A Corte dos Esquecidos · Capítulo 1
O Que Existe Dentro Dela
O transformador explodiu às 23h47, e Lara sabia que a culpa era dela.
Não o transformador especificamente — ela não tinha tocado em nada, não tinha chegado perto, estava do outro lado da rua quando o metal cedeu e as faíscas cortaram o ar como fogos de artifício estragados. Mas ela sabia. Da mesma forma que sabia sempre: pelo formigamento na ponta dos dedos que não passava desde a tarde, pelo cheiro de ozônio que a acompanhava quando as coisas ficavam ruins, pelo jeito que a chuva tinha começado do nada trinta minutos antes, pesada e raivosa, respondendo a alguma coisa dentro dela que não tinha nome.
Três quarteirões de apartamentos sem luz. Uma mulher gritando de uma janela. Dois carros parados no meio da rua com os sistemas elétricos mortos.
Lara ficou parada na calçada molhada, respirando fundo, tentando fazer o formigamento parar.
— Impressionante — disse uma voz atrás dela.
Ela se virou.
O homem que estava ali não estava molhado.
Isso foi a primeira coisa que ela notou — a chuva caía em volta dele mas não nele, como se o ar a alguns centímetros da sua pele tivesse decidido que ele era exceção às leis da física. Era alto, cabelos escuros presos sem cerimônia, pele pálida que não era da cor de quem passa pouco tempo ao sol — era da cor de quem nunca viu sol de verdade. Os olhos eram de um cinza tão claro que pareciam quase brancos na penumbra.
Ele tinha a expressão de alguém avaliando um problema de engenharia.
— Quem é você? — disse ela.
— Alguém que chegou a tempo. — Ele olhou para o transformador destruído, depois para ela. — Mais ou menos.
— A tempo de quê?
— De você não destruir o resto do bairro.
Lara abriu a boca para dizer que ele estava completamente errado, que aquilo tinha sido uma falha elétrica comum, que ela não tinha nada a ver com nada. Mas o formigamento nas mãos pulsou uma vez, forte, e a lâmpada do poste acima dela explodiu.
Silêncio.
— Tudo bem — disse ela. — Fala.
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O nome dele era Kael. Ele não elaborou sobre sobrenome ou título com a simplicidade que a maioria das pessoas usa para se apresentar — disse o nome e ficou esperando, como se isso fosse suficiente. Lara ficou sabendo o resto aos pedaços, ali na calçada, com a chuva que teimosamente não o tocava e o bairro escuro ao redor deles.
Havia um lugar. Uma Corte, ele disse, sem nenhum constrangimento pela estranheza da palavra. Existia em uma camada do mundo que ficava exatamente onde o mundo comum terminava — não acima, não abaixo, mas ao lado, como uma segunda página que você só vê se souber dobrar o papel do jeito certo. A Corte dos Esquecidos.
Ela pertencia lá. Não da forma que pertencemos a lugares por nascer neles — da forma que um rio pertence ao caminho que escava com o tempo.
— O poder que você tem — disse ele — não é treinável aqui. A estrutura deste mundo não comporta. Você vai continuar destruindo transformadores até destruir algo que não se conserta.
— Pessoas — disse ela.
— Sim.
Ela apreciou que ele não tentou suavizar.
— E o que você quer em troca?
Algo passou pelo rosto dele — rápido, quase imperceptível. — Preciso de alguém com o seu tipo de poder para quebrar uma maldição. Você aprende a controlar o que tem. Eu consigo o que preciso.
— Um acordo.
— Um acordo.
Lara olhou para as mãos. A pele estava normal — nenhuma marca, nenhum brilho, nada que explicasse os três apagões que ela tinha causado no último mês. Nada que explicasse a tempestade de outubro que tinha destruído a plantação da sua vizinha ou o incêndio do fusível do apartamento sempre que ela ficava com raiva de verdade.
Nada que explicasse que ela sabia, desde os doze anos, que havia algo errado dentro dela. Não o tipo de errado que se resolve.
— E se eu não quiser? — disse ela.
— Você vai querer. — Ele olhou para o transformador. — Porque a alternativa é continuar esperando o próximo acidente ser pior do que este.
Era uma afirmação, não uma ameaça. Isso, mais do que qualquer outra coisa, foi o que a convenceu.
— Quando?
Ele estendeu a mão. No centro da palma havia uma marca — pequena, geométrica, luminosa por um segundo e depois apagada. — Agora.
Lara respirou fundo. Olhou para o bairro escuro, para os vizinhos que iam acordar amanhã sem saber o que tinha acontecido. Para a vida que tinha passado tentando ser menor do que o que existia dentro dela.
Colocou a mão na dele.
O portal abriu no meio da calçada como uma ferida na realidade — e do outro lado havia um céu que nunca tinha visto sol, e árvores de prata, e o cheiro de algo muito antigo e muito errado que, estranhamente, cheirava mais a casa do que qualquer lugar em que ela tinha estado.
Ela passou.
A chuva parou imediatamente do outro lado.
Kael entrou atrás dela e o portal fechou sem som, deixando a calçada molhada vazia como se nenhum dos dois tivesse existido.