto, não refletia exatamente a luz da tocha do jeito que devia.

— Treino começa amanhã — disse ele, da entrada.

— Às que horas?

Ele olhou para ela como se a pergunta fosse simultaneamente lógica e completamente irrelevante.

— Quando eu mandar chamar.

— Útil — disse ela.

Ele não respondeu. Girou sobre os calcanhares e saiu.

Lara ficou olhando para a porta fechada por um longo momento.

— Adorei você também — disse ela para o quarto vazio.

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Ela não dormiu bem. O silêncio era diferente do silêncio do seu apartamento — não havia barulho de trânsito, vizinhos, o zumbido constante de uma cidade que nunca desliga completamente. Aqui havia apenas aquele silêncio denso, e o vento nas árvores prateadas lá fora que soava como alguém tentando lembrar de uma melodia que esqueceu.

Pela manhã — se é que havia manhã, já que a luz era idêntica ao que tinha sido "noite" —, ela encontrou roupas dobradas sobre a cadeira. Não as suas — as suas estavam ali também, numa mochila que ela nem tinha lembrado de pegar. As novas eram de tecido escuro, confortáveis, claramente feitas para movimento.

Ela trocou e foi explorar enquanto esperava ser "mandada chamar".

O castelo era maior por dentro do que parecia por fora — não de forma sobrenatural impressionante, mas do jeito prático de lugar que foi sendo adicionado ao longo de séculos conforme a necessidade surgiu. Havia bibliotecas, salas de reunião, cozinhas que funcionavam com métodos que ela não conseguia identificar completamente. Havia fae trabalhando em tudo isso com eficiência tranquila.

Foi numa galeria de retratos que ela parou.

Os quadros eram antigos — estilos diferentes de épocas diferentes, mas todos mostrando a mesma Corte em estados distintos. Nos mais velhos, havia luz natural nas janelas. Havia jardins com flores coloridas. Havia expressões nos rostos dos fae retratados que eram claramente alegria.

Nos quadros mais recentes, tudo era mais escuro. Mais quieto.

— Você não devia estar aqui.

Lara não se virou de imediato. Terminou de olhar para o quadro mais recente — Kael, sem dúvida, posando com a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar.

— O retrato é seu? — disse ela, se virando.

Era ele. Com exatamente a mesma expressão do quadro.

— Esta ala não é para visitas.

— Você não me deu um mapa. — Ela indicou os quadros com um gesto. — Esses são todos da Corte antes da maldição?

Uma pausa de um segundo. — Sim.

— Parecia diferente.

— Era diferente. — Ele começou a andar em direção ao corredor principal. — Venha. O treino começa agora.

Lara o seguiu, mas não sem lançar um último olhar para o quadro mais antigo — a Corte cheia de luz, Kael num canto com um sorriso que parecia pertencer a uma pessoa completamente diferente.

Ela arquivou aquilo no lugar onde guardava as coisas que pretendia entender mais tarde.